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Há futuro depois de Jobs?

 | 07.08.2008

A Apple faz mistério sobre o real estado de saúde de seu fundador e levanta a dúvida: existe alguém capaz de substituí-lo à altura?

 

Kimberly White/Reuters

Steve Jobs em junho: sua aparência assustou o mercado

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Por Denise Dweck

EXAME 

Todo lançamento de produtos da Apple é um show comandado pelo presidente e fundador da empresa, Steve Jobs. Os eventos seguem um roteiro que começa semanas antes do grande dia, com especulações da blogosfera sobre as novidades que serão apresentadas, e terminam muito tempo depois de encerradas as atividades oficiais, com exames obsessivamente detalhados de cada um dos novos produtos ou softwares anunciados. O último desses eventos, porém, foi um pouco diferente. Os comentários sobre a conferência anual de desenvolvedores não ficaram restritos ao iPhone 3G, a aguardada segunda encarnação do produto. A aparência de Jobs, que estava muito mais magro que o habitual, tornou-se assunto tão importante quanto as funções do novo iPhone. Logo apareceram rumores sobre a possibilidade de ele estar doente, com a reincidência de um câncer de pâncreas curado em 2004.

Em resposta às especulações, a porta-voz da Apple disse que o problema era uma “bactéria comum”. Em julho, no dia em que a empresa anunciou resultados do trimestre, os números positivos foram ofuscados por uma nova divagação sobre a saúde de Jobs: uma reportagem do jornal New York Post descrevia investidores “atordoados” com a magreza de Jobs. A empresa não deu explicações e, no dia seguinte, as ações da Apple chegaram a cair 12%. Desde então, não houve mais nenhuma declaração oficial sobre o assunto, apenas uma curiosa ligação do próprio Jobs a Joe Nocera, jornalista do New York Times especializado em tecnologia. Antes de entrar no assunto, Jobs — conhecido por sua maneira normalmente irascível de tratar as pessoas — ofendeu Nocera e disse que falaria apenas se os termos exatos da conversa não fossem reproduzidos. O repórter concordou e escreveu em sua reportagem que o mal que aflige Jobs não é grave. A estranheza do episódio, naturalmente, não ajudou em nada. A identificação das companhias com seus fundadores é natural. Mas em nenhuma outra empresa admirada e estudada como a Apple essa ligação é tão intensa. Steve Jobs é a Apple, e a Apple é Steve Jobs. Ao insistir em manter segredo sobre o real estado de seu principal personagem, a pergunta é inevitável: existe futuro para a Apple sem Steve Jobs?

Se existe um plano de sucessão em curso, ninguém sabe. Como qualquer assunto que diga respeito à casa do Mac e do iPod, é segredo. Os comentários resumem-se a uma frase nada elucidativa: “Temos muitas pessoas capazes”. É claro que a sucessão não precisa ser aberta ao mercado. “Nem é desejável que seja assim, pois pode desmotivar as pessoas que não são escolhidas”, disse a EXAME Peter Capelli, diretor do centro de recursos humanos da escola de administração Wharton, da Universidade da Pensilvânia. Mas o processo de sucessão não pode ser ignorado, tanto para garantir a continuidade do trabalho do fundador como para evitar dúvidas no mercado. “É importante a empresa deixar outras pessoas visíveis”, diz Robert Mittelstaedt, reitor da escola de negócios W.P. Carey, da Universidade Estadual do Arizona. “Na Apple, só se vê Steve Jobs.” Esse é um nó complicadíssimo de desatar. Faz bem para a imagem da empresa a idéia de que Jobs, um dos pioneiros da revolução dos computadores pessoais, é o grande responsável por produtos icônicos, como o iPod e o iPhone. É incalculável o valor de tê-lo duas vezes por ano no palco de um teatro apresentando as novidades. Mas isso é mais marketing do que realidade. “Jobs participa de todas as decisões, mas as idéias surgem de experimentações de uma equipe de 100 pessoas”, diz o jornalista Leander Kahney, autor de Inside Steve’s Brain (“Por dentro do cérebro de Steve”, numa tradução livre).

A substituição de uma figura com a estatura de Jobs não é trivial, e isso é especialmente verdadeiro nas empresas da jovem e dinâmica indústria de tecnologia da informação. Nas empresas de software, os produtos são idéias que o fundador tinha na cabeça e transformou em código, muitas vezes sozinho. A Oracle é indissociável da figura do extravagante e desbocado Larry Ellison, que fundou a empresa com base em um software que ele criou para a CIA. Numa recente aparição pública, o presidente do Google, Eric Schmidt, disse que uma das dificuldades do crescimento estava justamente no fato de o software ser algo tão pessoal: “Se você olhar para a história do desenvolvimento de software, tudo o que existe de interessante foi criado por duas pessoas. É da natureza da tecnologia”. Também contribui para essa ligação o crescimento rápido das companhias. “Em menos de dez anos, uma start-up pode se tornar um negócio de bilhões de dólares. E os fundadores permanecem nela, imprimindo sua visão”, diz Kartik Hosanagar, professor de gerenciamento de informação da escola de negócios Wharton.

Mas é possível fazer a transição de forma planejada, e o maior exemplo disso está na arqui-rival da Apple, a Microsoft. A saída de Bill Gates da operação diária da empresa, em julho, foi anunciada em 2006, mas começou a ser planejada muitos anos antes disso. Quando falou de sua partida, Gates já tinha passado a posição de presidente para Steve Ballmer havia seis anos. O restante de suas funções foi repassado a dois outros altos executivos, Ray Ozzie e Craig Mundie. “O mercado recebeu bem a notícia, pois teve tempo para se ajustar às mudanças”, diz Paul DeGroot, analista da consultoria americana Directions on Microsoft. Mas o tempo de preparo nem sempre é sinônimo de sucesso. A fabricante de computadores Dell viu isso no ano passado, quando seu fundador, Michael Dell, teve de voltar para a presidência após a companhia perder para a HP a liderança mundial na venda de PCs. Kevin Rollins, ex-consultor da Bain, era o braço-direito de Dell e vinha sendo preparado para assumir a empresa havia oito anos. Apesar do longo tempo de treinamento, Rollins fracassou.

O que mais preocupa investidores, consumidores e fãs da Apple, porém, não é só a falta de um plano de sucessão — é a falta de um sucessor. “Jobs transformou traços pessoais em processos de negócios”, diz o jornalista Kahney. “O problema é o substituto. Um presidente com idéias novas pode estragar o que foi construído.” A necessidade de manter a visão de Jobs faz as apostas recair sobre executivos da própria empresa. Um possível candidato é Timothy Cook, responsável pelas operações. Outro nome forte é Scott Forstall, chefe da divisão de iPhone. Na lista também estaria Jonathan Ive, responsável pelo design dos produtos Apple e influente nas opiniões de Steve Jobs. A questão é a diferença de personalidade. Mesmo tendo reputação de chefe cruel, Jobs é apaixonado pelo que faz e inspira os subordinados. Quando ele pendurar as chuteiras, talvez a empresa perca o charme. E algumas pessoas podem perder o desejo de trabalhar caso o ícone do mundo da computação não esteja por perto. “É provável que a Apple busque uma equipe para substituí-lo, de duas ou três pessoas com credenciais impressionantes”, diz John Davis, especialista em negócios familiares da Harvard Business School. “Steve Jobs é um fundador muito difícil de substituir. E a Apple já teve dificuldade para fazer isso antes.”

A empresa terá de tomar uma decisão a respeito de um de seus traços mais marcantes: a obsessão pelo segredo e pelo controle das informações. Somente em março deste ano, depois de uma reportagem da revista americana Fortune, vieram à tona os detalhes do raro câncer pancreático que acometeu Jobs. Ele soube da doença em outubro de 2003, mas só foi operado nove meses depois. Nesse tempo, nada foi revelado aos acionistas ou aos funcionários da companhia. O conselho da Apple optou pelo silêncio após consultar advogados. A notícia do câncer só foi dada em julho de 2004, num e-mail que o próprio Jobs enviou aos funcionários. Não existem leis específicas sobre que informações uma empresa deve divulgar sobre o estado de saúde de seu presidente. Mas a boa governança sugere que se comuniquem problemas que afetam seu trabalho. Cada empresa tem uma abordagem. Em 2000, o investidor Warren Buffett descobriu que teria de fazer uma cirurgia para retirar pólipos do cólon e logo enviou um comunicado à imprensa. Já a Intel ficou calada, em 1995, quando seu então presidente, Andrew Grove, teve câncer de próstata. Jobs dá raríssimas entrevistas e faz poucas aparições públicas. A atitude resguardada sempre contribuiu para construir sua imagem pública. Mas, de agora em diante, o silêncio vai ganhar um novo significado — e isso pode ter conseqüências diretas em um dos negócios mais admirados do planeta.

O preço do silêncio

Algumas atitudes da Apple — ou a falta delas — contribuem para as especulações sobre o futuro da companhia
Quando surgiram dúvidas recentes sobre a saúde de Steve Jobs, a Apple não fez um anúncio ofi cial sobre o que estava acontecendo com o fundador da empresa — a única notícia sobre seu estado de saúde apareceu em uma reportagem do New York Times
A empresa diz ter um plano de sucessão, mas não deixa visível ao público quais poderiam ser os candidatos. Steve Jobs geralmente aparece sozinho em apresentações importantes
A centralização dos anúncios e das atividades da companhia em Jobs tem valor estratégico de marketing, mas, ao mesmo tempo, envia uma mensagem aos acionistas de que tudo na Apple depende dele
A empresa concentrou seus esforços em poucos produtos. Isso demanda constantes inovações, o que hoje está diretamente ligado a Jobs
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