Revista EXAME -
O americano John Kao levou mais de três décadas para encontrar a profissão de seus sonhos — a de guru da inovação. No final dos anos 60, ainda estudante, Kao flertou com a carreira de pianista na banda do lendário roqueiro Frank Zappa. Seguindo o conselho do pai, largou os teclados para se formar em psiquiatria pela Universidade Yale. Anos depois, cursou um MBA pela Harvard Business School, onde viria a lecionar técnicas inovadoras de gestão por 14 anos. Mesmo convertido ao mundo dos negócios, ele não abandonou a cena artística, tendo trabalhado na produção de filmes como Sexo, Mentiras e Videoteipe, um cult do final dos anos 80. Hoje, aos 57 anos, o inquieto Kao ganha a vida aconselhando empresas e governos a apostar na integração entre ciência, tecnologia e empreendedorismo. Anos atrás, foi apelidado de “Mr. Creativity” (Sr. Criatividade) pela prestigiada revista The Economist. Filho de um casal de chineses que emigrou para Chicago a fim de fugir da opressão da revolução maoísta, Kao é um entusiasta da inventividade capitalista americana — mescla de gênio e teimosia que forjou gente como Henry Ford (o pai do automóvel) ou Steve Jobs (o pai do iPod). Troféus de primeira grandeza do sonho americano, tais invenções têm gerado fortunas, desbravado mercados e garantido a supremacia econômica e tecnológica do país. O problema é que essa primazia corre perigo, conforme Kao adverte no livro Nação Inovadora, que acaba de ser lançado no Brasil pela editora Qualitymark. Considerado pela revista Business Week um dos dez melhores livros de negócios de 2007, Nação Inovadora sustenta que se nas próximas décadas nada for feito pelas empresas, pelas escolas e pelo governo americano os Estados Unidos comerão poeira na corrida mundial por novas patentes.
“Meu país precisa acordar para o fato de que a inovação tornou-se um ativo global, germinando em nações tão diversas quanto China, Finlândia ou Brasil”, disse Kao a EXAME durante uma recente visita a Brasília. Para tentar mostrar a gravidade do problema — e como lidar com ele —, Kao dividiu o livro em três partes. A primeira delas faz o diagnóstico da situação. O autor argumenta que a combinação do desencanto gerado pela crise econômica com a onda de xenofobia que sucedeu os ataques de 11 de setembro vem asfixiando a chama da inovação. Em seguida, Kao mostra o surgimento de centros de pesquisa e desenvolvimento fora dos Estados Unidos. Finalmente, ele propõe uma agenda para que o país recupere a condição de nação inovadora por excelência. Apesar da prosa fluente do autor, alguns tropeços na tradução brasileira (como a troca da palavra “personagens” por “caracteres”) atravancam um pouco a leitura.
Vistos superficialmente, os Estados Unidos continuam esbanjando cifras e feitos sem paralelo no ramo da ciência e da tecnologia. Com 38 das 50 melhores universidades do mundo e a colossal verba de 350 bilhões de dólares para pesquisa — quase 40% dos gastos mundiais —, o país abriga a maioria das grandes companhias mais inventivas do planeta, como Apple, Google e GE. Além disso, os Estados Unidos reúnem condições essenciais para a criação de novas tecnologias, como os fundos de venture capital que financiam projetos de ponta, um bom nível de governança e uma mentalidade que a um só tempo premia o sucesso e encoraja os fracassados a empreender novamente. Porém, quando examinado de perto, o mesmo quadro exibe profundas rachaduras. Uma das mais graves é a queda abismal da qualidade do ensino público americano. Kao observa que cerca de um terço dos estudantes americanos não termina o ensino médio, entrando precocemente no mercado de trabalho, em funções de baixa qualificação. Mantida a tendência, no futuro a evasão escolar pode gerar o aumento da criminalidade, a queda de produtividade e um fardo para os serviços de assistência social americanos.
Outro dado alarmante é a fuga de cérebros estrangeiros. Apenas em 2006, 30 000 profissionais indianos do ramo tecnológico que moravam nos Estados Unidos voltaram para seu país de origem. Além disso, na última década houve uma queda de 25% no número de candidatos estrangeiros para cursar universidades americanas. Ao longo do século 20, o país tornou-se a terra de adoção de cérebros como o físico alemão Albert Einstein ou o biólogo inglês Francis Crick, um dos descobridores da molécula do DNA. Uma das explicações para a crescente dificuldade em atrair novos talentos é a política de imigração americana, cada vez mais restritiva.
Enquanto isso, o restante do planeta se engaja na corrida pela novíssima riqueza das nações: a capacidade de gerar produtos e soluções inovadoras seja por meio da formação de talentos próprios, seja pela importação de pesquisadores de comprovada excelência em áreas de ponta, como tecnologia da informação e biotecnologia. Kao cita projetos bem-sucedidos em mais de uma dezena de países, como Irlanda, China, Índia e Finlândia. Ele se revela especialmente impressionado pelo projeto Biopolis, uma parceria do governo de Cingapura com grandes empresas farmacêuticas, como a suíça Novartis e a britânica GlaxoSmithKline. Criado em 2003 a partir de um investimento público de 500 milhões de dólares, Biopolis nasceu com a missão de ser o Vale do Silício asiático das ciências médicas. Reunindo cerca de 2 000 cientistas, a iniciativa já conseguiu atrair estrelas como o fisiologista Sidney Brenner, ganhador do prêmio Nobel de 2002 por suas pesquisas neurológicas e ex-pesquisador do Howard Hughes Medical Center, do estado americano de Maryland. Outro exemplo notável é a Finlândia, país de parcos recursos naturais que em duas décadas tornou-se a nação mais competitiva do mundo, segundo o Fórum Econômico Mundial. Para Kao, por trás do milagre finlandês há um investimento intensivo no capital humano. Ele nota que muitos dos melhores estudantes finlandeses tornam-se professores do ensino público — uma utopia em países como os Estados Unidos e o Brasil. A qualidade da educação é o alicerce do sucesso da fabricante de celulares Nokia, que gera 3% do PIB finlandês.
A fim de reavivar o espírito inovador americano, Kao propõe que o governo transforme o tema numa prioridade da agenda do sucessor de George W. Bush. Ele chega a sugerir que os Estados Unidos se inspirem no Projeto Apollo, uma iniciativa do governo Kennedy que acabou por levar o homem à Lua. No que diz respeito ao ensino público, Kao recomenda currículos mais extensos, melhores salários e o recrutamento rigoroso de professores. Outro conselho é a criação de centros de pesquisas espalhados pelo território americano com diferentes especialidades — a exemplo de Biopolis. Detroit, por exemplo, poderia deixar de ser um atual parque industrial claudicante e abrigar um centro de pesquisa avançado na área de energia. Já o interior do estado de Nova York sediaria um centro especializado em mídia digital. Mas Kao reconhece que seu plano só dará certo se não for atropelado pela burocracia. “A tarefa não vai ser fácil, mas o preço da inércia é a mediocridade”, diz ele.