Revista EXAME -
Durante boa parte de seus 50 anos de existência, a Nasa, agência espacial americana, foi um dos símbolos do poderio de um país. Seus laboratórios impressionantes e sua equipe de cientistas transformaram delírios — como a chegada do homem à Lua e a exploração de Marte — em realidade. Em parte, graças à Nasa os Estados Unidos ganharam a corrida espacial e a batalha de imagem que cercou os anos da Guerra Fria. Mas o socialismo caiu com o Muro de Berlim, e a conquista do espaço perdeu muito de seu charme. E, para sobreviver e garantir recursos, a Nasa teve de encontrar um novo caminho. Nos últimos anos, sua formidável máquina de inovação vem sendo colocada a serviço do desenvolvimento de idéias que possam mudar o dia-a-dia de pessoas comuns, que jamais sairão da Terra. Assim como boa parte das universidades americanas, a Nasa tornou-se uma extensão das áreas de pesquisa e desenvolvimento de grandes empresas. Nos gloriosos tempos da Guerra Fria, quando andar à frente dos russos era a obsessão da Casa Branca, o orçamento anual da Nasa era de 25 bilhões de dólares. Hoje, a verba repassada é 30% menor e as críticas ao apoio governamental são cada vez maiores.“A tendência é que, no futuro, uma parte considerável do dinheiro da Nasa venha da iniciativa privada”, afirma Michael Kearney, presidente da SpaceHab, consultoria dos Estados Unidos especializada na indústria tecnológica.
Ao mesmo tempo que procura vestígios de vida em Marte e vasculha o universo em busca de planetas que um dia possam servir de novos lares para a humanidade, a Nasa prospecta hoje novos negócios em campos que vão do turismo espacial à indústria farmacêutica. Até a década de 70, a Nasa possuía cerca de 30 parcerias com empresas. Hoje, são quase 400, que incluem nomes como Google, Ford e Goodyear. Caso prosperem algumas das inovações que estão sendo desenvolvidas, os carros de passeio ganharão, no futuro, equipamentos como pneus da Goodyear à prova de furos. E sistemas capazes de diagnosticar problemas elétricos nos modelos montados pela Ford.
Ninguém hoje aposta tanto na possibilidade de ganhar dinheiro lançando produtos com tecnologia da Nasa quanto o Google. Desde o começo deste ano, a empresa oferece prêmios de até 250 000 dólares a cientistas que apresentem idéias para produtos e serviços. O Google também está investindo 3,7 milhões de dólares na construção de um novo prédio para a agência, com 90 000 metros quadrados de escritórios e que será uma espécie de incubadora de produtos com a grife Nasa-Google. O projeto será erguido na cidade de Moffett Field, na Califórnia, e deve entrar em operação até 2014. Biotecnologia e nanotecnologia estão entre as áreas prioritárias de desenvolvimento de pesquisas. Por enquanto, a parte visível da associação Nasa-Google é um volume imenso de fotos, livros e arquivos da agência que se tornaram disponíveis na internet. “A Nasa acordou para o fato de que sua existência depende de tornar seus resultados divertidos e atraentes para o público”, afirma Eric Schmidt, presidente do Google, que foi fotografado brincando com um simulador de pouso de um ônibus espacial no dia da assinatura do acordo.
Parcerias entre a Nasa e outras empresas já renderam bons frutos no passado, como o desenvolvimento, nos anos 70, do kevlar, fibra sintética muito mais leve e resistente que o aço. Num primeiro momento, o kevlar foi utilizado no revestimento das naves. Depois, seu uso passou a ser disseminado numa série de artigos comerciais, de raquetes de tênis a coletes à prova de bala (veja quadro na pág. 82). A sócia da agência espacial na empreitada foi a DuPont. Outros equipamentos, como os óculos de sol com proteção UV, os satélites de comunicação e até mesmo os laptops, levam o DNA dos cientistas da Nasa — todas essas tecnologias, originalmente, serviram em missões espaciais antes de chegar ao mercado. Mais recentemente, os pesquisadores da agência deram uma contribuição decisiva ao maiô LZR Racer, da Speedo, com o qual foram batidos mais de 30 recordes em provas de natação. Os tecidos da peça não possuem costuras — eles são emendados por um sistema de solda ultra-sônica (obra da Nasa). Com isso, há uma redução substancial do atrito com a água, o que ajuda a melhorar os tempos dos atletas. Em casos como o do LZR Racer, a Nasa costuma ficar com algo entre 5% e 10% dos royalties do produto.
| Parcerias astronômicas |
| As características de alguns dos acordos que a Nasa fi rmou nos últimos anos com empresas privadas para o desenvolvimento de inovações |
| GOOGLE O Google e a Nasa exploram juntos áreas como biotecnologia e nanotecnologia. A parceria inclui a construção de um centro de pesquisa na Califórnia, nos Estados Unidos |
| GOODYEAR A fabricante de pneus está desenvolvendo com a Nasa um modelo feito de ligas metálicas para veículos lunares. No futuro, a inovação também poderá ser utilizada em carros comerciais |
| FORD Um chip para diagnosticar problemas elétricos poderá em poucos anos estar em milhões de automóveis. Esse é o objetivo de uma parceria da agência espacial com a montadora |
| BOEING Antiga parceira da Nasa na área de inovação, a companhia está trabalhando nos robôs responsáveis pela exploração de Marte e na construção do maior cargueiro para missões no espaço |
Ainda que tenha perdido parte substancial de seu prestígio e charme, a agência continua a ser um valioso grupo de cérebros. Há hoje cerca de 20 000 funcionários, espalhados por 11 centros de pesquisa e treinamento. Desse total, 15 000 são cientistas — cabeças valiosas para corporações cada vez mais pressionadas a inovar. “A necessidade de desenvolvimento de tecnologias faz parte do trabalho da Nasa, já que as missões são em lugares com temperaturas extremas, clima hostil, diferentes atmosferas e necessidades muito específicas”, afirmou a EXAME Daniel Lockney, supervisor do setor de inovações da agência. Somente em pesquisas, a Nasa investe anualmente 1 bilhão de dólares — 12,5 vezes mais que o orçamento da Universidade de São Paulo para essa área. É uma soma considerável, e arrancá-la do contribuinte americano sem protestos vem se tornando tarefa cada vez mais difícil para o governo. A solução encontrada foi reduzir o custo de pesquisas aliando-se à iniciativa privada e a instituições acadêmicas. “A Nasa anuncia o objetivo do estudo, nós apresentamos um projeto e eles selecionam o melhor, bancando os custos de desenvolvimento”, diz o físico brasileiro Nilton Renno, professor da Universidade de Michigan. Renno tornou-se cientista associado da Nasa em 2005, depois de apresentar um projeto de pesquisa sobre os efeitos das tempestades de poeira no clima de Marte. Atualmente, ele faz parte da equipe que vai coordenar o Mars Science Lab, laboratório de astrobiologia que analisará o planeta Marte durante dois anos, uma missão de 2 bilhões de dólares.
| Uma história de inovação |
| Várias tecnologias desenvolvidas pela Nasa para missões espaciais ganharam aplicação comercial. Alguns exemplos: |
| SATÉLITE DE COMUNICAÇÃO Em 1962, a Nasa lançou o Telstar 1, equipamento que permitiu a primeira transmissão ao vivo de imagens de televisão entre Estados Unidos e Europa. Foi o precursor dos atuais satélites de comunicação |
| LAPTOP O primeiro laptop foi desenvolvido pela Nasa para a Discovery, em 1983. O pequeno espaço na cabine da missão exigia que o computador fosse leve, pequeno, com bastante memória e capaz de suportar as vibrações da viagem |
| TECNOLOGIA WIRELESS Nos anos 60, a agência criou a tecnologia que permitia aos astronautas se comunicar com a nave sem fi car presos por cabos. A partir da década de 80, várias empresas começaram a fazer uso comercial da invenção |
| ÓCULOS DE SOL COM PROTEÇÃO UV Os óculos de sol com proteção contra raios UV e com lentes à prova de estilhaços são uma adaptação das lentes usadas nos capacetes dos astronautas das missões da Nasa no início da década de 90 |
| AMORTECIMENTO DE CALÇADOS A mesma tecnologia usada nas botas dos astronautas nos anos 80 para explorações no espaço foi adaptada pela indústria, servindo hoje como sistema de amortecimento para alguns tênis esportivos |
| KEVLAR Em parceria com a DuPont, a Nasa desenvolveu, em 1971, o kevlar, fibra sintética muito mais leve e resistente que o aço. Nas décadas seguintes, o material ganhou inúmeras aplicações, de raquetes de tênis a coletes à prova de bala |
A Nasa nasceu em 1958, em resposta ao Sputnik, primeiro satélite artificial do mundo, lançado pelos russos. Após quatro tentativas frustradas, a agência espacial americana conseguiu colocar o Explorer 1 em órbita ao redor da Terra. Quando, em 1961, a Rússia mandou Yuri Gagarin ao espaço, os americanos responderam com as missões Apollo, cujo objetivo era levar o homem à Lua. A primeira nave matou três astronautas ainda durante a fase de simulações de vôo, em 1967. Dois anos depois, porém, Neil Armstrong, um dos tripulantes da Apollo 11, deu seu “grande salto para a humanidade”. Foi a época áurea da corrida espacial. Depois disso, veio o declínio. Os adversários soviéticos saíram de cena. E tragédias como a explosão da Challenger, 72 segundos após sua decolagem em janeiro de 1986, contribuíram para que muitos críticos elevassem a pressão sobre o governo americano para a redução de gastos da agência e o fim das missões tripuladas. A explosão da Challenger, que matou sete astronautas, foi transmitida ao vivo para o mundo todo. Nos últimos anos, as imagens do supertelescópio Hubble e as sondas e os robôs enviados a Marte representaram uma tentativa de recuperar o velho glamour da busca por vida extraterrestre nas galáxias. Mas a atual crise econômica dos Estados Unidos não abre uma perspectiva muito animadora para investimentos estatais na Nasa. Antes de fazer contatos imediatos em outros planetas, portanto, ela terá de aprender a lucrar e a viver com suas próprias pernas na Terra.