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O prejuízo é um detalhe

 | 24.07.2008

Ações em queda de 75% e perdas que se acumulam — Marcus Elias, controlador da Parmalat, tenta convencer os investidores de que conhece a saída para a crise

 

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Por Melina Costa

EXAME 

Há pouco mais de dois anos, o paulistano Marcus Elias surgiu na cena empresarial brasileira fazendo barulho. Até então desconhecido do grande público, Elias comprou em 2006 o controle da combalida operação brasileira da Parmalat e ganhou uma súbita notoriedade. Com a coroa de rei do leite na cabeça, demonstrou uma invejável autoconfiança. “Jamais conheci o fracasso”, disse ele na época. “Todas as nossas tacadas foram certeiras, e isso vai se repetir com a Parmalat.” No ano seguinte, Elias continuou gerando notícias. Sob seu comando, a Parmalat deu início a uma série de aquisições e a um elogiado projeto para melhorar a qualidade da produção leiteira no país. Recentemente, porém, a maré virou. A Laep, empresa que controla a Parmalat, acumulou prejuízo de cerca de 100 milhões de reais nos dois trimestres seguintes à abertura de capital. Em junho, o banco de investimento UBS Pactual rebaixou o preço-alvo de suas ações de 11,50 para 4 reais — queda de 65%. No mesmo mês, a rede de supermercados Pão de Açúcar teve de devolver 30 000 litros de leite da Parmalat. O produto apresentava problemas de qualidade. Finalmente, segundo EXAME apurou, a Laep está sob investigação da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), órgão que regula o mercado de capitais. O dinheiro levantado pela Laep em sua abertura de capital — quase meio bilhão de reais — foi usado para um fim diferente do prometido aos investidores. A CVM suspeita que a empresa tenha agido de má-fé.

O principal termômetro para avaliar o nível dos problemas enfrentados por uma empresa aberta é o valor de suas ações na bolsa. No caso da Parmalat, esse indicador mostra que os desafios da companhia são efetivamente superlativos. O valor de mercado da Laep caiu 75% desde o começo do ano, o que coloca a empresa na lista de piores negócios do ano na bolsa. No cerne da queda estão a divergência entre os planos da companhia antes da ida à bolsa e os passos que Marcus Elias tomou após a abertura de capital — ou IPO, na sigla em inglês. É justamente isso que a CVM quer investigar, aliás. Nesse quesito, são duas as reclamações dos investidores. A primeira é o destino do dinheiro levantado. Quando uma companhia vai à bolsa, vende ao mercado um plano detalhado do que fará com os recursos. Segui-lo é quase uma obrigação. Não foi o que fez a Laep. A empresa prometeu que investiria 60% do dinheiro na Integralat, projeto apresentado por Elias para integrar a cadeia produtiva do leite. A possibilidade de profissionalizar o setor mais arcaico do agronegócio brasileiro foi o grande chamariz das apresentações da empresa aos investidores. Elias apostaria, então, num programa de melhoramento genético do gado brasileiro para aumentar a produtividade das vacas. O problema é que, passado o IPO, apenas 80 milhões de reais, menos de 30% do que havia sido previsto no prospecto, foram destinados à Integralat. O resto foi usado, basicamente, em aquisições e como capital de giro. Além da mudança abrupta de planos, a estratégia foi considerada equivocada pelos analistas. Segundo um relatório do UBS Pactual, a seqüência de compras deixou o caixa da Parmalat esvaziado, um risco num momento de crise no mercado de leite — em que o aumento do preço ao produtor não foi repassado ao varejo. “A empresa não deixou nenhuma reserva para os dias ruins”, escreveram os analistas.

Além de acusarem Marcus Elias de descumprir o combinado quanto ao uso do dinheiro da abertura de capital, alguns investidores se ressentem de outra mudança de planos. Durante o processo de preparação para o IPO, a empresa havia informado que mudaria sua estrutura de capital em poucos meses. A Laep adotou um modelo conhecido como BDR, em que a companhia tem sede num paraíso fiscal e negocia suas ações no Brasil. Esse modelo traz pouca segurança para os investidores. Passados seis meses desde a abertura de capital, nada aconteceu. “Esse foi um compromisso ignorado pela empresa”, diz Aquico Wen, diretor do fundo de investimento americano Legg Mason. “Vai ficar difícil acreditar no que eles prometem a partir de agora.” No início de julho, a administração da empresa informou que ainda estuda a possibilidade de alterar sua estrutura.

Para Marcus Elias, o descrédito generalizado do mercado não se justifica. Entrevistado por EXAME, ele afirmou que os prejuízos dos dois trimestres seguintes ao IPO não são um problema grave. “O mercado não vê nosso prejuízo com maus olhos”, diz Elias. “Carregamos o prejuízo acumulado da Parmalat no Brasil.” Há duas semanas, Elias tentou convencer seus investidores de que, mesmo sem gerar caixa, a empresa não deixará de pagar seus compromissos. Já para continuar a financiar a Integralat, a empresa pretende agir em duas frentes. A primeira é pleitear um empréstimo do BNDES. A segunda é procurar um sócio, possibilidade que, até agora, não era cogitada pela empresa. Elias rebate, também, as queixas quanto à estratégia de uso do dinheiro do IPO. “Diante do aumento de preços, investir na compra de vacas para a Integralat seria jogar dinheiro fora.” Segundo ele, fazer aquisições foi a melhor estratégia, já que os preços das empresas adquiridas estavam baixos. “Não entendo a desvalorização excessiva das ações nem todo o falatório em relação a isso”, diz Elias.

Quem é Marcus Elias, controlador da Parmalat
Idade
49 anos
Trajetória
Trabalhou no mercado financeiro até 1994, quando criou o fundo Laep. Desde então, comprou e vendeu participações em empresas como Unidas e Gomes da Costa
Feito
Ganhou notoriedade ao adquirir os ativos e o direito de uso da marca Parmalat no Brasil, em 2006
Problemas
As ações da Laep na bolsa de São Paulo caíram 75% desde o começo do ano. Além disso, a empresa teve prejuízo acumulado de 100 milhões de reais nos dois trimestres que se seguiram ao IPO
Desafio
Fazer a Parmalat voltar a dar lucro e convencer os investidores a acreditar na empresa

A gestão da Parmalat é o maior desafio profissional já enfrentado por Marcus Elias. O empresário começou sua carreira em bancos de investimento e, há 14 anos, criou um fundo de private equity em sociedade com a gestora de recursos americana Trust Company of the West. Elias comprou e vendeu participações em companhias como a locadora de veículos Unidas e a empresa de alimentos Gomes da Costa. As atividades do fundo foram interrompidas depois que Elias adquiriu os ativos e o direito de uso da marca Parmalat no Brasil. Segundo executivos que trabalharam com ele, uma das principais características de Elias na gestão da Parmalat é sua inconstância: ele costuma mudar rapidamente de estratégia. No ano passado, por exemplo, teve a idéia de vender leite de porta em porta, método em desuso no Brasil há décadas. Os funcionários da Parmalat passaram cerca de 30 dias buscando uma maneira de colocar o projeto de pé — mas tiveram o trabalho interrompido quando Elias veio com uma nova idéia: vender leite por telefone. Nenhum dos dois projetos, até agora, saiu do papel. Outra demonstração de instabilidade são as mudanças no quadro da empresa. Em dois anos, a Parmalat já teve dois presidentes e quatro diretores comerciais. Budista e lutador de jiu-jítsu, Elias passou a circular na alta sociedade paulistana com desenvoltura nos últimos dois anos. Seu círculo de amizades estende-se do banqueiro André Esteves, ex-presidente do UBS Pactual, à modelo inglesa Naomi Campbell, com quem o empresário namorou no começo do ano.

Diante da seqüência de más notícias que enfrentou nos últimos meses, Elias passou a construir um novo modelo de gestão para a Parmalat. No plano que apresentou aos investidores no início de julho, prometeu cortar até 30 milhões de reais por ano em custos. Segundo Elias, a economia virá, principalmente, da renegociação de uma série de contratos com empresas fornecedoras e prestadoras de serviços, mas a Parmalat também já anunciou que fará cortes de pessoal e venderá seu jatinho corporativo. Outro objetivo é aumentar as margens de lucro dos produtos. Para isso, a empresa está reestruturando seu sistema de logística a fim de alcançar o pequeno varejo, que tem menor poder de barganha com os fornecedores. Além disso, no grande varejo, a Parmalat espera aumentar os preços e também a venda de produtos com margens mais altas do que a do leite, como requeijão, creme de leite e biscoitos. “Acho essa uma tarefa extremamente difícil”, diz o diretor de uma das maiores redes varejistas do país. “Não vamos deixar de apertar os preços do leite, e a concorrência nos outros segmentos é muito forte.” O maior desafio de Elias, no entanto, será convencer os investidores de que seu projeto é o melhor para as ações da empresa — e de que, dessa vez, não haverá nenhuma mudança de planos no caminho.

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