Revista EXAME -
Se há uma única herança positiva dos terríveis anos de hiperinflação, essa herança foi a eficiência do sistema bancário brasileiro. O que antes significou sobrevivência hoje representa competitividade em termos mundiais. A eficiência e os resultados brasileiros transparecem no mercado acionário, conforme mostra uma pesquisa da consultoria Boston Consulting Group realizada com 593 instituições financeiras de todo o mundo. Entre 2003 e 2007, o retorno médio dos papéis dos grandes bancos brasileiros foi de 54,5% ao ano — bem acima da média mundial. E, no ranking das 12 instituições que deram os maiores retornos nesse período, há quatro brasileiros: Banco do Brasil, Bradesco, Unibanco e Itaú. “Em termos de competência, os bancos brasileiros não perdem para as instituições de nenhum outro lugar”, diz André Xavier, sócio do BCG no Brasil.
Diante disso e da própria evolução da economia brasileira — com níveis recordes de crédito oferecido —, a valorização de alguns papéis atingiu patamares impressionantes. Quem comprou ações do Bradesco em julho de 2003, por exemplo, viu seus recursos aumentarem 550%, ante 345% alcançados pelo Ibovespa. Mas até onde podem ir os papéis dos grandes bancos brasileiros? Qual o impacto do aumento dos juros e de uma eventual redução no crédito, hoje a atividade mais lucrativa para essas instituições? EXAME ouviu dez analistas que cobrem o setor e as respostas foram unânimes: os papéis dos bancos brasileiros ainda são ótimas opções de investimento. Em média, os analistas prevêem potencial de valorização em torno de 50% para as ações dos quatro principais bancos do país — Banco do Brasil, Bradesco, Itaú e Unibanco — nos próximos 12 meses.
O otimismo dos analistas está alicerçado no poder de adaptação dos bancos. Até meados da década de 90, a rentabilidade era dependente da alta inflação — as instituições aproveitavam os recursos dos clientes que permaneciam temporariamente em seus cofres para ganhar com o giro financeiro. Com a implantação do Plano Real, os bancos fortaleceram a oferta de serviços, aumentaram as tarifas e aplicaram em títulos públicos remunerados pelas altas taxas de juro. Mais recentemente, aproveitaram os cortes na Selic para ampliar com toda a força a concessão de crédito. “Os bancos brasileiros já provaram que sabem atuar em todas as conjunturas”, diz Marco Aurélio Barbosa, analista-chefe da corretora Coinvalores. O momento, segundo os especialistas, é favorável à compra de ações. No primeiro semestre de 2008, os papéis do Bradesco e do Itaú se desvalorizaram, respectivamente, 10,7% e 8,6%. A perda de valor foi um reflexo da desconfiança generalizada no sistema bancário mundial. O estudo da BCG mostra, porém, que o Brasil foi o país que registrou a menor redução entre os emergentes. “Como os bancões brasileiros não têm os resultados afetados pela crise do subprime, essa queda no preço dos papéis é apenas momentânea”, diz Barbosa.
Além das possibilidades de ganho com a valorização das ações, o investidor em bancos tem a vantagem da política de distribuição de dividendos. Pela legislação, todas as companhias abertas são obrigadas a distribuir 25% dos lucros entre os acionistas. “Na prática, os grandes bancos chegam a dividir entre 35% e 40% dos resultados com os acionistas”, diz Ricardo Martins, analista da corretora Planner. Bradesco e Itaú são as únicas duas empresas listadas na Bovespa que distribuem dividendos mensalmente. Outros grandes bancos, como o Banco do Brasil, fazem distribuição trimestral, enquanto a maioria das companhias realiza a divisão dos lucros apenas uma vez por ano. “É um dinheiro que vai para o bolso do acionista”, diz Aloísio Lemos, analista da Ágora Corretora de Valores.
A solidez demonstrada pelo sistema bancário brasileiro num momento em que grandes instituições internacionais lutam para sobreviver é um fenômeno que se repete em outros países emergentes. No ranking das ações que deram os maiores retornos entre 2003 e 2007, há cinco bancos indianos, um da Rússia, um da Grécia e um da Turquia. Nos últimos dois anos, a participação do chamado Bric (grupo formado por Brasil, Rússia, Índia e China) no setor bancário mundial praticamente triplicou em valor de mercado. O mundo, de fato, mudou — e não faz tanto tempo assim. Há pouco mais de uma década, eram as instituições financeiras dos países em desenvolvimento que assombravam os investidores. Hoje, elas parecem ser o porto seguro num mercado agitado pelas instabilidades das nações ricas.