Durante muito tempo, as desventuras do empresário carioca Eike Batista foram encaradas com desconfiança pelos mais tradicionais empresários brasileiros. Desconfiança, nesse caso, é eufemismo — freqüentemente, a trajetória profissional e pessoal de Eike foi motivo de piada entre os barões da indústria nacional. Não era para menos. Suas aventuras em empresas de jipes, entregas expressas e cosméticos invariavelmente recebiam o mesmo fim: o fracasso retumbante. Ao mesmo tempo, seu casamento com a atriz e modelo Luma de Oliveira alimentava revistas de fofoca por todo o país, o que acabou contribuindo para devastar sua imagem de empreendedor sério. Nos últimos meses, no entanto, o status de Eike Batista vem mudando a passos largos. O estrondoso sucesso de suas duas últimas empreitadas — a mineradora MMX e a petrolífera OGX —, pelas quais embolsou mais de 10 bilhões de dólares, acabou lhe rendendo a fama de visionário e de empreendedor admirado no mundo dos negócios. Como se não bastasse ser o homem mais rico do Brasil, Eike agora conseguiu influenciar o destino de uma das mais tradicionais empresas do país, a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN). O discreto Benjamin Steinbruch, presidente e controlador da CSN, decidiu copiar a estratégia de Eike no grupo X. Em entrevista exclusiva a EXAME, Steinbruch garantiu: vai fatiar o grupo CSN em empresas independentes para, então, oferecê-las ao mercado, uma por vez. “Vou fazer o mesmo que Eike fez. Mas com uma diferença: com ativos de verdade”, disse Steinbruch.
Ao adotar tal modelo, seu objetivo é elevar o valor de mercado do grupo, atualmente na casa dos 50 bilhões de reais. Em sua concepção, a CSN deveria valer quase o dobro disso — cerca de 80 bilhões. Para chegar a esse valor, Steinbruch contabilizou o potencial de venda de cinco novas unidades de negócios da empresa. Serão elas: siderurgia, mineração, logística, cimento e energia. A inspiração em Eike não vai terminar no ato de retalhar a companhia. Steinbruch já definiu que a primeira fatia a ser oferecida ao mercado será a área de mineração, a mesma opção feita pelo grupo do empresário carioca. Nessa unidade de negócios, a idéia é vender separadamente as duas minas que pertencem à CSN — Namisa e Casa de Pedra, ambas em Minas Gerais. Até setembro, Steinbruch deseja concluir a venda da Namisa, um negócio que pode render até 10 bilhões de dólares e já tem, entre os possíveis compradores, a chinesa Baosteel. Depois disso, partirá, segundo ele próprio, para o já mítico IPO (sigla em inglês para abertura de capital) da Casa de Pedra. Graças à valorização do minério de ferro, seu valor pode ultrapassar a casa dos 15 bilhões de dólares. “Se o mercado pagou 5,5 bilhões pela MMX, que era só um projeto, imagine por quanto se pode vender a Casa de Pedra, que tem minério de boa qualidade e logística instalada”, diz o controlador da CSN.
| É quase o dobro | |
| Separadas, as cinco unidades de negócios da CSN teriam quase duas vezes o valor de mercado da companhia atual | |
| Quanto vale a CSN hoje | 48,6 bilhões de reais(1) |
| Quanto Steinbruch acredita que ela vale | 80 bilhões de reais(2) |
| Cimento | |
| 600 milhões de reais(2) | |
| Está em construção uma fábrica de cimento em Minas Gerais, com capacidade para produzir 2,7 milhões de toneladas por ano | |
| Energia | |
| 1,4 bilhão de reais(2) | |
| Entre participações em usinas hidrelétricas e uma termelétrica própria, a companhia conta com um parque gerador de 430 MW | |
| Logística | |
| 8 bilhões de reais(2) | |
| Além do porto de Itaguaí, a CSN é dona de 32% da MRS Logística e controla a CFN, responsável pela construção da estrada de ferro Transnordestina | |
| Mineração | |
| 30 bilhões de reais(2) | |
| A empresa possui duas jazidas de minério de ferro. A principal delas, a Casa de Pedra, é tida como um dos ativos mais valiosos do mundo | |
| Siderurgia | |
| 40 bilhões de reais(2) | |
| A CSN é a segunda maior produtora de aços planos do Brasil. A companhia conta com subsidiárias nos Estados Unidos e em PortugaL | |
| (1) Valor de mercado em 2/7/2008 (2) Estimativa | |
Para chegar ao número mágico de 80 bilhões de reais, Steinbruch baseia-se, claro, nos ativos que o grupo possui hoje — mas, fundamentalmente, no tipo de companhia que ela pode vir a ser. Sua equação, sempre otimista, inclui todos os planos da empresa nos próximos cinco anos. Pelas suas contas, a unidade de siderurgia da CSN, hoje avaliada em 22 bilhões de reais, valeria, na verdade, algo em torno de 40 bilhões de reais. Isso porque Steinbruch já acrescenta ao cálculo a construção de duas novas usinas, com capacidade de produzir 9 milhões de toneladas de aço bruto por ano. Ele aplica o mesmo raciocínio aos outros negócios. A mina Casa de Pedra, jóia da coroa do grupo, produz atualmente 15 milhões de toneladas de minério de ferro ao ano. No entanto, Steinbruch utiliza em seus cálculos o valor total estimado da jazida, 70 milhões de toneladas, mesmo que esse patamar de produção esteja longe de ser atingido. A unidade de logística é avaliada em 8 bilhões de reais, mas já entraram na conta as obras de expansão do porto de Itaguaí, no Rio de Janeiro, e a construção da ferrovia Transnordestina — duas construções em fase, para dizer o mínimo, embrionária de implementação. “Os cálculos de Steinbruch baseiam-se numa companhia que ainda não existe, mas que pode, perfeitamente, tornar-se realidade nos próximos anos”, afirma Carlos Kochenborger, analista da Geração Futuro.
A aritmética empregada por Steinbruch para calcular o valor da CSN, contudo, não é partilhada por analistas e investidores. Para eles, a companhia está muito bem avaliada no atual patamar, de 50 bilhões de reais, e não haveria por que aumentar substancialmente esse valor — pelo menos até o final do ano. Tal reticência pode ser explicada por dois motivos. O primeiro diz respeito ao atual valor das ações da empresa na bolsa. Segundo especialistas, os papéis da CSN já são negociados a múltiplos elevados, o que acaba reduzindo o espaço para altas expressivas de preço. (A favor de Steinbruch, diga-se, as ações da empresa valorizaram-se nada menos que 220% nos últimos dois anos, contrariando as expectativas dos mesmos analistas que acham que elas agora chegaram ao teto.) O segundo motivo está relacionado ao modus operandi de seu controlador. Ao longo dos últimos quatro anos, Benjamin Steinbruch tem feito uma série de promessas de investimento visando à expansão da companhia. Trata-se de um tipo de procedimento comum em empresas de capital aberto, uma vez que muitos especialistas levam em conta esse tipo de sinalização em suas projeções. O problema, no caso da CSN, é que a maioria dessas promessas ainda não saiu do papel. A construção das usinas em Minas Gerais e no Rio de Janeiro, que deve triplicar o tamanho da CSN, consta dos planos da empresa desde 2004. E a ampliação da produção da mina Casa de Pedra para 40 milhões de toneladas, prevista para 2006, só deverá acontecer no ano que vem. “A melhor forma de a CSN aumentar seu valor de mercado é começar a colocar em prática os projetos de crescimento”, afirma Rogério Zartao, analista de siderurgia do Unibanco.
| A CSN na bolsa | |
| Oscilação das ações | |
| (em reais) | |
| 11/4 | 66,9 |
| 9/5 | 79,1 |
| 6/6 | 79,3 |
| 2/7 | 63,2 |
| Fonte: Economática | |
Mesmo que convença analistas de mercado e investidores de que está disposto a levar seus planos de expansão adiante, Steinbruch ainda terá de enfrentar um momento menos favorável no mercado de mineração. De um lado, grandes mineradoras, como Vale, BHP e Rio Tinto, conseguiram negociar reajustes de até 96% nos preços do minério de ferro para este ano, o maior índice já registrado nos últimos dez anos. Tal euforia, no entanto, não vem sendo acompanhada pelos movimentos de fusões e aquisições envolvendo mineradoras. O preço dos ativos nas negociações vem caindo. Um levantamento realizado pelo banco de investimento WestLB com as últimas 25 transações de compra de mineradoras no mundo mostrou que os preços pagos por tonelada de minério de ferro neste ano giram em torno de 150 dólares. Apesar de elevados, eles estão longe do pico verificado no final do ano passado, na casa dos 300 dólares por tonelada. Os compradores enxergam um futuro menos promissor que o presente — e descontam isso no preço oferecido. “Essa diferença de preços pode comprometer os ganhos com a venda de Namisa e Casa de Pedra, as duas principais apostas de Steinbruch para aumentar o valor da CSN”, afirma o analista de um grande banco de investimento. Do sucesso de Steinbruch nessas operações depende o resto do plano. E vai determinar também com qual das facetas de Eike o controlador da CSN vai se identificar: se a de visionário ou a de mero vendedor de sonhos.

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