A discussão sobre a escassez mundial de alimentos gera muita polêmica em relação às causas e aos eventuais culpados, mas há pelo menos uma grande unanimidade em torno dela: é preciso produzir mais comida, com urgência. Considerando-se que a área destinada à agricultura e à pecuária é naturalmente limitada (ainda mais com a crescente utilização de parte dela para a produção de biocombustíveis) e que o consumo de alimentos tende a continuar crescendo – sobretudo com a melhoria do poder aquisitivo em países superpovoados, como a China e a Índia –, a única solução parece ser o aumento da produtividade. Não se trata de um desafio novo. Produzir mais no mesmo espaço de terra é algo que vem sendo feito com sucesso ao longo das últimas décadas. Os Estados Unidos, líder dessa corrida em função dos grandes investimentos científicos realizados, conseguem tirar hoje de um hectare quase três vezes mais do que tiravam em 1950, levando-se em conta a média de todas as culturas (veja quadros). Mas são justamente as conquistas do passado que levam ao dilema atual: como obter novos avanços significativos em relação a tudo o que já foi feito – defensivos agrícolas mais eficazes, modernização do maquinário, evolução da previsão do tempo, uso de satélites e GPS etc?
"Não é uma equação simples, pois esses avanços precisam ser economicamente viáveis e ao mesmo tempo não colocar em risco a saúde humana e a preservação do meio ambiente", diz o engenheiro agrícola José Paulo Molin, professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo (Esalq-USP). Molin é um entusiasta do conceito de agricultura de precisão, que parte do princípio de que uma mesma lavoura é desigual e por isso deve receber tratamento segmentado. Depois que a plantação é "dividida" em lotes (de 20 metros quadrados, por exemplo), cada um desses lotes é analisado especificamente a partir de dados coletados de múltiplas fontes – como sistemas de posicionamento com GPS e imagens de satélite, sensores de umidade e monitoramento de atributos físicos e químicos do solo – e recebe tratamento adequado para os resultados da análise. A aplicação de insumos torna-se mais precisa, por exemplo. "Hoje dispomos de tecnologia suficiente para esse tipo de análise, que pode contribuir decisivamente para um salto de produtividade e de qualidade", considera Molin. Experimentos de agricultura de precisão feitos pela Esalq com grãos, cana-de-açúcar, café e citros resultaram em ganhos de produtividade entre 20% e 29% e redução entre 13% e 23% de insumos agrícolas em relação às médias nacionais. O grande obstáculo para a adoção em massa desse conceito, criado e difundido especialmente na Europa, é que os altos custos das tecnologias utilizadas só tornam viável a sua aplicação, por enquanto, em culturas com grande valor agregado, especialmente frutas.
Já nos Estados Unidos a grande aposta para o aumento da produtividade é a biotecnologia. "A agricultura depende criticamente dos recursos genéticos. Essa certamente será uma importante fonte de crescimento da produtividade nos próximos anos, mas é preciso que seja acompanhada de outros avanços, como o uso adequado da tecnologia da informação e o aprimoramento da administração dos negócios ligados à agricultura e pecuária", ressalta o economista Paul Heisey, do Serviço de Pesquisas Econômicas do United States Department of Agriculture (USDA), órgão que equivale ao Ministério da Agricultura brasileiro. A aposta dos Estados Unidos nas plantações geneticamente modificadas se reflete nas estatísticas: o país é disparado o líder nesse tipo de cultivo, com área de 57,7 milhões de hectares, ocupada por soja, milho, algodão, canola, mamão, alfafa e frutas para suco, entre várias outras culturas. Em segundo lugar vem a Argentina, com 19,1 milhões de hectares, e em terceiro está o Brasil, com 15 milhões de hectares – 14,5 milhões deles ocupados por soja e o restantes 500 000 por algodão. A área equivale a 32% do total ocupado por plantações no país, ante uma média mundial de 8%. Mas o espaço destinado aos transgênicos no Brasil cresce rapidamente – o acréscimo no ano passado foi de 3,5 milhões de hectares. Há no momento 23 países produzindo transgênicos – 11 industrializados, nos quais a taxa média de crescimento da área ocupada por transgênicos foi de 6% no ano passado, e 12 em desenvolvimento, que registraram em conjunto 21% de crescimento em 2007.
Alguns países têm registrado aumentos expressivos de produtividade em certas culturas após a adoção de variedades modificadas geneticamente. Um exemplo é o do algodão na China e na Índia, com índices que chegaram a 50% de aumento de um ano para outro. O entusiasmo decorrente disso preocupa muitos pesquisadores, especialmente na Europa. "As decisões regulatórias a respeito deveriam sempre incluir considerações de custo-benefício, com os benefícios sendo definidos em relação à sociedade como um todo, e não apenas como algo do tipo ‘o produto é eficaz’", adverte o professor Hermann Waibel, diretor do Instituto de Desenvolvimento e Economia na Agricultura da Leibniz Universität Hannover, um dos principais centros acadêmicos na área da agricultura na Alemanha. "Para obter estimativas realistas dos benefícios econômicos, é preciso ter um bom modelo de observação a longo prazo. A simples comparação de uma safra com a outra, como a que costuma ser feita nos países em desenvolvimento, não é suficiente", acrescenta. Polêmicas à parte, um aspecto que põe em xeque o papel que a biotecnologia poderá ter no aumento da produtividade é que os maiores ganhos nesse sentido já estariam sendo obtidos na chamada "primeira geração" de culturas geneticamente modificadas, marcada por modificações que reforçam ou implantam traços como crescimento acelerado, imunidade a insetos, tolerância a herbicidas e resistência a condições como escassez de água. As gerações seguintes, que já envolvem a maior parte dos esforços de pesquisa, serão focadas no reforço de nutrientes (como vitaminas e ferro) e na produção de medicamentos, aspectos que não teriam relação direta com aumento de produtividade.
Avanços pontuais
Em vez de novidades muito abrangentes e revolucionárias, o que mais tem contribuído para o ganho de produtividade são avanços pontuais e específicos em cada cultura, resultado direto da crescente especialização dos pesquisadores – especialmente na iniciativa privada, cuja participação nessa corrida tem sido cada vez mais efetiva. Nos Estados Unidos, os gastos anuais das empresas com o desenvolvimento da agricultura saltaram de 2,2 bilhões de dólares em 1970 para os 5,8 bilhões de dólares atuais, enquanto os investimentos do setor público passaram no mesmo período de 2,5 bilhões de dólares para 4 bilhões de dólares. Na área de biotecnologia, três em cada quatro pedidos de patente partem da iniciativa privada. "Essa é uma disputa muito mais entre grandes corporações multinacionais do que propriamente entre países", diz o engenheiro agrônomo Fábio Meneghin, analista de mercado da consultoria Agroconsult. Para ele, esse é um traço essencial para a democratização dos avanços tecnológicos que permitirão o gradual aumento da produtividade. "Essas empresas têm todo o interesse de difundir suas descobertas o mais rápido possível entre os países em que atuam", destaca.
Um exemplo recente de avanço pontual – mas significativo – no Brasil é a aprovação do uso de uma variedade de semente de milho resistente à lagarta-do-cartucho, praga que, ao destruir parte das folhas, reduz a área de fotossíntese e compromete o desenvolvimento da planta. Especialistas prevêem que a simples adoção dessa semente pode fazer a produtividade aumentar 20% em regiões atingidas pela lagarta, principal praga do milho no Brasil. Desenvolvida por uma multinacional, a variedade foi testada na Argentina – onde as condições brasileiras foram simuladas – enquanto aguardava a aprovação pelo Conselho Nacional de Biossegurança (CNBS), concedida em fevereiro, ao final de um longo processo de análises por parte do órgão interministerial. Vencer a lagarta-do-cartucho é uma conquista importante para reduzir o enorme déficit de produtividade das lavouras brasileiras de milho, cuja produção média na última safra foi de 3 383 quilos por hectare, contra 9.360 quilos por hectare nos Estados Unidos (acredita-se que, nas condições ideais possibilitadas pelas novas tecnologias, um hectare possa vir a produzir até 35 000 quilos de milho, referência significativa para compreender o quanto ainda há para crescer em termos de produtividade). Outro passo essencial seria a ampla adoção pelos produtores nacionais de uma tecnologia disponível há muito tempo: sementes híbridas certificadas, que resultam dos tradicionais processos de cruzamento de duas espécies, anteriores à transgenia. Com o objetivo de economizar na hora do plantio, muitos produtores preferem recorrer às chamadas sementes "caboclas", produzidas artesanalmente, que em geral apresentam produtividade inferior.
O milagre da multiplicação
Crescimento da produtividade da agropecuária no Brasil e nos Estados Unidos ao longo das últimas cinco décadas
| BRASIL |
| Produto* |
1960 |
1970 |
1980 |
1990 |
2000 |
2006 |
Variação 1960-2006 (%) |
| Arroz |
1 699 |
1 517 |
1 566 |
1 880 |
3 034 |
3 868 |
128 |
| Milho |
1 312 |
1 442 |
1 779 |
1 874 |
2 745 |
3 383 |
158 |
| Soja |
1 127 |
1 144 |
1 727 |
1 732 |
2 400 |
2 379 |
111 |
| Trigo |
533 |
973 |
865 |
1.154 |
1.559 |
1.593 |
199 |
| Batata |
5 648 |
7 394 |
10 711 |
14 108 |
17 022 |
22 296 |
295 |
| Tomate |
13 332 |
16 988 |
30 643 |
37 143 |
53 263 |
57 574 |
332 |
| Laranja |
14 836 |
15 341 |
18 934 |
19 190 |
24 906 |
22 495 |
52 |
| Cana-de-açúcar |
43 448 |
46 230 |
57 006 |
61 479 |
67 624 |
73 996 |
70 |
| Algodão em fibra |
209 |
150 |
149 |
333 |
828 |
958 |
358 |
| Leite de vaca |
706 |
772 |
724 |
782 |
1 139 |
1 235 |
75 |
| Carne de porco |
66 |
68 |
69 |
84 |
72 |
81 |
23 |
| Carne de gado |
191 |
193 |
180 |
182 |
211 |
212 |
11 |
| ESTADOS UNIDOS |
| Produto* |
1960 |
1970 |
1980 |
1990 |
2000 |
2006 |
Variação 1960-2006 (%) |
| Arroz |
3 823 |
5 176 |
4 946 |
6 197 |
7 037 |
7 694 |
101 |
| Milho |
3 918 |
4 544 |
5 712 |
7 438 |
8 591 |
9 360 |
139 |
| Soja |
1 690 |
1 794 |
1 782 |
2 292 |
2 561 |
3 025 |
79 |
| Trigo |
1 607 |
2 087 |
2 251 |
2 657 |
2 826 |
2 825 |
76 |
| Batata |
22 202 |
25 561 |
29 525 |
32 881 |
42 707 |
43 667 |
97 |
| Tomate |
25 450 |
34 130 |
43 077 |
55 187 |
69 194 |
66 176 |
160 |
| Laranja |
20 309 |
21 142 |
32 908 |
29 043 |
35 841 |
30 152 |
48 |
| Cana-de-açúcar |
99 369 |
92 126 |
82 497 |
79 415 |
78 423 |
73 833 |
-35 |
| Algodão em fibra |
492 |
492 |
453 |
711 |
709 |
805 |
64 |
| Leite de vaca |
3 306 |
4 422 |
5 393 |
6 705 |
8 254 |
9 118 |
176 |
| Carne de porco |
63 |
69 |
77 |
81 |
87 |
91 |
44 |
| Carne de gado |
214 |
255 |
271 |
296 |
327 |
351 |
64 |
Fonte: FAO/Nações Unidas, 2006.
* Com exceção do leite de vaca (cuja medida é litros por animal), da carne de porco e da carne de gado (quilos por animal), a medida utilizada para os demais produtos é quilos por hectare ao ano.
COMPARAÇÃO COM OUTRAS POTÊNCIAS AGRÍCOLAS
Confira o desempenho atual do Brasil, produto a produto, na comparação com outras potências agropecuárias
| Arroz |
| País |
Quilos por hectare ao ano |
| 1. Estados Unidos |
7 694 |
| 2. Argentina |
7 061 |
| 3. China |
6 265 |
| 4. México |
4 785 |
| 5. Federação Russa |
4 394 |
| 6. Brasil |
3 868 |
| 7. Índia |
3 124 |
| Milho |
| País |
Quilos por hectare ao ano |
| 1. Estados Unidos |
9 360 |
| 2. Argentina |
5 903 |
| 3. China |
5 365 |
| 4. Federação Russa |
3 629 |
| 5. Brasil |
3 383 |
| 6. México |
2 966 |
| 7. Índia |
1 938 |
| Soja |
| País |
Quilos por hectare ao ano |
| 1. Estados Unidos |
3 025 |
| 2. Argentina |
2 680 |
| 3. Brasil |
2 379 |
| 4. China |
1 703 |
| 5. México |
1 496 |
| 6. Índia |
1 073 |
| 7. Federação Russa |
996 |
| Trigo |
| País |
Quilos por hectare ao ano |
| 1. México |
5 252 |
| 2. China |
4 455 |
| 3. Estados Unidos |
2 825 |
| 4. Índia |
2 619 |
| 5. Argentina |
2 546 |
| 6. Federação Russa |
1 953 |
| 7. Brasil |
1 593 |
| Batata |
| País |
Quilos por hectare ao ano |
| 1. Estados Unidos |
43 667 |
| 2. Argentina |
29 486 |
| 3. México |
25 212 |
| 4. Brasil |
22 296 |
| 5. Índia |
17 079 |
| 6. China |
14 350 |
| 7. Federação Russa |
13 021 |
| Tomate |
| País |
Quilos por hectare ao ano |
| 1. Estados Unidos |
66 176 |
| 2. Brasil |
57 574 |
| 3. Argentina |
49 679 |
| 4. China |
23 158 |
| 5. México |
22 846 |
| 6. Índia |
17 359 |
| 7. Federação Russa |
15 907 |
| Laranja |
| País |
Quilos por hectare ao ano |
| 1. Estados Unidos |
30 152 |
| 2. Índia |
26 051 |
| 3. Brasil |
22 495 |
| 4. Argentina |
14 045 |
| 5. México |
12 417 |
| 6. China |
7 477 |
| 7. Federação Russa |
3 800 |
| Cana-de-açúcar |
| País |
Quilos por hectare ao ano |
| 1. China |
82 528 |
| 2. México |
75 710 |
| 3. Brasil |
73 996 |
| 4. Estados Unidos |
73 833 |
| 5. Índia |
66 945 |
| 6. Argentina |
66 045 |
| 7. Federação Russa |
- |
| Algodão em fibra |
| País |
Quilos por hectare ao ano |
| 1. China |
1 243 |
| 2. México |
1 076 |
| 3. Brasil |
958 |
| 4. Estados Unidos |
805 |
| 5. Argentina |
428 |
| 6. Índia |
400 |
| 7. Federação Russa |
- |
| Leite de vaca |
| País |
Litros por animal |
| 1. Estados Unidos |
9 118 |
| 2. México |
6 438 |
| 3. Argentina |
4 050 |
| 4. Federação Russa |
3 221 |
| 5. China |
3 031 |
| 6. Brasil |
1 235 |
| 7. Índia |
1 087 |
| Carne de porco |
| País |
Quilos por animal |
| 1. Argentina |
94 |
| 2. Estados Unidos |
91 |
| 3. Federação Russa |
83 |
| 4. Brasil |
81 |
| 5. México |
77 |
| 6. China |
76 |
| 7. Índia |
35 |
| Carne de gado |
| País |
Quilos por animal |
| 1. Estados Unidos |
351 |
| 2. Brasil |
212 |
| 3. Argentina |
206 |
| 4. México |
204 |
| 5. Federação Russa |
169 |
| 6. China |
138 |
| 7. Índia |
103 |
Fonte: FAO/Nações Unidas, 2006.