A corrida tecnológica

Referência em tecnologia agrícola, os Estados Unidos continuam na frente do Brasil na maioria das áreas
Por Maurício Oliveira  | 31.07.2008

Revista EXAME - 

A discussão sobre a escassez mundial de alimentos gera muita polêmica em relação às causas e aos eventuais culpados, mas há pelo menos uma grande unanimidade em torno dela: é preciso produzir mais comida, com urgência. Considerando-se que a área destinada à agricultura e à pecuária é naturalmente limitada (ainda mais com a crescente utilização de parte dela para a produção de biocombustíveis) e que o consumo de alimentos tende a continuar crescendo – sobretudo com a melhoria do poder aquisitivo em países superpovoados, como a China e a Índia –, a única solução parece ser o aumento da produtividade. Não se trata de um desafio novo. Produzir mais no mesmo espaço de terra é algo que vem sendo feito com sucesso ao longo das últimas décadas. Os Estados Unidos, líder dessa corrida em função dos grandes investimentos científicos realizados, conseguem tirar hoje de um hectare quase três vezes mais do que tiravam em 1950, levando-se em conta a média de todas as culturas (veja quadros). Mas são justamente as conquistas do passado que levam ao dilema atual: como obter novos avanços significativos em relação a tudo o que já foi feito – defensivos agrícolas mais eficazes, modernização do maquinário, evolução da previsão do tempo, uso de satélites e GPS etc?

"Não é uma equação simples, pois esses avanços precisam ser economicamente viáveis e ao mesmo tempo não colocar em risco a saúde humana e a preservação do meio ambiente", diz o engenheiro agrícola José Paulo Molin, professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo (Esalq-USP). Molin é um entusiasta do conceito de agricultura de precisão, que parte do princípio de que uma mesma lavoura é desigual e por isso deve receber tratamento segmentado. Depois que a plantação é "dividida" em lotes (de 20 metros quadrados, por exemplo), cada um desses lotes é analisado especificamente a partir de dados coletados de múltiplas fontes – como sistemas de posicionamento com GPS e imagens de satélite, sensores de umidade e monitoramento de atributos físicos e químicos do solo – e recebe tratamento adequado para os resultados da análise. A aplicação de insumos torna-se mais precisa, por exemplo. "Hoje dispomos de tecnologia suficiente para esse tipo de análise, que pode contribuir decisivamente para um salto de produtividade e de qualidade", considera Molin. Experimentos de agricultura de precisão feitos pela Esalq com grãos, cana-de-açúcar, café e citros resultaram em ganhos de produtividade entre 20% e 29% e redução entre 13% e 23% de insumos agrícolas em relação às médias nacionais. O grande obstáculo para a adoção em massa desse conceito, criado e difundido especialmente na Europa, é que os altos custos das tecnologias utilizadas só tornam viável a sua aplicação, por enquanto, em culturas com grande valor agregado, especialmente frutas.

Já nos Estados Unidos a grande aposta para o aumento da produtividade é a biotecnologia. "A agricultura depende criticamente dos recursos genéticos. Essa certamente será uma importante fonte de crescimento da produtividade nos próximos anos, mas é preciso que seja acompanhada de outros avanços, como o uso adequado da tecnologia da informação e o aprimoramento da administração dos negócios ligados à agricultura e pecuária", ressalta o economista Paul Heisey, do Serviço de Pesquisas Econômicas do United States Department of Agriculture (USDA), órgão que equivale ao Ministério da Agricultura brasileiro. A aposta dos Estados Unidos nas plantações geneticamente modificadas se reflete nas estatísticas: o país é disparado o líder nesse tipo de cultivo, com área de 57,7 milhões de hectares, ocupada por soja, milho, algodão, canola, mamão, alfafa e frutas para suco, entre várias outras culturas. Em segundo lugar vem a Argentina, com 19,1 milhões de hectares, e em terceiro está o Brasil, com 15 milhões de hectares – 14,5 milhões deles ocupados por soja e o restantes 500 000 por algodão. A área equivale a 32% do total ocupado por plantações no país, ante uma média mundial de 8%. Mas o espaço destinado aos transgênicos no Brasil cresce rapidamente – o acréscimo no ano passado foi de 3,5 milhões de hectares. Há no momento 23 países produzindo transgênicos – 11 industrializados, nos quais a taxa média de crescimento da área ocupada por transgênicos foi de 6% no ano passado, e 12 em desenvolvimento, que registraram em conjunto 21% de crescimento em 2007.

Alguns países têm registrado aumentos expressivos de produtividade em certas culturas após a adoção de variedades modificadas geneticamente. Um exemplo é o do algodão na China e na Índia, com índices que chegaram a 50% de aumento de um ano para outro. O entusiasmo decorrente disso preocupa muitos pesquisadores, especialmente na Europa. "As decisões regulatórias a respeito deveriam sempre incluir considerações de custo-benefício, com os benefícios sendo definidos em relação à sociedade como um todo, e não apenas como algo do tipo ‘o produto é eficaz’", adverte o professor Hermann Waibel, diretor do Instituto de Desenvolvimento e Economia na Agricultura da Leibniz Universität Hannover, um dos principais centros acadêmicos na área da agricultura na Alemanha. "Para obter estimativas realistas dos benefícios econômicos, é preciso ter um bom modelo de observação a longo prazo. A simples comparação de uma safra com a outra, como a que costuma ser feita nos países em desenvolvimento, não é suficiente", acrescenta. Polêmicas à parte, um aspecto que põe em xeque o papel que a biotecnologia poderá ter no aumento da produtividade é que os maiores ganhos nesse sentido já estariam sendo obtidos na chamada "primeira geração" de culturas geneticamente modificadas, marcada por modificações que reforçam ou implantam traços como crescimento acelerado, imunidade a insetos, tolerância a herbicidas e resistência a condições como escassez de água. As gerações seguintes, que já envolvem a maior parte dos esforços de pesquisa, serão focadas no reforço de nutrientes (como vitaminas e ferro) e na produção de medicamentos, aspectos que não teriam relação direta com aumento de produtividade.


Avanços pontuais
Em vez de novidades muito abrangentes e revolucionárias, o que mais tem contribuído para o ganho de produtividade são avanços pontuais e específicos em cada cultura, resultado direto da crescente especialização dos pesquisadores – especialmente na iniciativa privada, cuja participação nessa corrida tem sido cada vez mais efetiva. Nos Estados Unidos, os gastos anuais das empresas com o desenvolvimento da agricultura saltaram de 2,2 bilhões de dólares em 1970 para os 5,8 bilhões de dólares atuais, enquanto os investimentos do setor público passaram no mesmo período de 2,5 bilhões de dólares para 4 bilhões de dólares. Na área de biotecnologia, três em cada quatro pedidos de patente partem da iniciativa privada. "Essa é uma disputa muito mais entre grandes corporações multinacionais do que propriamente entre países", diz o engenheiro agrônomo Fábio Meneghin, analista de mercado da consultoria Agroconsult. Para ele, esse é um traço essencial para a democratização dos avanços tecnológicos que permitirão o gradual aumento da produtividade. "Essas empresas têm todo o interesse de difundir suas descobertas o mais rápido possível entre os países em que atuam", destaca.

Um exemplo recente de avanço pontual – mas significativo – no Brasil é a aprovação do uso de uma variedade de semente de milho resistente à lagarta-do-cartucho, praga que, ao destruir parte das folhas, reduz a área de fotossíntese e compromete o desenvolvimento da planta. Especialistas prevêem que a simples adoção dessa semente pode fazer a produtividade aumentar 20% em regiões atingidas pela lagarta, principal praga do milho no Brasil. Desenvolvida por uma multinacional, a variedade foi testada na Argentina – onde as condições brasileiras foram simuladas – enquanto aguardava a aprovação pelo Conselho Nacional de Biossegurança (CNBS), concedida em fevereiro, ao final de um longo processo de análises por parte do órgão interministerial. Vencer a lagarta-do-cartucho é uma conquista importante para reduzir o enorme déficit de produtividade das lavouras brasileiras de milho, cuja produção média na última safra foi de 3 383 quilos por hectare, contra 9.360 quilos por hectare nos Estados Unidos (acredita-se que, nas condições ideais possibilitadas pelas novas tecnologias, um hectare possa vir a produzir até 35 000 quilos de milho, referência significativa para compreender o quanto ainda há para crescer em termos de produtividade). Outro passo essencial seria a ampla adoção pelos produtores nacionais de uma tecnologia disponível há muito tempo: sementes híbridas certificadas, que resultam dos tradicionais processos de cruzamento de duas espécies, anteriores à transgenia. Com o objetivo de economizar na hora do plantio, muitos produtores preferem recorrer às chamadas sementes "caboclas", produzidas artesanalmente, que em geral apresentam produtividade inferior.

O milagre da multiplicação
Crescimento da produtividade da agropecuária no Brasil e nos Estados Unidos ao longo das últimas cinco décadas

BRASIL
Produto* 1960 1970 1980 1990 2000 2006 Variação 1960-2006 (%)
Arroz 1 699 1 517 1 566 1 880 3 034 3 868 128
Milho 1 312 1 442 1 779 1 874 2 745 3 383 158
Soja 1 127 1 144 1 727 1 732 2 400 2 379 111
Trigo 533 973 865 1.154 1.559 1.593 199
Batata 5 648 7 394 10 711 14 108 17 022 22 296 295
Tomate 13 332 16 988 30 643 37 143 53 263 57 574 332
Laranja 14 836 15 341 18 934 19 190 24 906 22 495 52
Cana-de-açúcar 43 448 46 230 57 006 61 479 67 624 73 996 70
Algodão em fibra 209 150 149 333 828 958 358
Leite de vaca 706 772 724 782 1 139 1 235 75
Carne de porco 66 68 69 84 72 81 23
Carne de gado 191 193 180 182 211 212 11

ESTADOS UNIDOS
Produto* 1960 1970 1980 1990 2000 2006 Variação 1960-2006 (%)
Arroz 3 823 5 176 4 946 6 197 7 037 7 694 101
Milho 3 918 4 544 5 712 7 438 8 591 9 360 139
Soja 1 690 1 794 1 782 2 292 2 561 3 025 79
Trigo 1 607 2 087 2 251 2 657 2 826 2 825 76
Batata 22 202 25 561 29 525 32 881 42 707 43 667 97
Tomate 25 450 34 130 43 077 55 187 69 194 66 176 160
Laranja 20 309 21 142 32 908 29 043 35 841 30 152 48
Cana-de-açúcar 99 369 92 126 82 497 79 415 78 423 73 833 -35
Algodão em fibra 492 492 453 711 709 805 64
Leite de vaca 3 306 4 422 5 393 6 705 8 254 9 118 176
Carne de porco 63 69 77 81 87 91 44
Carne de gado 214 255 271 296 327 351 64

Fonte: FAO/Nações Unidas, 2006.
* Com exceção do leite de vaca (cuja medida é litros por animal), da carne de porco e da carne de gado (quilos por animal), a medida utilizada para os demais produtos é quilos por hectare ao ano.

COMPARAÇÃO COM OUTRAS POTÊNCIAS AGRÍCOLAS

Confira o desempenho atual do Brasil, produto a produto, na comparação com outras potências agropecuárias

Arroz
País Quilos por hectare ao ano
1. Estados Unidos 7 694
2. Argentina 7 061
3. China 6 265
4. México 4 785
5. Federação Russa 4 394
6. Brasil 3 868
7. Índia 3 124

Milho
País Quilos por hectare ao ano
1. Estados Unidos 9 360
2. Argentina 5 903
3. China 5 365
4. Federação Russa 3 629
5. Brasil 3 383
6. México 2 966
7. Índia 1 938

Soja
País Quilos por hectare ao ano
1. Estados Unidos 3 025
2. Argentina 2 680
3. Brasil 2 379
4. China 1 703
5. México 1 496
6. Índia 1 073
7. Federação Russa 996

Trigo
País Quilos por hectare ao ano
1. México 5 252
2. China 4 455
3. Estados Unidos 2 825
4. Índia 2 619
5. Argentina 2 546
6. Federação Russa 1 953
7. Brasil 1 593

Batata
País Quilos por hectare ao ano
1. Estados Unidos 43 667
2. Argentina 29 486
3. México 25 212
4. Brasil 22 296
5. Índia 17 079
6. China 14 350
7. Federação Russa 13 021

Tomate
País Quilos por hectare ao ano
1. Estados Unidos 66 176
2. Brasil 57 574
3. Argentina 49 679
4. China 23 158
5. México 22 846
6. Índia 17 359
7. Federação Russa 15 907

Laranja
País Quilos por hectare ao ano
1. Estados Unidos 30 152
2. Índia 26 051
3. Brasil 22 495
4. Argentina 14 045
5. México 12 417
6. China 7 477
7. Federação Russa 3 800

Cana-de-açúcar
País Quilos por hectare ao ano
1. China 82 528
2. México 75 710
3. Brasil 73 996
4. Estados Unidos 73 833
5. Índia 66 945
6. Argentina 66 045
7. Federação Russa -

Algodão em fibra
País Quilos por hectare ao ano
1. China 1 243
2. México 1 076
3. Brasil 958
4. Estados Unidos 805
5. Argentina 428
6. Índia 400
7. Federação Russa -

Leite de vaca
País Litros por animal
1. Estados Unidos 9 118
2. México 6 438
3. Argentina 4 050
4. Federação Russa 3 221
5. China 3 031
6. Brasil 1 235
7. Índia 1 087

Carne de porco
País Quilos por animal
1. Argentina 94
2. Estados Unidos 91
3. Federação Russa 83
4. Brasil 81
5. México 77
6. China 76
7. Índia 35

Carne de gado
País Quilos por animal
1. Estados Unidos 351
2. Brasil 212
3. Argentina 206
4. México 204
5. Federação Russa 169
6. China 138
7. Índia 103
Fonte: FAO/Nações Unidas, 2006.  
 
 
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