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Alimentos e biocombustíveis

 | 31.07.2008

O cenário atual cria uma oportunidade formidável para o Brasil aumentar a produção de comida e de energia

 

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Por Roberto Rodrigues

EXAME 

O desequilíbrio entre a oferta e a demanda mundial de produtos agrícolas – alimentos, fibras e energia – abre uma oportunidade ímpar para o Brasil. Os preços estão elevados devido a esse desequilíbrio: os países emergentes vivem um crescimento de renda per capita maior do que os países desenvolvidos, de modo que suas populações estão consumindo mais. E a oferta não acompanhou esse crescimento, principalmente em função das secas que, nos últimos anos, afetaram as produções de vários países, inclusive do Brasil, da Argentina, da Austrália e da Europa Central e do Leste.
Atentos a esse movimento, investidores de diferentes fundos passaram a aplicar seus recursos especulativos em alimentos, e essa especulação ajudou a aumentar os preços. Também o custo da produção cresceu, sobretudo por causa do petróleo e dos fertilizantes.
E, é claro, o etanol de milho americano, subsidiado, concorreu com os alimentos, reduzindo a renda das indústrias desse setor, e o etanol em geral passou a ser considerado como o único vilão do aumento dos preços em todo o mundo.
O pior é que líderes importantes, sem informação adequada, entraram na onda, e alguns chegaram a afirmar que os biocombustíveis representam uma ameaça à humanidade. Misturaram tudo, etanol subsidiado do milho americano que concorre com comida, e etanol de cana brasileiro, que não tem subsídio, não concorre com comida e ainda produz grãos na renovação dos canaviais.
Não percebem que a agroenergia pode ser produzida em países mais pobres do planeta, entre os dois trópicos, onde há terra, água e, sobretudo, sol à vontade, mudando a própria geopolítica mundial, dando a esses países emprego, renda e energia para exportar aos países do norte.
Pois bem: neste cenário, o Brasil tem uma oportunidade formidável, tanto para produzir alimentos quanto biocombustíveis e, mais que isso tudo, liderar um processo mundial que reduziria a dependência do petróleo para quem não o tem, diminuindo as emissões de gases de efeito estufa, e assim contribuindo para reduzir o aquecimento global.
Dominamos a tecnologia do etanol há décadas e podemos exportá-la – e não somente o etanol, mas também exportar usinas completas, motores flex e inteligência, que temos de sobra.
Da mesma forma, temos chances inéditas no que diz respeito aos alimentos. Hoje cultivamos 72 milhões de hectares com todas as culturas, das quais apenas 5% com cana para etanol. Temos mais de 180 milhões de hectares de pastagens, e o progresso tecnológico da pecuária de corte, além da grande inovação da integração lavoura/pecuária, estão permitindo produzir muito mais carne por hectare. Com isso, estão sobrando pastos e, da área deles, cerca de 71 milhões de hectares são excelentes para agricultura, o que nos dá a chance de dobrar a área plantada. Com o aumento da produtividade por área, podemos chegar a 300 bilhões de litros de álcool por ano e mais de 350 milhões de toneladas de alimentos, aumentando também a proteína animal.
Esta é a grande oportunidade, e não podemos perdê-la.
Para isso, necessitamos de uma ampla estratégia de governo, que incorpore ações de logística, infra-estrutura, negociação internacional, promoção comercial, políticas de renda para o campo, agregação de valor, investimentos em tecnologia e recursos humanos, enfim, uma verdadeira política agrícola integrada, e não apenas ações do Ministério da Agricultura.
É tempo de acordar para esse poderoso desafio, que, enfrentado e vencido, gerará milhares de novos empregos no nosso país e riquezas em todo o território nacional, excedentes exportáveis, levando-o ao primeiro mundo nas asas do melhor agronegócio do planeta.

* Roberto Rodrigues é ex-ministro da Agricultura

* Coordenador do Centro de Agronegócio da FGV, presidente do Conselho Superior de Agronegócio da Fiesp e professor de Economia Rural da Unesp/Jaboticabal

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