O renascimento do cacau

Castigada por uma praga que derrubou a produção em mais de 50%, a cultura ganha um novo alento com a exportação de amêndoas para chocolates de grife na Europa
Cristian Cravo
Diego Badaró, quinta geração de uma família que produz cacau há mais de 100 anos: frutos selecionados com mais rigor
 
Por Luciana Barreto  | 22.07.2008

Revista EXAME - 

Escrito em 1942, o romance Terras do Sem Fim, de Jorge Amado, narra a história de duas famílias que travam uma luta sangrenta pela mata de Sequeiro Grande, zona fértil e inexplorada na região cacaueira de Ilhéus. O chefe de uma delas, o temível Sinhô Badaró, que dizima os inimigos com sua tropa de jagunços, foi inspirado num personagem real, membro da segunda geração de pioneiros dessa cultura no interior da Bahia. Essa estirpe está envolvida com o cacau há mais de 100 anos no estado e viveu quase todos os ciclos econômicos de sua história — desde o início do século 20, período em que o cacau era chamado de “ouro branco” e a Bahia era a maior produtora mundial, até a crise da vassoura-de-bruxa, praga surgida no final da década de 80 que arruinou boa parte das plantações, levando muita gente à ruína. Agora, essa história ganhou um novo capítulo. Diego Badaró, de 27 anos, membro da quinta geração do clã de famosos cacaueiros (ele é sobrinho-bisneto de Sinhô Badaró), acredita que encontrou um caminho para a recuperação dos negócios nessa área. Em sua propriedade, a Fazenda Monte Alegre, na cidade de Itacaré, no sul da Bahia, ele vem colhendo bons resultados com o plantio de cacau fino. “Em termos de cuidados com a fabricação e a complexidade de sabores, nossa matéria-prima é comparável aos bons vinhos”, afirma Badaró.

As diferenças entre a cultura da Monte Alegre e a comum surgem a partir da colheita. Em geral, os produtores costumam aproveitar todos os frutos da plantação, incluindo os verdes, os picados por insetos e os excessivamente maduros. Na produção do cacau fino, apenas os frutos no ponto certo — chamados de “amarelo-ouro” — são selecionados. Há diferenças também no processo de secagem das amêndoas. Para a produção do cacau comum, a secagem é feita com o uso de lenha ou gás — que podem deixar cheiro de fumaça na amêndoa. No cacau fino a secagem ocorre ao ar livre. Evitam-se os picos de sol — nos horários mais quentes, as frutas ficam cobertas. Esses cuidados são necessários para produzir a matéria-prima de um chocolate capaz de satisfazer os paladares mais exigentes. Por isso, a arroba (cerca de 15 quilos) da matéria-prima premium é cotada a 140 reais, o dobro do preço do cacau comum. No caso da Fazenda Monte Alegre, boa parte da produção é exportada, abastecendo grifes internacionais de chocolates finos, como a francesa Pralus.

O fazendeiro Diego Badaró faz parte de um grupo de aproximadamente 100 produtores da região que estão se dedicando a esse tipo de cultivo. Uma parte deles fundou em 2004 uma entidade para representá-los, a Associação dos Profissionais de Cacau Fino e Especial, com sede em Ilhéus. Embora a matéria-prima premium represente apenas 0,2% da produção de cacau nacional, o volume de exportações desse tipo de fruto aumentou de 15 toneladas para 274 toneladas nos últimos quatro anos (veja quadro na página anterior). “Estamos bastante confiantes, pois o interesse lá fora é crescente”, diz o produtor João Tavares, que tem uma fazenda na região de Ilhéus e fornece amêndoas à chocolateria italiana Pierre Marcolini.

Um dos desafios dos envolvidos no negócio é vencer o ceticismo de alguns especialistas em relação à qualidade dos grãos produzidos na Bahia. Há os que dizem que cacau fino, em sentido estrito, seria o produzido com a variedade criollo, presente em apenas 5% da produção mundial e típica de países como Venezuela e Colômbia. O cacau forastero, de sabor mais forte, a variedade predominante no sul da Bahia, é visto por esse grupo de connaîsseurs como de qualidade inferior. “Essa visão está equivocada”, afirma o produtor Guilherme Moura. A opinião é corroborada por algumas vozes gabaritadas. Recentemente, a Seventypercent, confraria britânica de degustação de chocolate que está entre as mais conceituadas do mundo, deu nota 75 (numa escala de zero a 100) a um chocolate da grife francesa Pralus produzido com matéria-prima brasileira. “O termo forastero deixou de ser uma palavra proibida no universo dos chocolates”, diz uma resenha publicada recentemente no site britânico.

No médio e longo prazo, a expansão das plantações de cacau fino pode amenizar uma crise que dura quase duas décadas nessa cultura no país. Desde o problema da vassoura-de-bruxa, cerca de 200 000 pessoas perderam o emprego na região cacaueira da Bahia. “A situação do cultivo do cacau no estado é de miséria”, diz o analista Thomas Hartmann, da TH Consultoria, especializada no mercado internacional. Outra conseqüência nefasta da praga foi que o Brasil deixou o posto de maior produtor mundial do fruto — a posição é hoje disputada por países africanos como Gana, Costa do Marfim e Nigéria. A vassoura-de-bruxa continua como um dos principais problemas da lavoura de cacau. A solução é o plantio de variedades mais resistentes à doença. Mas, na Bahia, por enquanto, isso só foi feito em 100 000 dos 600 000 hectares onde está espalhada a cultura. “Os produtores dizem que estão endividados e que não têm dinheiro para renovar a lavoura”, diz Moacir Lima, diretor-geral do Instituto Biofábrica de Cacau, órgão vinculado ao governo estadual que produz e distribui mudas resistentes à vassoura-de-bruxa.

A maior parte dos fazendeiros que se dedicam à produção de cacau fino possui plantas resistentes à praga. Um dos mais otimistas com as possibilidades do negócio é Diego Badaró. Ele iniciou a produção de cacau fino em 2004, com 21 toneladas. Desde então, o volume mais que dobrou. Agora, a intenção é chegar a um total de 300 toneladas até 2012, o que deve lhe render um faturamento de 3,4 milhões de reais. O cacau da Monte Alegre é orgânico, adubado com terra do sertão e um composto que mistura água do mar, lama do mangue, frutas e melaço. Os cuidados com o cultivo renderam ao produtor baiano uma parceria interessante com a Pralus. Recentemente, a companhia francesa elaborou barras de chocolate com cacau produzido na fazenda de Badaró, exibindo na embalagem a denominação de origem baiana. O próximo passo da parceria é a inauguração no segundo semestre de uma linha de produção de chocolate em conjunto com a grife francesa. Chefs da Pralus irão à Bahia para prestar consultoria e ajudar a implantar uma pequena fábrica na cidade de Salvador, com capacidade de produção de 1 000 toneladas por ano. O valor do investimento é mantido sob segredo. Se o cronograma original for seguido à risca, os chocolates de Badaró devem chegar ao mercado brasileiro até o fim deste ano.

Exportações crescentes

 
 
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