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Sinal amarelo para a Embrapa

| 22/07/2008

A reputação de ilha de excelência em pesquisas agronômicas da empresa nunca esteve tão ameaçada. Entre os problemas ocorridos nos últimos anos, ela sofreu com a falta de verbas, a fuga de especialistas e até a tentativa de politização das pesquisas

 

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Por Angela Pimenta

exame

Se não fosse pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), a célebre carta que Pero Vaz de Caminha escreveu ao rei de Portugal em 1500, dizendo que no Brasil “em se plantando, tudo dá”, não passaria de uma bravata. Castigado pela acidez do solo, durante quase cinco séculos, o cerrado, que corresponde a 22% do território brasileiro, amargou colheitas medíocres. Coube à Embrapa, criada em 1973 pelo regime militar, mudar essa realidade, promovendo a maior transformação verde da história dos trópicos. Graças às novas tecnologias e aos avanços promovidos pelos pesquisadores da empresa — que corrigiram a acidez da terra, desenvolveram sementes propícias e aprenderam a combater pragas —, já na virada do milênio a Região Centro-Oeste passou a produzir mais de 40% da safra nacional de grãos. Paralelamente aos avanços no cerrado, as melhorias promovidas em todo o país permitiram que a produção de carne bovina e suína quadruplicasse e a de frango crescesse 18 vezes.

A liderança em inovação conquistada pela Embrapa em mais de três décadas, porém, nunca esteve tão ameaçada. Nos últimos anos, a empresa enfrentou uma série de obstáculos que podem comprometer a qualidade do trabalho, deixando-a numa posição de inferioridade na corrida mundial pelo desenvolvimento de tecnologias no campo. Na lista de turbulências que atingiram a Embrapa nos últimos tempos consta até uma tentativa de politização das linhas de pesquisa, com ênfase em programas de agricultura familiar, uma das bandeiras do Partido dos Trabalhadores. A medida desagradou aos técnicos de carreira da Embrapa, que fizeram oposição até conseguir reverter a orientação. À confusão política somaram-se problemas como a redução de verbas e a saída de alguns dos melhores quadros da empresa. “Por falta de recursos, tivemos de deixar na gaveta projetos importantes relacionados a alimentos e biocombustíveis”, diz o físico Silvio Crestana, que assumiu a presidência da Embrapa em 2005, em meio à crise da instituição.

Na relação de problemas que fizeram acender a luz amarela na empresa, a falta de verbas para pesquisa ocupa lugar de destaque. Em razão do ajuste fiscal promovido pelo governo no início da década, a Embrapa chegou a receber apenas 400 milhões de reais por ano em repasses de recursos, quase um terço da verba mínima necessária para sustentar a estrutura e manter em bom andamento os principais projetos. Nesse período, era tamanha a penúria que algumas unidades sofreram corte de luz por inadimplência e faltou dinheiro até para alimentar de forma adequada os rebanhos usados em pesquisas genéticas. Entre as medidas emergenciais para contornar a crise, a diretoria da Embrapa lançou, em 2006, um plano de demissão voluntária. O objetivo era diminuir o valor da folha salarial. Até agora, cerca de 250 pesquisadores seniores, que ganhavam até 12 000 reais por mês, já se demitiram. Para substituí-los, a Embrapa contratou 200 novos doutores com salário médio de cerca de 6 000 reais.

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