Revista EXAME -
Se não fosse pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), a célebre carta que Pero Vaz de Caminha escreveu ao rei de Portugal em 1500, dizendo que no Brasil “em se plantando, tudo dá”, não passaria de uma bravata. Castigado pela acidez do solo, durante quase cinco séculos, o cerrado, que corresponde a 22% do território brasileiro, amargou colheitas medíocres. Coube à Embrapa, criada em 1973 pelo regime militar, mudar essa realidade, promovendo a maior transformação verde da história dos trópicos. Graças às novas tecnologias e aos avanços promovidos pelos pesquisadores da empresa — que corrigiram a acidez da terra, desenvolveram sementes propícias e aprenderam a combater pragas —, já na virada do milênio a Região Centro-Oeste passou a produzir mais de 40% da safra nacional de grãos. Paralelamente aos avanços no cerrado, as melhorias promovidas em todo o país permitiram que a produção de carne bovina e suína quadruplicasse e a de frango crescesse 18 vezes.
A liderança em inovação conquistada pela Embrapa em mais de três décadas, porém, nunca esteve tão ameaçada. Nos últimos anos, a empresa enfrentou uma série de obstáculos que podem comprometer a qualidade do trabalho, deixando-a numa posição de inferioridade na corrida mundial pelo desenvolvimento de tecnologias no campo. Na lista de turbulências que atingiram a Embrapa nos últimos tempos consta até uma tentativa de politização das linhas de pesquisa, com ênfase em programas de agricultura familiar, uma das bandeiras do Partido dos Trabalhadores. A medida desagradou aos técnicos de carreira da Embrapa, que fizeram oposição até conseguir reverter a orientação. À confusão política somaram-se problemas como a redução de verbas e a saída de alguns dos melhores quadros da empresa. “Por falta de recursos, tivemos de deixar na gaveta projetos importantes relacionados a alimentos e biocombustíveis”, diz o físico Silvio Crestana, que assumiu a presidência da Embrapa em 2005, em meio à crise da instituição.
Na relação de problemas que fizeram acender a luz amarela na empresa, a falta de verbas para pesquisa ocupa lugar de destaque. Em razão do ajuste fiscal promovido pelo governo no início da década, a Embrapa chegou a receber apenas 400 milhões de reais por ano em repasses de recursos, quase um terço da verba mínima necessária para sustentar a estrutura e manter em bom andamento os principais projetos. Nesse período, era tamanha a penúria que algumas unidades sofreram corte de luz por inadimplência e faltou dinheiro até para alimentar de forma adequada os rebanhos usados em pesquisas genéticas. Entre as medidas emergenciais para contornar a crise, a diretoria da Embrapa lançou, em 2006, um plano de demissão voluntária. O objetivo era diminuir o valor da folha salarial. Até agora, cerca de 250 pesquisadores seniores, que ganhavam até 12 000 reais por mês, já se demitiram. Para substituí-los, a Embrapa contratou 200 novos doutores com salário médio de cerca de 6 000 reais.
Do ponto de vista financeiro, a Embrapa conseguiu deixar a UTI. Recentemente, o presidente Lula anunciou um reforço de 650 milhões de reais para o caixa da empresa até 2010. “O pior da crise já passou”, afirma Crestana. Com o dinheiro, o orçamento anual da Embrapa agora está na marca de 1,1 bilhão de reais. Apesar de representar uma melhora em relação à penúria dos últimos tempos, esse número equivale à metade da verba do Serviço de Pesquisa Agrícola dos Estados Unidos (veja quadro na pág. 40). Outra questão é o custo real das perdas de alguns quadros que aderiram ao plano de demissão voluntária. Entre os especialistas que deixaram a Embrapa estão nomes como Edson Lobato, especialista em fertilidade de solos que em 2006 recebeu o World Food Prize, maior premiação da agricultura mundial.
É cedo para saber se a Embrapa vai conseguir formar uma nova fornada de pesquisadores à altura dos veteranos. De acordo com especialistas ouvidos pelo Anuário EXAME, os recém-contratados deverão levar de dois a cinco anos para produzir os primeiros resultados. A troca de bastão pode prejudicar a competitividade da Embrapa na área de inovação, sobretudo num período em que multinacionais como Cargill e Monsanto mantêm laboratórios irrigados por verbas colossais. “No campo da soja, os grandes avanços da Embrapa se deram no final do século 20”, diz o economista Peter Goldsmith, diretor do centro nacional de pesquisa da soja da Universidade de Illinois e uma das maiores autoridades mundiais no assunto. “Mas, nos últimos anos, coube à Monsanto lançar as duas maiores inovações: a linha de produtos Roundup, que torna os grãos resistentes a herbicidas, e a soja com baixo teor linolênico, que gera produtos com baixo nível de gordura trans.”
A Embrapa está atrasada em dois setores críticos para a liderança brasileira — a soja e o etanol. Há alguns anos, a empresa iniciou um projeto em parceria com a multinacional alemã Basf para criar uma linha de produtos que concorra com o Roundup, da Monsanto. Mas as novidades só devem chegar ao mercado a partir de 2012. No caso do álcool, Crestana planeja montar uma empresa subsidiária da Embrapa, de capital misto, para desenvolver o etanol celulósico, em parceria com a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo. “Estamos negociando com a Fiesp para criar uma empresa de pesquisa com capital inicial de 100 milhões de dólares, na qual a Embrapa teria participação de 49% no capital”, diz Crestana. Se a empresa sair do papel em 2008, espera-se que o álcool celulósico chegue ao mercado por volta de 2015. Empresas americanas, como a Dupont, anunciam que vão lançar o etanol celulósico daqui a cinco anos.
Para fazer frente aos tubos de ensaio das multinacionais, a Embrapa não pode mais só depender de verbas públicas. Segundo especialistas, ela precisa forjar parcerias estratégicas com os laboratórios das principais universidades, institutos de pesquisa e empresas privadas do planeta. “As alianças ajudam a definir mais claramente as linhas de pesquisa, reduzindo os custos e os riscos de fracasso”, diz o economista Mark Cackler, gerente do programa de agricultura do Banco Mundial. Por enquanto, a Embrapa mantém uma pequena equipe de pesquisadores residentes em centros de pesquisa nos Estados Unidos, na França e na Holanda. Louvável, tal iniciativa precisa se tornar uma realidade rotineira para a empresa, e não uma exceção. É um dos caminhos necessários para ela merecer novamente a reputação de ilha de excelência e de vanguarda em pesquisas agronômicas.