Campo Verde, “ouro branco”

Graças ao cultivo de algodão, Campo Verde, no interior de Mato Grosso, transformou-se na cidade com o maior PIB agropecuário do Brasil
Fabiano Accorsi
Barbosa, da Fazenda Modelo, e sua família: “Não poderia ter feito aposta melhor”
 
Por Tiago Maranhão, de Campo Verde  | 21.07.2008

Revista EXAME - 

No período de vacas gordas, o agronegócio brasileiro tem o poder de impulsionar rapidamente a vida de pequenos vilarejos, transformando-os em novos centros de prosperidade. Foi assim com a cidade de Sorriso, no interior de Mato Grosso, que entrou para o mapa de relevância econômica no final dos anos 90, quando alcançou o topo da lista dos maiores produtores de soja do país. Um fenômeno semelhante ocorre agora no mesmo estado, mais precisamente em Campo Verde, a 130 quilômetros da capital, Cuiabá. Segundo os últimos dados do IBGE, Campo Verde detém hoje o maior PIB agropecuário do Brasil — 735 milhões de reais (veja quadro na pág. 27). Esse valor é o total do dinheiro arrecadado por ano com a agropecuária numa cidade, descontados os gastos dos produtores e os impostos. Em outros termos, nenhum lugar no país tira atualmente tanta riqueza da terra quanto Campo Verde. Seu PIB agropecuário é hoje maior do que o de Sorriso e quase o dobro do registrado por tradicionais pólos de negócios do campo, como Uberlândia, em Minas Gerais. “As últimas safras foram ótimas e ainda temos muito espaço para crescer”, afirma Dimorvan Brescancim, prefeito de Campo Verde.

Enquanto a soja foi responsável pelo crescimento de Sorriso, a cidade de Campo Verde paga tributo ao algodão, conhecido por aquelas plagas como “ouro branco”. A cultura responde por mais da metade do PIB agropecuário do município. Graças às condições especiais na região que favorecem o crescimento da planta, como o clima ameno e a abundância de chuva, a produtividade de algodão nas melhores fazendas de Campo Verde chega a 280 arrobas por hectare, ante 235 da média nacional. Devido à fartura de matéria-prima, instalaram-se por lá nos últimos anos 18 indústrias algodoeiras, sendo três delas as maiores e mais modernas do Brasil — Marabá, Bom Futuro e Cooperfibra. Juntas, essas empresas faturam 30 milhões de reais por ano e são responsáveis por 5% de toda a produção nacional de algodão. Metade dos fardos que saem dos armazéns abastece o mercado interno, enquanto o restante é exportado, praticamente em sua totalidade, para a China.

A grande fonte de riqueza de Campo Grande foi descoberta quase por acaso. Até meados dos anos 90, a soja era a grande aposta do agronegócio local. Como a cultura estava sofrendo muito com pragas na região, os agricultores começaram a testar algumas alternativas. De longe, o algodão apresentou os melhores resultados, apesar de exigir investimento maior dos produtores — 2 500 dólares por tonelada, mais de três vezes o necessário para o plantio de soja. “Meu único arrependimento foi não ter comprado um lote maior de terra quando vim para cá”, afirma Eswalter Zanetti, de 39 anos, que deixou o interior do Paraná em 1976 para trabalhar na região de Campo Verde. Na época, sua família adquiriu um lote de 3 850 hectares, onde foi construída a fazenda Modelo. Hoje, ela é uma das campeãs em produtividade de algodão. A propriedade tem 72 funcionários e faturou 20 milhões de reais em 2007, o dobro do número registrado há cinco anos. “Quando chegamos à cidade, confesso que não esperava retirar tanto dinheiro desta terra”, diz Zanetti.

O município de Campo Verde nasceu em 1988, depois que sua reivindicação de emancipação da cidade de Dom Aquino foi aceita. “Nessa época, havia por aqui só três ruas asfaltadas”, diz o fazendeiro Laércio Andrade Júnior, de 40 anos, que deixou Jacarezinho, no norte do Paraná, no final dos anos 80, para trabalhar em Campo Verde. Uma década depois, o município já possuía cerca de 10 000 habitantes. Atualmente, são mais de 30 000 pessoas. Com taxa média de crescimento anual da economia de 12%, a previsão é que a população supere a marca de 100 000 habitantes até 2020. Boa parte desse crescimento ocorre graças à chegada de forasteiros, como o paranaense Andrade. Sua propriedade, a fazenda Torre, possui hoje 770 hectares de cultivo de algodão e registrou no ano passado faturamento de 4 milhões de reais.

Nos últimos seis anos, a produção de algodão praticamente dobrou no município, chegando a 350 000 toneladas na safra 2006/2007. O momento é favorável à cultura de fibra. Graças à demanda da indústria têxtil de países como a China, a cotação do produto vem aumentando consideravelmente. No ano passado, a variação foi de 30% na bolsa de Nova York. “A situação só não é melhor porque o preço do adubo triplicou no mesmo período, o que prejudicou o lucro dos produtores”, afirma Carlos Alberto Menegatti, diretor da Cooperfibra, cooperativa que reúne 150 produtores do município. A sede da entidade tem salas bem decoradas, sofás de couro na recepção e um monitor de plasma no saguão principal mostrando em tempo real as cotações das commodities agrícolas nas principais bolsas americanas. “Quem produz hoje dificilmente ficará sem compradores, sobretudo no exterior”, diz Menegatti.

Depois do algodão, a cultura mais importante para o agronegócio local é a soja. Nos últimos anos, uma atividade que demonstra grande potencial de crescimento é a criação de aves. Hoje, Campo Verde produz 250 000 frangos de corte por dia. A Sadia responde por mais da metade desse total. No fim do ano passado, a empresa anunciou que construirá outra unidade no município. Ela deverá ficar pronta em 2009. A companhia não revela detalhes do negócio, mas o investimento é estimado pelo mercado em 1,5 bilhão de reais.

Apesar de todo o progresso recente, Campo Verde ainda mantém um ar típico de cidade do interior. Em sua avenida principal, a Brasil, concentram-se bares, restaurantes e quase todo o comércio. A principal vocação da cidade fica clara quando se observa a quantidade de lojas relacionadas ao agronegócio, como concessionárias de máquinas e armazéns especializados na venda de adubos e defensivos. Os reflexos da fase de pujança são nítidos em vários setores da economia local. O mercado imobiliário, por exemplo, passa por um período de grande efervescência. Nos últimos dez anos, o metro quadrado na cidade valorizou-se 700%. Com isso, uma residência de três dormitórios no perímetro urbano chega a custar até 300 000 reais, preço compatível com o dos melhores bairros de Cuiabá. O comércio de Campo Verde também vive uma fase de forte crescimento. Um exemplo disso é a Edi Motos, única concessionária de motos da cidade. “Nos últimos dois anos, o movimento cresceu 50%”, afirma Edmilson Pereira, proprietário da loja. “Atualmente, vendemos uma média de 40 motos por mês.” O modelo Titan, da Honda, de 150 cilindradas, custa 7 900 reais e é o predileto dos compradores. Quem são os clientes de Pereira? “Quase todos trabalhadores das fazendas daqui da região”, diz ele.

Segundo cálculo dos especialistas no negócio, cada 10 hectares de algodão plantado geram um novo emprego, em média. A mão-de-obra em Campo Verde tem nível de especialização mais alto, pois as colheitas são realizadas integralmente por máquinas. Com isso, o salário médio é um dos melhores do mercado rural da Região Centro-Oeste. Um tratorista ganha aproximadamente 1 000 reais por mês. Um gerente de fazenda, como é o caso do paranaense Valdecir Barbosa, de 42 anos, que comanda a fazenda Modelo, recebe cerca de 3 000 reais e ainda tem direito a benefícios, como moradia e horas extras nos tempos de colheita. Ele coordena uma equipe de 70 empregados e vive numa casa, cedida pelos proprietários, dentro da fazenda, com a mulher e as duas filhas. “Vim em busca de boas condições de trabalho e de uma qualidade de vida melhor”, afirma Barbosa. “Não poderia ter feito uma aposta mais acertada.”

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