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O agronegócio brasileiro deu nos últimos meses um salto decisivo rumo à internacionalização. Depois de acumular experiência com a exportação de seus produtos, algumas das maiores empresas brasileiras da área partiram para a aquisição e a implantação de fábricas no exterior. O ritmo dos negócios é crescente. Em 2006, de acordo com a consultoria KPMG, as empresas brasileiras de agronegócio compraram sete companhias lá fora. Em 2007, esse número dobrou, totalizando 14 operações. Em 2008, só no primeiro trimestre, foram anunciadas cinco transações. Quase todos esses negócios foram feitos por empresas dos setores de carne bovina, suína e de aves. Juntas, a JBS-Friboi, a Marfrig, a Perdigão e a Sadia investiram mais de 6,5 bilhões de reais nos últimos 12 meses para ampliar a presença de suas marcas no mercado internacional. Com esses investimentos, as multinacionais brasileiras buscam não somente ganhar escala e se tornar mais competitivas globalmente mas também driblar as barreiras comerciais e sanitárias impostas pelos Estados Unidos, pelo Japão e por países da União Européia.
Os desafios que essas novas multinacionais enfrentam para consolidar suas operações no exterior, porém, não são pequenos. O caso mais emblemático é o da JBS. Desde que abriu seu capital na Bolsa de Valores de São Paulo, em junho de 2007, o frigorífico investiu cerca de 5 bilhões de reais para adquirir empresas nos Estados Unidos, na Austrália, na Itália e na Argentina. Essas transações transformaram a JBS na maior produtora e exportadora de carne bovina do mundo, com faturamento global de 21,5 bilhões de dólares. Por motivos sanitários, a carne brasileira está atualmente impedida de entrar em um grupo de países que representam 50% das importações mundiais do produto. Como conta agora com plataformas de produção espalhadas pelo mundo, a JBS-Friboi passou a ter acesso a 100% dos mercados consumidores. No total, são 120 unidades de produção e distribuição, com capacidade para abater 79 000 cabeças por dia, o suficiente para suprir 10% do mercado mundial. Em parte graças a essa estratégia, nos primeiros cinco meses de 2008, os papéis da JBS tiveram valorização de 63,82%, número mais de cinco vezes superior ao do Ibovespa. Nada mau para uma empresa que começou suas operações, em 1953, na cidade de Anápolis, em Goiás, como um açougue com capacidade de abate de cinco cabeças de gado por dia. “Hoje temos uma estrutura infinitamente maior e mais complexa”, diz Joesley Batista, presidente do grupo JBS. “Conseguimos chegar a mercados antes dificultados por restrições protecionistas.”
O maior desafio da JBS no momento é melhorar o desempenho da Swift Foods, empresa americana comprada em julho do ano passado por 1,4 bilhão de dólares — a maior parte do dinheiro foi usada para pagar dívidas que chegavam a 1 bilhão de dólares. “Eles tinham problemas na gestão de um negócio no qual nós somos peritos. Sabemos como gerir um frigorífico e fazê-lo dar certo”, afirma Batista. Logo depois de concretizada a compra da Swift, Wesley Batista, irmão de Joesley, foi empossado como presidente do grupo nos Estados Unidos. Sua missão é cortar custos e recuperar a lucratividade da operação americana. Ele pode contar com a ajuda do primogênito da família, José Batista Jr., que também mora nos Estados Unidos e é membro do conselho de administração do grupo. Uma das tarefas da dupla é vencer a resistência da opinião pública. Com a compra de mais dois frigoríficos nos Estados Unidos em março deste ano, a National Beef e a Smithfield Beef, o grupo brasileiro passou a deter um terço do mercado americano de carne bovina. Os produtores locais estão incomodados com a situação, a ponto de a senadora Hillary Clinton, em campanha para ser escolhida como candidata democrata à Presidência dos Estados Unidos, ter atacado publicamente a venda de frigoríficos americanos para o grupo brasileiro. “Sou contra essa venda e, como presidente, aproveitaria os avanços da atual Lei Agrícola para lutar contra a consolidação”, declarou Hillary em maio.
