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Prontas para decolar?

 | 29.05.2008

As empresas brasileiras de TI finalmente têm capital e incentivos para concorrer com as indianas — mas será que ainda dá tempo de ter relevância global?

 

Gabriel Rinaldi

Quadros, da BRQ: crescendo no exterior

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Por Camila Fusco

EXAME 

O namoro entre a Mitsubishi e a Politec, empresa de serviços tecnológicos sediada em Brasília, durou mais de um ano. No final de abril, foi anunciado o casamento: a Politec foi escolhida para receber um dote de 100 milhões de dólares. Em troca, o braço de investimentos do conglomerado japonês vai ficar com 25% do capital da companhia — e dará início a um agressivo processo de internacionalização da Politec. Além de se tornar fornecedora prioritária de serviços tecnológicos para 500 empresas do grupo japonês em 80 países, a Politec também vai abrir uma filial no país natal de seu novo sócio. Para isso, já deu início às contratações de descendentes de japoneses com alguma familiaridade com a língua e os costumes. No Japão, apenas 4% das empresas buscam fornecedores estrangeiros para cuidar de seus parques tecnológicos. Com o respaldo de um grupo tradicional, a Politec tentará desbravar o bilionário e fechado mercado japonês. Além da operação asiática, a empresa planeja ter três escritórios nos Estados Unidos e aumentar sua presença na América Latina: a compra de uma companhia da região deve ser anunciada nas próximas semanas. Com a internacionalização, a Politec deve dobrar seu faturamento, que hoje é de 500 milhões de reais.

Com quase uma década de atraso, a promessa de que o Brasil se transforme em uma base mundial de prestação de serviços de tecnologia parece finalmente estar se aproximando da realidade. Empresas brasileiras receberam investimentos que totalizam cerca de meio bilhão de dólares entre junho do ano passado e maio deste ano. O que tem feito brilhar os olhos dos investidores são as oportunidades de exportação. O mercado mundial de terceirização movimenta anualmente cerca de 70 bilhões de dólares. Embora tenha um vigoroso mercado interno de tecnologia — ou justamente por essa razão —, o Brasil nunca conseguiu se posicionar mundialmente como exportador de serviços. Companhias e bancos globais sempre recorreram a empresas indianas para tarefas tecnológicas rotineiras que podem ser realizadas em qualquer parte do planeta, como a codificação de programas sob encomenda ou a manutenção de sistemas corporativos. Com baixo custo, abundância de engenheiros e uma política oficial que deu prioridade ao setor de serviços tecnológicos, os indianos hoje exportam, em dólares, 100 vezes mais que os brasileiros. Mas as empresas daqui enfim estão reunindo as condições necessárias para entrar no jogo para valer.

O primeiro sinal disso é o interesse dos investidores. A CPM Braxis recebeu 96 milhões de dólares do fundo Gávea Investimentos, a Procwork foi adquirida pelo grupo chileno Sonda por 118 milhões de dólares, e a Promon Tecnologia uniu-se à britânica Logicalis, um negócio de 77 milhões de dólares. O primeiro reflexo desses investimentos deve ser a consolidação do setor. “Hoje, as dez maiores empresas de serviços de TI no Brasil detêm, juntas, um faturamento que não passa de 55% do mercado. Ou seja, a pulverização é marca registrada desse setor no país”, diz Mauro Peres, presidente da consultoria IDC. Ter musculatura é um dos atributos essenciais de quem quer atender empresas como a GE, uma das maiores clientes das companhias indianas. A formação da Virtus, no início de março, foi um exemplo das oportunidades de consolidação. A companhia resultou da união entre sete empresas brasileiras de pequeno e médio porte da área de software e serviços de infra-estrutura, que decidiram se juntar para ter maior poder de fogo. O negócio foi financiado com recursos da Intel Capital, braço de investimentos da gigante dos chips, que apostou na idéia e se tornou uma de suas sócias. Hoje, a Virtus tem 10% de sua receita, de 100 milhões de reais, procedente de exportações, mas, com o fôlego dos investimentos — a empresa pretende realizar uma nova rodada de captação ainda neste ano —, quer ampliar a participação das receitas externas para 25% ao longo dos próximos três anos.

Uma política concertada do governo brasileiro também é considerada decisiva para aumentar a competitividade das empresas nacionais — foi graças a um movimento estratégico que se acelerou no final dos anos 90 que a Índia se projetou internacionalmente. Depois de anos de insistência em Brasília, o setor comemorou o pacote de desoneração de 13,1% dos encargos trabalhistas para as exportadoras incluído na política industrial recém-anunciada. Desde o ano passado, o mercado de tecnologia da informação é uma das prioridades do BNDES. A BRQ Informática recebeu o maior aporte do segmento: 56 milhões de reais. Com parte dos recursos, adquiriu duas empresas que atuam no segmento financeiro: a brasileira Prodacon e a americana ThinkInternational, que trouxe contratos de peso para a BRQ, como a bolsa de valores americana New York Stock Exchange (Nyse) e o banco Société Générale. “A decisão de dar prioridade ao setor de software é o primeiro passo para tornar o Brasil competitivo lá fora”, diz Benjamin Quadros, fundador da BRQ.

Vieram o dinheiro dos investidores e os incentivos oficiais. Mas esses dois empurrões podem não ser suficientes para que o Brasil garanta uma fatia relevante do mercado de exportação por um motivo: o câmbio. Justamente quando as companhias nacionais ganham impulso para crescer no exterior, o real tem registrado valorizações recordes. “O patamar ideal para quem exporta é 1 dólar a 2,20 reais”, diz Antonio Carlos do Rego Gil, presidente da Brasscom, entidade que reúne as empresas do setor de serviços de TI. Gil calcula que 1,5 bilhão de dólares em contratos tenham sido levados para outros países da América Latina, em especial a Argentina. Além da moeda forte, as empresas brasileiras têm uma questão para lá de espinhosa a ser encarada: os passivos trabalhistas.

Antes da recente redução de encargos, muitas empresas vinham, havia vários anos, adotando medidas heterodoxas para reduzir seus custos com folha de pagamentos. Entre as criações está a “CLT flex”, em que uma parcela do salário é registrada na carteira de trabalho, sobre a qual incidem todos os encargos, e o restante é pago como ajuda de custo ou na forma de benefícios. Outra modalidade é a contratação de funcionários como pessoa jurídica. Todas essas estratégias são irregulares. Agora, com a chegada de investidores institucionais e as perspectivas reais de abertura de capital — embora poucos considerem provável um IPO neste ano, por causa da instabilidade causada pela crise das hipotecas nos Estados Unidos —, a questão trabalhista volta a incomodar. “Comprar uma empresa no Brasil é adquirir passivo trabalhista”, diz Fernando Parra, presidente da DTS, uma prestadora de serviços especializada no setor financeiro. A companhia adquiriu nos últimos cinco anos cerca de 15 empresas de pequeno porte no Brasil e afirma que desistiu de algumas outras porque os sócios não queriam se responsabilizar pelos eventuais processos futuros movidos por funcionários contratados irregularmente. Um executivo de um grande fundo de investimento internacional disse a EXAME que muitos dos estrangeiros se assustam ao tomar contato com esse lado do mercado brasileiro. “Em muitos contratos, já existe uma previsão de ressarcimento dos investidores caso o risco trabalhista venha a se materializar”, afirma o executivo.

Corrida de obstáculos
Para ganhar uma fatia representativa do mercado mundial de serviços de TI, as empresas locais ainda precisam superar diversos desafios
Reconhecimento mundial
Embora desperte a atenção, o Brasil ainda não tem tradição em terceirização de tecnologia no modelo offshore
Musculatura financeira
Pequenas e médias companhias são maioria no mercado e têm dificuldade de escala e em conquistar contratos globais
Questões trabalhistas
Os altos encargos trabalhistas e a pouca flexibilidade desafiam as empresas brasileiras num negócio que tem oscilações grandes na força de trabalho
Retenção de talentos
Muitas empresas formam mão-de-obra, mas acabam perdendo profissionais para o mercado, que vive um rali por pessoas qualificadas

Apesar de tardias — e dos obstáculos a superar —, as movimentações no segmento de serviços de TI estão em tempo de colocar o Brasil na rota internacional do offshore. O interesse externo nas empresas locais mostram isso. E indicam também que é possível fazer com que o país deixe, em breve, a condição de apenas “fazenda do mundo” por suas commodities, conforme diz o presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Marcio Pochmann, para chegar mais perto do posto estratégico de “escritório do mundo”, hoje mantido pela Índia.

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