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O Eldorado dos celulares

 | 15.05.2008

No Japão e na Coréia do Sul, usuários fazem a festa de operadoras e fabricantes, usando os aparelhos para ver TV, fazer compras, acessar a internet e até ler romances inteiros

 

Corbis

Metrô em Tóquio: só celulares 3G

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Por Luciene Antunes

EXAME 

Num mundo conectado por 3 bilhões de telefones celulares, nenhum mercado é tão vanguardista quanto o representado pelos japoneses e pelos coreanos. É como se na parte mais rica e desenvolvida da Ásia o futuro já tivesse chegado a fabricantes, operadoras e revendedores. Hoje, os brasileiros começam a descobrir as possibilidades da tecnologia de terceira geração, a chamada 3G. Ao mesmo tempo, Japão e Coréia do Sul transformam-se nos primeiros países do mundo onde todas as tecnologias ancestrais da 3G foram banidas das lojas. Na Coréia do Sul, celulares de segunda geração deixaram de ser vendidos no final do ano passado. Há alguns meses, o Japão seguiu o mesmo caminho. Atualmente, nesses mercados só é possível comprar aparelhos que, conectados à internet de banda larga, funcionam simultaneamente como computador, TV digital e telefone. Nos dois países, a decisão foi a rendição dos negócios à realidade do mercado. Cerca de 90% dos usuários de celulares do Japão e da Coréia do Sul já utilizam a tecnologia 3G, disponível para eles há mais de cinco anos. Nos Estados Unidos e na Europa, essa proporção é de apenas 10%. No Brasil, onde o sistema foi disponibilizado em janeiro, o índice é ainda menor: 5%.

Por qualquer ângulo que se analise, o mercado de celulares no Japão e na Coréia do Sul apresenta números e estatísticas surpreendentes. Cerca de 80% da população desses países possui um aparelho, uma das médias mais altas do mundo. Eles também estão entre os campeões no ranking internacional de usuários que mais gastam com o pagamento de contas de telefone e a compra de aparelhos. A tecnologia provocou nesses países profundas mudanças comportamentais, criando quase uma cultura à parte. Cerca de metade dos acessos à internet é realizada por celulares. Milhões de japoneses e coreanos assistem à TV digital durante suas viagens de metrô, compram latinhas de refrigerante apenas aproximando o aparelho de qualquer máquina de rua, par ticipam de redes virtuais de relacionamento e lêem vorazmente revistas, histórias em quadrinhos e até romances inteiros pela telinha dos aparelhos. No ano passado, entre as dez obras de ficção mais vendidas no Japão, cinco foram originalmente escritas para celulares.

Para satisfazer um público ávido por qualquer tipo de novidade tecnológica, os fabricantes de celulares despejam no mercado uma série de artigos dignos de enredos de filmes futuristas, como Blade Runner e Minority Report. A coreana LG, por exemplo, está se preparando para lançar aparelhos com um sistema que reconhece seus usuários pela leitura da íris. O D4, com previsão de lançamento em junho pela japonesa Willcom, será o menor aparelho com memória suficiente para suportar o sistema operacional Windows Vista, além das demais funções de um celular. Deve custar em torno de 1 250 dólares. Essa nova tecnologia disponível concretizou o sonho das operadoras de telefonia celular -- vender em larga escala, além das chamadas telefônicas, conteúdos e serviços que envolvam transmissão de dados multimídia, aumentando as receitas e os lucros dessas empresas. Hoje, 33% do faturamento das operadoras de celular coreanas e japonesas vem de mensagens de texto e desses serviços inteligentes. No Brasil, a proporção é de apenas 8,5%.

A vanguarda da telefonia
Japão e Coréia estão anos à frente de outros países em relação ao mercado de celulares. Confira alguns indicadores:
No Japão e na Coréia, as lojas deixaram recentemente de vender aparelhos com tecnologia mais antiga. São encontrados agora apenas os de terceira geração
Mais de 90% dos aparelhos dos usuários dos dois países já são de terceira geração de celulares. No Brasil, essa proporção ainda é inferior a 5%
Serviços como acesso à internet correspondem a 33% do faturamento das operadoras de telefonia móvel
Mais da metade dos usuários assiste à TV digital regularmente pelo aparelho celular

Uma das principais explicações para o estágio avançado do mercado de telefonia celular no Japão e na Coréia do Sul é o alto poder aquisitivo e de escolaridade nos dois países. Ambos os governos foram eficazes nas últimas décadas em promover a inclusão digital em massa por meio de investimentos em educação e infra-estrutura de telecomunicações. Atualmente, a velocidade média de transmissão de dados via internet de banda larga na Coréia do Sul é mais de quatro vezes superior à velocidade máxima disponível no Brasil. Os japoneses e os coreanos dispõem de tecnologia e infra-estrutura de telecomunicações para utilizar os celulares hoje como a maioria da humanidade vai usar daqui a pelo menos uma década. Esse é o período estimado para que a base 3G em países emergentes, como os latino-americanos, ganhe escala significativa para elevar os serviços de telefonia móvel ao estágio atual do mercado asiático.

O grande desafio agora para as empresas japonesas e coreanas é a saturação do mercado. Enquanto o número de usuários em áreas como a África cresce a taxas acima de 100% ao ano, no Japão e na Coréia do Sul o cenário é de estagnação. O ritmo febril de troca de aparelhos impede a queda nas vendas do produto, mas não há muito espaço para crescimento nessa área. "Todos estão de olho nesses países, acompanhando o lançamento de serviços inovadores para celulares, principal forma hoje de gerar novas receitas para as empresas do setor", afirma Rogerio Takayanagi, especialista em telecomunicações da consultoria Value Partners.

Como o mercado cresce a um ritmo lento, resta às empresas de celulares a alternativa de engalfinhar-se na disputa pela atual base de usuários. Um dos indicadores do estágio a que chegou essa guerra comercial é a publicidade. Fabricantes como a coreana Samsung e as operadoras figuram no topo da lista dos maiores anunciantes de seus respectivos países. Numa pesquisa nacional feita recentemente com consumidores no Japão, dos cinco melhores comerciais exibidos na TV no ano passado, três pertenciam ao setor de telefonia. Promoções para roubar clientes dos concorrentes são os chamarizes mais comuns da publicidade. No mês passado, por exemplo, a LG Telecom, com uma base de 8 milhões de assinantes, o que a coloca como a menor entre as três operadoras da Coréia do Sul, veiculou uma campanha oferecendo aos clientes tarifa especial para acesso ilimitado à internet por celular -- apenas 6 dólares por mês. A taxa está em vigor desde 3 de abril. Na primeira parcial divulgada pela empresa após a promoção, mais de 100 000 usuários já haviam aderido ao serviço.

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