Foram muitos os réquiens para a indústria fonográfica desde a explosão do formato MP3. No mercado americano, a indústria da música caiu de um pico de vendas de 14 bilhões de dólares em 1999 para uma receita de 9,5 bilhões de dólares no ano passado. Nesse período, os serviços de venda online ganharam espaço -- a loja virtual iTunes, da Apple, tornou-se a maior vendedora de música dos Estados Unidos, com 19% do mercado, passando gigantes como o Wal-Mart. Mas o aumento das vendas digitais não foi suficiente para cobrir as perdas com os CDs encalhados. No Brasil, a renda com discos diminuiu 31% em 2007 em relação a 2006, o que significou 141 milhões de reais a menos para as gravadoras. No mesmo período, a venda de músicas digitais somou apenas 24,5 milhões de reais. A diferença foi sugada pela pirataria e por downloads ilegais. As gravadoras pagam o preço pela demora em abraçar a tecnologia digital. Mas o horizonte não é tão sombrio quanto mostram os números. Novos modelos de negócios surgem quase diariamente no vácuo deixado pela indústria da música.
Alguns deles são um refinamento de idéias antigas, que ainda têm como ponto central as gravadoras. O licenciamento e a distribuição de músicas em videogames é uma alternativa cada vez mais importante às vendas tradicionais. O Grand Theft Auto IV, jogo lançado em fins de abril pela Rockstar, com a previsão de vender mais de 6 milhões de unidades só na semana de lançamento, oferece um cardápio de mais de 200 músicas aos jogadores. Outros modelos de negócios para a indústria musical são ainda mais arrojados. Um deles é o criado pela empresa holandesa Sellaband. Novas bandas expõem seu trabalho na internet. Os fãs que gostarem podem fazer um "investimento" no grupo. Se a banda receber o voto de confiança de 5 000 pessoas, a Sellaband se compromete a custear e a distribuir um álbum completo. Nas páginas seguintes, você encontra alguns dos modelos de negócios vistos como mais promissores para o futuro da música -- afinal, o show tem que continuar.
A era das redes sociais
Com mais de 500 milhões de usuários no mundo, as redes sociais, como Orkut, Facebook e MySpace, são vistas como uma aposta essencial para a indústria da música. No início de abril, o MySpace anunciou uma parceria com três das quatro grandes gravadoras. Junto com Universal, Sony BMG e Warner, foi criada a empresa MySpace Music, que oferecerá todo o acervo das três gravadoras para ser acessado na rede social. A idéia é aproveitar os relacionamentos já estabelecidos nessas redes como forma de marketing: uma pessoa vai poder apresentar uma música a um amigo, que poderá comprá-la diretamente no site. O mesmo poderá ser feito pelas próprias bandas, que também venderão ingressos e camisetas. Segundo Emerson Calegaretti, diretor-geral do MySpace Brasil, a plataforma deve entrar no ar no país em seis meses. Uma aposta semelhante é a do Last.fm, serviço que permite a amigos comparar os gostos musicais e descobrir novos artistas. Comprado pela CBS há um ano por 280 milhões de dólares, o Last.fm registra todas as músicas tocadas por seus usuários e, a partir dessa lista, oferece a eles e a seus amigos recomendações de artistas semelhantes. O acesso ilimitado às trilhas é bancado por anúncios.
Adeus às gravadoras
Aindústria fonográfica ganha dinheiro vendendo as gravações. Para os artistas, porém, o lucro está nas apresentações ao vivo. As turnês chegam a representar 80% do faturamento de um cantor. Em outubro, Madonna abandonou a Warner Music e assinou um contrato com a empresa de shows americana Live Nation. Estimado no valor de 120 milhões de dólares para um período de dez anos, o acordo dá à empresa os direitos sobre a distribuição das gravações, a venda de ingressos para shows, a comercialização de produtos e o merchandising da cantora. A banda irlandesa U2 e o rapper americano Jay-Z assinaram acordos semelhantes com a produtora americana. O movimento dessas celebridades deve provocar mudanças no modo de atuação das gravadoras, que mudou muito pouco nas últimas décadas. "Elas precisam procurar novos caminhos, incluindo a participação nos direitos de exploração da imagem do artista e dos shows", diz Rick Bonadio, gerente-geral do selo Arsenal, da Universal Music, cujo catálogo inclui os grupos CPM 22 e NX Zero. "É necessário ter algum retorno sobre o que foi investido nos artistas para apostar em outros", diz Bonadio, que desde a criação do selo, em 2001, inclui nos contratos diversos direitos além das vendas das músicas.
Música no videogame
Em junho, sai uma reedição especial de Doolittle, da banda americana Pixies, um disco clássico da história do rock que foi ouvido pela primeira vez há 19 anos. Com um detalhe: o disco vai ser um jogo. Trata-se de um pacote de músicas para o game Rock Band, que conta com controles em forma de guitarra, bateria e microfone para os jogadores simularem a experiência de fazer parte de uma banda. Junto com o pioneiro Guitar Hero, que arrecadou mais de 1 bilhão de dólares em dois anos, o Rock Band é um dos canais de distribuição de trilhas mais promissores para a indústria da música. Além de gravações adaptadas para a interatividade dos instrumentos de plástico, existe o licenciamento de faixas para games tradicionais. O Grand Theft Auto IV, game desenvolvido pela Rockstar, já é considerado o lançamento do ano. O jogo saiu no final de abril com a previsão de vender 6 milhões de cópias na primeira semana -- alguns analistas acreditam que mais de 13 milhões de unidades serão movimentadas até o fim do ano. A trilha do jogo tem mais de 200 músicas, que podem ser compradas na íntegra na loja de downloads da Amazon.
Lançamento independente
Enquanto gravadoras gastavam energia em processos contra usuários de internet para proibir os downloads ilegais, muitos artistas preferiram se aliar aos fãs. A banda de rock Radiohead causou furor na indústria fonográfica no ano passado ao lançar um disco inteiro pela rede, deixando a cargo dos fãs a escolha do preço a ser pago. Na mesma linha de independência, o grupo americano Nine Inch Nails anunciou em março um novo modelo de negócios. A banda, liderada por Trent Reznor, liberou o download gratuito de nove faixas da coletânea Ghosts I-IV em sites de troca de arquivos. A coletânea oficial, com 36 músicas, saiu em diversos formatos (CD, vinil e digital). Tudo foi produzido e vendido pela própria banda. O disco foi baixado quase 800 000 vezes entre downloads pagos e gratuitos somente na primeira semana -- o que rendeu ao Nine Inch Nails 1,6 milhão de dólares em apenas sete dias. A internet também gerou gravadoras virtuais, como é o caso do Sellaband.com. O site holandês permite que bandas divulguem suas composições online. Os fãs que gostarem das músicas podem apostar 10 dólares no artista preferido. Caso haja 5 000 pagantes, o Sellaband se compromete a gravar e lançar um disco -- e o fã investidor recebe uma edição especial do álbum.
Pelo telefone
A cantora de axé Claudia Leitte vai lançar nas próximas semanas duas músicas exclusivas num aparelho celular da Sony Ericsson, antes mesmo de fazer o lançamento do disco oficial. Ela almeja sucesso semelhante ao de sua rival Ivete Sangalo, cujo álbum Berimbau Metalizado fez mais sucesso nos telefones móveis do que nas lojas de CDs. Explica-se: acordos entre gravadoras, fabricantes e operadoras de celulares garantem que as músicas sejam embutidas nos aparelhos. Esse modelo de distribuição, aliado à pequena oferta e aos altos preços encontrados nas lojas de MP3, explica por que a venda de músicas pelo celular detém 76% do mercado de downloads no Brasil, segundo a Associação Brasileira dos Produtores de Discos. Para as gravadoras, o saldo é positivo: o valor recebido pelas faixas, em geral, é o mesmo de um disco. Mas é claro que os números desse tipo de venda escondem um detalhe importante: quem compra o celular não necessariamente é fã da música que vem de presente. Para gravadoras e empresas de telefonia, porém, não há problema. Os consumidores de aparelhos com música embutida tendem a usar mais o serviço de download. A Vivo afirma vender 300 000 faixas por mês.
Imposto sobre o troca-troca
Estima-se que, para cada download de música feito de forma legal, outros 20 são feitos ilegalmente. Diante da impossibilidade de deter o troca-troca de arquivos, a indústria fonográfica estuda a possibilidade de cobrar taxas para cobrir a perda de receita. À frente de uma das iniciativas está a Warner Music, que contratou o veterano da indústria musical Jim Griffin para elaborar um projeto de distribuição de royalties para os detentores de direitos autorais. O dinheiro sairia de uma taxa cobrada dos usuários de provedores de acesso à internet. Cada pessoa pagaria algo como 10 reais por mês para compensar os downloads ilegais. Em outra frente, na Inglaterra, o Music Business Group, organização que reúne vários representantes da indústria de música inglesa, apresentou um relatório em que exige uma compensação para os artistas pelos CDs que são copiados para aparelhos de MP3. Se a idéia for adiante, ela pode significar a imposição de um "imposto do iPod".

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