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Novos ventos para o Texas

 | 01.05.2008

A terra dos caubóis, do petróleo e dos republicanos agora é também a maior potência de produção de energia eólica dos Estados Unidos

 

Greg Smith/Corbis

Usina texana: o mercado cresceu 60% em 2007

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Por Tatiana Gianini

EXAME 

A figura do empresário Boone Pickens se parece com uma daquelas que inspiraram o personagem de James Dean em Assim Caminha a Humanidade, clássico que narra a ascensão de um peão à posição de magnata do petróleo do Texas. Em meados dos anos 50, Pickens montou, com 2 500 dólares emprestados, uma pequena empresa de exploração. A companhia, batizada de Mesa Petroleum, transformou-se numa das potências do setor nos Estados Unidos nas décadas seguintes. O fundador abandonou o comando dos negócios em 1996, mas resolveu recentemente deixar a aposentadoria para iniciar outro empreendimento. Aos 79 anos de idade e dono de um patrimônio pessoal estimado em 3 bilhões de dólares, Pickens está investindo 11 bilhões de dólares na construção da maior fazenda eólica do mundo, com capacidade total de geração de energia de 4 000 megawatts, mais do que toda a produção conjunta de Portugal e Holanda nesse tipo de energia. Há cerca de um mês a idéia começou a sair do papel, com a encomenda de um lote de 500 turbinas, ao custo unitário de 2 milhões de dólares. O projeto, com previsão de término para 2011, deverá ocupar uma área de 800 quilômetros quadrados no noroeste do Texas. "Sobre o potencial do vento, tenho hoje o mesmo sentimento que eu possuía em relação ao melhor campo de petróleo que já encontrei", disse Pickens em entrevista recente ao jornal The New York Times. "Gosto do vento porque ele é renovável, limpo e não me obriga a lidar com os declínios de produção comuns nos campos de petróleo."

A saga de Pickens -- de magnata do ouro negro a empreendedor da energia limpa -- é um retrato da transformação que vem ocorrendo no Texas. Terra dos caubóis, do petróleo e dos republicanos (não por acaso, é o berço político da família Bush), o estado implantou na década de 90 uma política de diversificação de sua economia a fim de diminuir a dependência da receita gerada pela exploração do petróleo. (O Texas sempre viveu ciclos de euforia e depressão ao sabor das oscilações das cotações internacionais do produto.) O surgimento de uma poderosa indústria de energia limpa é a faceta mais surpreendente dessa série de mudanças. Hoje, o Texas é o maior produtor de energia eólica dos Estados Unidos, superando a Califórnia, um dos mais tradicionais pólos de investimento nesse setor (veja quadro). Em 2007, o estado sulista atingiu 4 466 megawatts de capacidade instalada, um aumento de mais de 60% em relação ao ano anterior. Com isso, o Texas responde hoje por quase um terço de toda a energia eólica gerada pelos americanos.

Dos cinco maiores projetos do gênero em operação nos Estados Unidos, quatro estão localizados no Texas. O maior deles é o Horse Hollow Wind Energy Center, da empresa americana Florida Power & Light Energy. Concluído em 2006 e situado em uma área de 242 quilômetros quadrados que engloba três fazendas na região de Abilene, no centro do estado, o Horse Hollow tem 421 turbinas capazes de gerar 736 megawatts, energia suficiente para abastecer 220 000 residências por ano. A Florida Power é a maior operadora de fazendas de energia eólica dos Estados Unidos. Só no Texas são 13 unidades, de um total de 55 que a empresa possui espalhadas por 16 estados. Gigantes como a americana General Electric, a inglesa British Petroleum e a anglo-holandesa Shell também possuem parques eólicos no Texas. A GE, por exemplo, tem participação em dez fazendas dedicadas à produção desse tipo de energia. "O estado possui um ambiente extremamente favorável para as empresas do setor. Por isso, pretendemos ampliar nossos negócios por lá", disse a EXAME o executivo Steve Taub, vice-presidente de marketing da GE Energy Financial Services, unidade da companhia dedicada a investimentos em energias renováveis.

O novo estado verde
Nos últimos anos, o Texas mais que dobrou a capacidade de geração de seu parque eólico. Com isso, tornou-se o líder dessa fonte de energia limpa nos Estados Unidos. O quadro mostra a evolução dos quatro maiores produtores do país, em megawatts (MW)
  2005 2007
Texas 1995 4446
Califórnia 2150 2439
Minnesota 744 1299
Iowa 836 1271
Fonte: American Wind Energy Association

AS ENORMES TURBINAS DE VENTO mudaram também o cenário econômico das cidades texanas, trazendo mais empregos e dinheiro. Um exemplo dessa transformação é o município de Sweetwater, 400 quilômetros a oeste de Dallas. Até pouco tempo atrás, o vilarejo de pouco mais de 11 400 habitantes corria o risco de virar uma cidade fantasma. Era comum os moradores partirem de lá em busca de oportunidades de trabalho. Nos últimos anos, porém, Sweetwater foi beneficiada pelo boom da energia eólica no Texas, transformando-se na sede de uma série de empreendimentos do ramo. Atualmente, a maior parte de seus edifícios comerciais está alugada para empresas do setor e faltam imóveis residenciais. A taxa local de desemprego caiu pela metade de 2003 para cá, encontrando-se hoje perto de 3,4%. Ainda há um enorme potencial de oportunidades de emprego para técnicos de turbina eólica, cujo salário varia entre 35 000 e 65 000 dólares anuais. Para capacitar as pessoas a disputar esses postos, um dos melhores colégios técnicos da região, o Texas State Technical College West Texas, criou recentemente um curso específico de formação de profissionais para a área.

As privilegiadas condições naturais encontradas no estado estão entre os fatores que ajudaram o crescimento do negócio de energia limpa. Boa parte da região recebe ventos constantes e a uma média de velocidade alta, o que diminui o custo de instalação e facilita o funcionamento das fazendas eólicas. Além disso, o governo texano, seguindo o exemplo dos políticos da Califórnia, criou uma legislação específica para promover o uso de fontes renováveis. Em 1999, foi aprovada a lei que estabelecia obter 2 880 megawatts -- o equivalente a menos de 5% da demanda dos texanos -- de energias renováveis até 2009. Como a meta foi atingida bem antes do prazo, estabeleceu-se um novo patamar: 5 880 megawatts em 2015. "O Texas é o líder do país graças a seu compromisso de impulsionar as fontes de energia renováveis", disse recentemente o governador do estado, o republicano Rick Perry.

O maior beneficiado dessa política sustentável foi o mercado eólico, mas nem só dele vive o Texas "verde". Para diversificar ainda mais sua matriz energética, o estado tem investido em energia solar e biodiesel, entre outras fontes. Existem por lá nove fábricas de biodiesel, com uma capacidade de produção de mais de 550 milhões de litros por ano. O polêmico etanol de milho também ganha cada vez mais destaque na região. Em janeiro, o primeiro projeto para a produção em larga escala de etanol no estado foi inaugurado na cidade de Hereford, pela empresa White Energy, de Dallas, com capacidade para produzir 378 milhões de litros do combustível por ano. Outras três usinas de grande porte estão sendo construídas na região.

O envolvimento do estado do Texas com a energia limpa representa uma tendência que deve se repetir numa escala semelhante em todo o país. "Tanto o governo quanto a população querem cada vez mais o uso de fontes renováveis", diz Taub, da GE Energy Financial Services. Em 2007, 34 estados americanos produziram energia com o vento. Essa fonte ainda tem participação pequena no bolo energético americano. Neste ano, as fazendas eólicas vão gerar pouco mais de 1% do fornecimento de eletricidade do país, o suficiente para abastecer 4,5 milhões de residências por ano. Mas nenhum outro país do mundo cresce ao ritmo dos Estados Unidos. Os americanos têm uma capacidade de produção de energia eólica de 16 800 megawatts e hoje só ficam atrás da Alemanha. De acordo com projeções do Global Wind Energy Council, se mantiverem o ritmo atual, os Estados Unidos devem assumir a liderança do ranking já no próximo ano.

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