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O inventor do capital de risco

 | 01.05.2008

Livro mostra como o imigrante francês Georges Doriot criou a modalidade de investimento que seria o motor da inovação e do empreendedorismo nos Estados Unidos

 

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Por Camila Fusco

EXAME 

É impossível hoje dissociar o conceito de capital de risco da manifestação máxima de seu poder transformador: o Vale do Silício, na costa oeste dos Estados Unidos. A região floresceu nas últimas três décadas graças aos aportes milionários de investidores que acreditaram na proposta de empresas como Apple, Intel e Google quando elas mal passavam de idéias promissoras de jovens recém-saídos da universidade. A gênese do capital de risco, porém, está do outro lado do país, nos arredores de Boston e Nova York. E, diferentemente do que muitos poderiam supor, o mestre que lapidou seus princípios e os disseminou mundo afora não foi um americano. O pioneirismo coube ao francês Georges Doriot. A trajetória do imigrante que chegou à América no início do século 20 e se tornou um acadêmico e empresário bem-sucedido é narrada no livro Creative Capital ("Capital criativo", em tradução livre), recém-lançado nos Estados Unidos e sem previsão de publicação no Brasil. A obra, escrita pelo editor da revista Business Week Spencer E. Ante, relata não apenas a história de vida de Doriot mas também o contexto político e econômico que contribuiu para o surgimento de investidores de risco no mundo.

Segundo o autor, a monarquia espanhola e os investidores italianos que financia ram a viagem transatlântica de Cristóvão Colombo foram uma espécie de precursores dessa modalidade de investimento. Mas foi apenas na segunda metade do século 20 que a atividade se profissionalizou e ganhou escala industrial. O passo mais importante nesse movimento foi dado por Doriot. "Ele foi o primeiro a acreditar que existia futuro em financiar empresários iniciantes com idéias inovadoras", escreve Ante.

Creative Capital
Editora
Harvard Business Press, 299 págs.

Autor
O jornalista americano Spencer E. Ante

"Mais do que qualquer outro,Doriot (...) conduziu a transição para uma economia baseada na inovação e no empreendedorismo. Por isso, deveria ser referenciado, como J.P. Morgan,John Rockefeller e Andrew Carnegie"

A HISTORIA DE DORIOT COMEÇA COM O roteiro tradicional do imigrante que chega à América sem dinheiro. Ele partiu da França para os Estados Unidos aos 21 anos, após a falência da empresa de seu pai, Auguste. Bacharel em ciências, Doriot graduou-se junto com outros 17 alunos numa versão rudimentar do atual curso de MBA da Harvard Business School e, posteriormente, se tornou um de seus professores mais influentes. A carreira acadêmica deslanchou após uma breve passagem pelo mercado financeiro -- como diretor de um dos bancos de investimento da época, o Kuhn & Loeb. Em 1939, ganhou notoriedade ao se tornar o primeiro professor de Harvard a pedir que os alunos realizas sem trabalhos sobre casos de empresas sem se basear apenas em livros acadêmicos -- até hoje um dos principais métodos de ensino em escolas de negócios. Durante a Segunda Guerra, Doriot foi recrutado pelas Forças Armadas e ajudou a estabelecer estratégias de suprimento para a frente de batalha. Com o fim da guerra, ele voltou a se dedicar a Harvard e iniciou um plano antigo que nutria com outros colegas, como Karl Compton, presidente do MIT (o instituto tecnológico de Massachusetts) -- a criação de uma companhia para investir em negócios em estágio embrionário. O resultado foi o surgimento da American Research and Development (ARD), em 1946, a primeira empresa pública de capital de risco do mundo. Após uma oferta pública que levantou 3,5 milhões de dólares, a ARD deu origem a um setor que hoje movimenta 40 bilhões de dólares todos os anos. Ao ingressar na presidência da ARD, Doriot assumiu de vez a tarefa de criar uma base de impulso para novos negócios.

Com um modelo inovador e até então desconhecido, a empresa foi duramente criticada por economistas e analistas da época, que não lhe davam mais do que cinco anos de vida. A desconfiança ocorria sobretudo porque a economia americana vivia um momento de aversão aos riscos, resquício da Grande Depressão e das duas guerras mundiais. (Na abertura de capital, a ARD captou 1,5 milhão de dólares a menos que o previsto.) Mas, para Doriot, aquele era justamente o momento de acreditar na inovação, principal agente de transformação da economia dali para a frente. A ARD não só deu certo como foi a inspiração definitiva para o capital de risco. "Doriot acreditava em construir empresas para o longo prazo, e não em agitá-las para a geração de um lucro rápido", diz Ante. A ARD começou a dar lucro após o quinto ano de operação, e alguns dos investimentos iniciais não deram certo. Mas, no saldo geral, a empresa investiu em mais de 120 start-ups e gerou negócios importantes, como a Cordis Corporation, de instrumentos médicos e adquirida em 1996 pela Johnson&Johnson, por 1,8 bilhão de dólares, e a Ionics, de equipamentos para dessalinização de água, arrematada pela GE em 2004, por mais de 1 bilhão de dólares.

O legado de Georges Doriot foi além do capital de risco. Antes da metade do século 20, ele já falava em globalização dos negócios e naquilo que batizou de mente internacional. Essa percepção acabou dando origem a várias iniciativas, como os fundos europeu e canadense de capital de risco, o European Enterprise Development Company (EEC) e o Canadian Enterprise Development Corporation (CED). A contribuição mais expressiva de Doriot na esfera global, porém, foi a criação, em 1959, da primeira escola de negócios européia, a Insead, com sede em Paris. Doriot levantou pouco mais de 100 000 dólares em doações para sua fundação, além de estruturar a organização dos cursos durante suas férias como professor de Harvard.

O avanço do capital de risco na segunda metade do século 20 fez com que Doriot e a ARD ganhassem notoriedade nos Estados Unidos e servissem de exemplo a outros fundos em todo o país. No fim dos anos 60, após quatro décadas como professor, ele se aposentou em Harvard e passou a se dedicar apenas à ARD. Naquela década, o epicentro do empreendedorismo americano começou a migrar para a Califórnia -- e Doriot subestimou a proporção da mudança. Em 1967, a empresa enfrentava sérios problemas com o Fisco e com a Securities and Exchange Commission. Em janeiro de 1972, a ARD foi vendida ao conglomerado de tecnologia Textron, por mais de 400 milhões de dólares -- mas Doriot permaneceu como presidente executivo. Quatro anos depois, aos 77 anos, Doriot deixou definitivamente o mundo do capital de risco. Em 1987, morreu de câncer de pulmão, em sua casa em Boston.

Nome

Comentário
 
Benjamin Steinbruch, da CSN
 

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