Um fato intrigou durante anos os observadores do agronegócio brasileiro. Sobre terras campeãs na produção e na exportação de grãos e carnes, espalha-se o segundo maior rebanho leiteiro do mundo -- só é menor que o da Índia, onde as vacas são sagradas. Mas, volta e meia, o negócio do leite azedava e o setor não conseguia se organizar e atingir os padrões de excelência de outros ramos do agronegócio. Até há pouco tempo, a produção de leite mal dava para suprir a demanda brasileira -- por anos o país foi importador do produto e a qualidade da produção nacional convivia com escândalos de adulteração. Esse quadro finalmente está mudando. Com uma onda de negócios entre empresas e de novos investimentos, o setor de leite deve ser a próxima fronteira do agronegócio brasileiro a conquistar relevância global. "Podemos nos tornar o maior produtor e o maior exportador de leite do mundo", afirma Marcus Elias, presidente da Laep, fundo de investimento que controla a Parmalat e marcas como Poços de Caldas e Glória.
Em 2002, a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação indicava que o Brasil tendia a ser deficitário no comércio mundial de leite. Naquele momento, devido a preços que chegaram a ficar abaixo do custo de produção, fazendeiros mais avançados se viram obrigados a liquidar rebanhos de alta qualidade genética. Pequenos produtores sucumbiam: estimava-se que 600 000 haviam abandonado a atividade desde o início dos anos 90. Mas em 2004 a balança comercial do leite saiu do déficit para um modesto superávit, e hoje já se imagina para o produto destino como o da carne, do suco de laranja, do café, do açúcar e do frango -- dos quais o Brasil se tornou o maior exportador mundial. Em 2007, a produção brasileira de leite foi de 26,4 bilhões de litros, a sétima maior do mundo. A Nova Zelândia, com produção de 14 bilhões de litros, é a maior exportadora, vendendo para fora 85% do que produz. A exportação brasileira ainda é pouco expressiva: rendeu 300 milhões de dólares no ano passado.
| A chance de entrar no mapa | |
| O Brasil está entre os países de mais baixa produtividade(1) no leite. Agora há condições favoráveis para o país avançar no setor | |
| Estados Unidos | 24 |
| Canadá | 21 |
| Holanda | 20 |
| Austrália | 14 |
| Argentina | 11 |
| Nova Zelância | 10 |
| China | 8 |
| México | 4 |
| Índia | 2,7 |
| Brasil | 3,3 |
| Chile | 3,7 |
| (1) Produção diária por vaca em litros | |
ELIAS, DA LAEP, É UM DOS protagonistas da mudança no setor. À frente de sua gestora de recursos, voltada para a compra e a reestruturação de empresas combalidas, decidiu entrar no ramo em 2003, quando a matriz italiana da Parmalat balançava sob escândalos contábeis. Em 2006, comprou a Parmalat do Brasil e, desde então, incorporou outros três laticínios, uma empresa de genética e quatro fazendas. Um bom indicador de que a aposta de Elias pode ser acertada é que o setor está atraindo cada vez mais dinheiro. Estima-se que, desde o ano passado, 2,5 bilhões de reais foram investidos na compra de laticínios. Na disputa por eles estão fundos de private equity, grandes empresas de alimentos e, correndo por fora, laticínios de médio porte e cooperativas que procuram ganhar musculatura para não ser engolidos. Para processadoras de carnes como Perdigão e Bertin, que já entraram no ramo, e Friboi, que procura oportunidades, o leite é uma alternativa para diversificar e crescer com aproveitamento de sinergias na distribuição. Para fundos como o GP, que comprou a goiana Leitbom há um mês, trata-se de uma oportunidade para valorizar a empresa e vendê-la com lucro daqui a algum tempo. "A visão deles é que estão pagando barato, porque o negócio vai valer muito dinheiro mais à frente", diz Renato Prado, analista de alimentos da Fator Corretora. Não foi por acaso, portanto, que os donos do laticínio mineiro Montelac há alguns dias decidiram voltar atrás num negócio com a Laep. Ficaram sujeitos a processo judicial e pagamento de multa, mas teriam percebido que poderiam obter um preço melhor do que o acertado com a controladora da Parmalat. A valorização dos negócios está diretamente relacionada com a perspectiva de consolidação do setor, um dos mais pulverizados do agronegócio brasileiro. Há hoje no país cerca de 380 laticínios e 1 milhão de produtores de leite.
| As exportações brasileiras de leite são inexpressivas, porém esse quadro pode mudar porque... | |
| (participação dos maiores exportadores) | |
| Nova Zelândia | 38% |
| União Européia | 26% |
| Austrália | 13% |
| Estados Unidos | 8% |
| Outros | 15% |
| Fontes: Mapa, FAO e Fapri | |
O motor da movimentação é o aumento da prosperidade no Brasil e no mundo. O consumo de leite per capita brasileiro subiu da média de 121 quilos em 2001 para 140 no ano passado. Há potencial para crescer mais -- na Argentina o consumo é de 240 quilos per capita e nos Estados Unidos, 260. Mas, como de praxe, as estatísticas que vêm da China são as que mais impressionam. Em 1990, cada chinês consumia 5 quilos de leite por ano. Hoje, a média está em 22. Contas como essas indicam que em breve faltará leite, mesmo com crescimento da produção. Isso, segundo analistas, deve sustentar os preços num patamar bem maior que a média histórica. É a chance que faltava ao Brasil.
"O país está entre as pouquíssimas opções do mundo para atender ao crescimento da demanda", diz Roberto Jank, vice-presidente da Leite Brasil, associação que representa os produtores de leite. Os maiores exportadores -- Nova Zelândia, União Européia, Austrália e Estados Unidos -- não terão como dar conta do aumento do consumo devido a limitações de espaço físico e de custos de produção, além de estarem próximos do limite da produtividade. No Brasil é diferente. Aqui há espaço de sobra e custos baixos, e a produtividade é tão ruim que pequenos ganhos causam impactos oceânicos. Foi o que aconteceu nos últimos dez anos, quando a produção nacional aumentou em 10 bilhões de litros -- volume superior à produção da Argentina -- quase com o mesmo rebanho. "O ganho de produtividade foi em cima de uma base baixa, ainda há muito espaço para crescer", diz o professor Sebastião Teixeira, da Universidade Federal de Viçosa. Basta ver a diferença entre a produtividade brasileira, de 3,3 litros diários por vaca, e a dos países que lideram o setor: a média da Nova Zelândia é 10 litros por dia, e a dos Estados Unidos, 24.
| Novas misturas | ||
| Aquisições e investimentos começam a mudar a face do setor de leite | ||
| Negócios | Estratégia | |
| Laep/Parmalat | Comprou da Danone a marca Poços de Caldas e obteve licença para usar a Paulista | Investe 500 milhões de reais em aquisições, expansão industrial e integração da cadeia produtiva |
| GP Investimentos | Entrou no setor em abril, com a compra do laticínio goiano Morrinhos (Leitbom) | A expectativa é que o GP utilize suas práticas de gestão, o que deve ajudar a modernizar o setor |
| Perdigão | Comprou a Batavo, a Eleva e, há alguns dias, a Cotochés, por 69 milhões de reais | A entrada no setor de leite tornou a Perdigão a maior empresa de alimentos do Brasil |
| Bertin | Adquiriu o controle do grupo Vigor (marcas Vigor, Leco, Danúbio e Faixa Azul) | Segue lógica similar à da Perdigão, para atuar como uma empresa de alimentação mais completa |
AS BARREIRAS A SUPERAR para melhorar o perfil do setor são muitas. Um número enorme de pequenos produtores atua praticamente para subsistência. Nesse meio, assim como ocorre na pecuária de corte, também é precária a situação sanitária -- 30% da produção nem sequer é inspecionada pelo governo. Mas, como sempre, existem dois Brasis. No interior de estados como Rio Grande do Sul e Minas Gerais, muitos produtores têm gado de qualidade, cuidados higiênicos e tecnologia. Chegam a alcançar produtividade comparável até à americana. Está em curso, também, um no tável aumento de escala de produção nas propriedades, o que é fundamental para a viabilidade econômica do negócio. A soma desses fatores à conjuntura favorável torna o leite uma atividade atraente. Hoje, a taxa de remuneração do capital para produtores médios está em 14% ao ano, excluindo-se da conta o valor da terra. É um retorno maior que o do gado de corte, avalia o professor Teixeira.
A chegada de novos investidores tende a acelerar a modernização no campo. O projeto mais vistoso é o da Integralat, empresa constituída pela Laep para aumentar a produtividade e a qualidade do leite. A idéia é inspirada nos sistemas de integração desenvolvidos pela Sadia e pela Perdigão com donos de granjas. Nesse modelo, as empresas fornecem tecnologia genética, insumos e assistência técnica e garantem a compra da produção. Os pequenos proprietários cuidam da criação das aves. A Integralat comprou uma empresa de fertilização e fazendas no Uruguai, no Rio Grande do Sul e em Minas Gerais com animais de qualidade. Eles formam uma base genética que está sendo multiplicada por "barrigas de aluguel": 50 000 vacas foram fertilizadas para gerar o gado que será fornecido a produtores integrados. A Integralat garante a compra do leite, mas não de forma paternalista. "Traçamos metas e valorizamos a meritocracia", diz Marcus Elias. "Estamos levando visão empresarial para o campo."
A realização do potencial brasileiro não é automática, depende de avanços em todas as frentes -- do manejo do gado à certificação do produto. A Nova Zelândia é constantemente tomada como referência no setor. Os produtores neozelandeses adotaram um alto padrão de qualidade como regra e uniram esforços, consolidando as vendas em uma grande cooperativa. Dominam quase 40% das exportações mundiais. Quando os produtores brasileiros irão incomodar os neozelandeses? A previsão é que o Brasil dispute a liderança mundial num prazo de cinco a dez anos. Há investimentos já apontados para o mercado externo. Um deles é a fábrica da Nestlé que está sendo erguida em Palmeira das Missões, no Rio Grande do Sul, para processar 1 milhão de litros de leite por dia e abastecer outras unidades do grupo na América Latina. "Enquanto outros países estão no limite, o Brasil reúne condições para ser o grande fornecedor mundial de leite", diz Ivan Zurita, presidente da Nestlé. "Estamos condenados a ter sucesso." Seu vaticínio parece começar a se concretizar.