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A história se repete?

 | 01.05.2008

Assim como ocorreu nos anos 70, a disparada dos preços do petróleo e dos alimentos volta a impulsionar a inflação mundial. A boa notícia é que os países estão hoje mais preparados para enfrentar o problema

 

Reuters/Supri Supri

Indonésia: onda de protestos contra alta de preços da comida

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Por Angela Pimenta

EXAME 

O mundo já viu esse filme. Nos anos 70, depois de duas décadas de crescimento com baixos níveis de inflação nos Estados Unidos, na Europa e em boa parte do então chamado Terceiro Mundo, o preço do petróleo e dos alimentos disparou. Em novembro de 1973, quando o consumo mundial de petróleo crescia cerca de 5% ao ano, os países árabes cortaram 25% de sua produção a fim de forçar uma escalada de preços -- e para se vingar dos americanos e dos europeus por seu apoio a Israel. O resultado da manobra, que entrou para a história como o "grande choque do petróleo", foi avassalador: um ano depois, o preço do barril havia quadruplicado, enquanto filas quilométricas se formavam nos postos de gasolina americanos. Na época, no auge da Guerra Fria, a União Soviética enviou agentes aos Estados Unidos, ao Canadá e à Austrália para comprar milhões de to neladas de trigo e milho. Em alguma medida, o plano soviético pressionou o preço dos cereais nesses países, que já enfrentavam a escassez de alimentos. Além disso, na África, a combinação de secas com governos corruptos encareceu ainda mais a comida, matando dezenas de milhares de pessoas na Somália e na Etiópia. São cenas que pareciam fazer parte apenas dos livros de história -- até agora. Nos últimos meses, diferentes países têm assistido a uma firme escalada da inflação. Na Venezuela, os índices de preços atingem alta anual de 25%, enquanto na China e na Argentina ela beira 10%. A inflação americana chegou a 4% ao ano, ante uma média de 2,8% nos sete anos anteriores -- e as apostas são de novas altas. Três décadas depois, a carestia do petróleo e dos alimentos volta a assombrar o planeta.

Em janeiro, uma multidão enfurecida tomou as ruas da Cidade do México para protestar contra o preço de um alimento básico, a tortilla, que subiu 400% no último ano no país. Panelaços semelhantes vêm pipocando por todo o mundo -- da Indonésia ao Haiti, do Paquistão à África do Sul. Na Argentina, diante de baixos estoques de trigo, o governo proibiu a exportação do produto. Até no Brasil, país conhecido como um dos principais celeiros do mundo, o ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, ameaçou seguir o exemplo argentino para tentar conter a escalada do preço do arroz. Segundo a Organização das Nações Unidas, nos últimos três anos o preço dos principais alimentos subiu 83% globalmente. Só no último ano, a cotação do petróleo, que influencia toda a economia mundial, quase dobrou. "Chegamos a um ponto em que temos de voltar a nos preocupar com a inflação", disse recentemente Paul Volcker, o prestigiado ex-presidente do banco central americano, o Federal Reserve, durante uma palestra em Nova York. Foi sob a mão-de-ferro de Volcker, e com Ronald Reagan na Presidência, que no começo dos anos 80, depois de uma década da chamada estagflação -- marcada por altas taxas de inflação e crescimento medíocre --, os Estados Unidos se recuperaram. Ortodoxa, a política monetária de Volcker elevou drasticamente os juros americanos para 21,5% ao ano, induzindo uma recessão que viria a diminuir o consumo e a aumentar o desemprego. O remédio amargo funcionou: a inflação, que atingira 13,5% em 1981, caiu para 3,2% em 1983.

Uma dor de cabeça mundial
Em diferentes graus, a atual onda de inflação afeta economias de todas as regiões(1)
Europa/Zona do euro 3,3%
Estados Unidos 4%
Brasil 4,6%
Indonésia 6,6%
Chile 8,1%
Argentina 8,4%
China 8,7%
Venezuela 25,2%
(1) Variação de preços ao consumidor acumulada em 12 me ses até fevereiro de 2 008
Fontes: Ministério da Fazenda e FMI

Talvez ainda mais importante do que o resultado em si tenha sido a lição que ficou para os bancos centrais. A primeira: sem independência, seja legal, seja operacional, não há como conduzir uma política monetária adequada. É por isso que, hoje, todos os bancos centrais sérios trabalham com autonomia. Há também uma percepção muito mais clara do papel das políticas monetárias. "Antigamente havia uma noção de que era possível uma troca, permitindo um pouco de inflação para gerar crescimento e emprego", diz Alexandre Schwartsman, economista-chefe do banco Real. "Agora sabemos que ceder terreno à inflação torna muito mais difícil e caro o ajuste depois." Além disso, houve uma brutal evolução nas armas à disposição das autoridades. "Os bancos centrais aprenderam muito. Ninguém imagina a volta do controle de preços, que já foi uma realidade até nos Estados Unidos", diz o economista José Alexandre Scheinkman, professor da Universidade Princeton. Como observa Scheinkman, desde então o mundo adquiriu duas sofisticadas ferramentas: o sistema de metas e o câmbio flutuante. Adotado por dezenas de países, o sistema de metas permite que os bancos centrais calibrem suas políticas monetárias, controlando e administrando as expectativas sobre o aumento de preços. As metas ajudam a sinalizar para o mercado que a inflação não vai sair do controle -- e só isso já faz diferença. Nos anos 70, os bancos centrais não levavam em conta as expectativas para decidir se era necessário ou não mexer nos juros.

A carestia volta a assustar
Nos Estados Unidos, a inflação nos últimos meses deu um salto em relação ao período 2000-2007, embora ainda esteja longe do padrão dos anos 70 (média de cada período)
Anos 70 7%
Anos 80 5,5%
Anos 90 3%
De 2000 a 2007 2,8%
 
Jan 4,3%
Fev 4%
Mar 4%
No mundo todo, os preços estão em alta, mas agora por motivos diferentes
Os vilões do passado...
As causas da inflação mundial nos anos 70
Países árabes, que reduziram a oferta de petróleo para forçar o aumento de preços
Quebra de safras, causada pelo endividamento de fazendeiros americanos e pela seca na África e na Austrália
Política monetária frouxa dos bancos centrais europeus e americano
...e os do presente
As razões do surto atual
Disparada do preço do petróleo, devido à demanda global e às guerras
Crise econômica americana e derretimento do dólar, inflacionando o preço das commodities
Aumento do consumo de alimentos e quebra de safras em vários países
Uso de grãos para produzir biocombustíveis na Europa e nos EUA
No Brasil, crescimento dos gastos do governo e expansão do consumo
Fontes: Inflationdata.com e Bureau of Labor Statistics

NADA DISSO, PORÉM, INDICA que a tarefa de controlar a inflação será simples. Em tempos de globalização, a luta contra a alta de preços mobiliza um vasto, eclético e muitas vezes dissonante grupo de atores. No que toca aos bancos centrais, a incerteza e os limites operacionais criados por novos produtos financeiros, como os fundos de derivativos mais arrojados, significam um sério constrangimento adicional. "Hoje, os bancos centrais operam num ambiente em que a política monetária influencia apenas uma pequena parte das flutuações na liquidez mundial", escreveu recentemente, num artigo para o jornal inglês Financial Times, o economista egípcio Mohamed El-Erian, ex-professor da Universidade Harvard e atual diretor da administradora de recursos Pimco, com 750 bilhões de dólares sob sua guarda. "Os desafios são maiores para o Federal Reserve, que tem mandato duplo para controlar a inflação e manter o crescimento econômico e o nível de emprego." El-Erian refere-se ao dilema do presidente do Fed, Ben Bernanke, que, a fim de estimular o consumo e evitar a recessão americana, desde janeiro já cortou os juros em 2 pontos percentuais, para os atuais 2,25% ao ano -- uma taxa de juro negativa, considerando que a inflação está na casa de 4%. Por outro lado, esse ciclo de frouxidão monetária americana tem pressionado a inflação e intensificado a desvalorização do dólar. No último ano, a moeda americana caiu 13% em relação ao euro e 17% em relação ao real. O que assusta no atual surto inflacionário americano não é o número absoluto, pois ainda se encontra num nível baixo, mas a velocidade da subida. Há pouco mais de um ano, a inflação nos Estados Unidos estava abaixo de 3%. Diante do risco de descontrole, a previsão do mercado financeiro é que o Fed não reduza mais os juros.

No Brasil de 2008, sob o comando de Henrique Meirelles, declarado admirador de Paul Volcker, o Banco Central não tem hesitado em tomar a direção oposta do Fed de Bernanke. Diante de um aumento expressivo no consumo das famílias, de 8,6% no ano passado, e do repique no preço de alimentos, sobretudo o trigo e o leite, a luz amarela acendeu para o Comitê de Política Monetária (Copom), do BC. Além disso, devido ao enfraquecimento do dólar e ao aumento das importações, o país começou a apresentar novamente déficits em conta corrente. No final de abril, depois de considerar esses fatores -- e também o irresponsável aumento dos gastos do governo --, numa decisão controversa o BC resolveu elevar a taxa de juro em meio pon to, para 11,75%, sinalizando ainda que mais aumentos podem ocorrer até o final do ano. "No Brasil, é necessário afinar a política monetária com a fiscal, de modo que, em tempos de crescimento forte, o governo corte os gastos, fazendo o oposto durante tempos de recessão", diz o economista Salomão Quadros, coordenador de análises econômicas da Fundação Getulio Vargas de São Paulo. Como não é o que ocorre, o trabalho pesado fica todo para o BC.

 

É PRECISO QUE SE DIGA QUE PARTE do problema inflacionário mundial deriva de uma boa notícia -- há cada vez mais gente consumindo. Isso fica claro quando se olha para o peso crescente de grandes economias emergentes. Nos anos 70, os Estados Unidos detinham metade da economia mundial. Hoje, a fatia americana na produção de riquezas do planeta, medida em dólares, encolheu para 28%. E, apesar de ainda representarem modestos 7% da economia global, China e Índia são em boa medida responsáveis pelo aumento explosivo do consumo de matérias-primas e pela conseqüente escalada de preços. "Diferentemente dos anos 70, a principal causa do surto inflacionário de hoje não é o choque de oferta, e sim o forte crescimento da demanda mundial", diz o economista Edward Amadeo, sócio do Gávea Investimentos. "Ao que tudo indica, a alta de preços da energia e da comida deve demorar a ceder." A principal razão para isso está no descompasso entre o crescimento da demanda e o da oferta. No caso da comida, desde 1970 a produção de grãos dobrou no planeta e o mesmo aconteceu com a população global. Mas, à medida que prosperam, os chineses e os indianos -- e também os brasileiros -- consomem menos vegetais e passam a comer mais carne. Essa mudança estrutural de hábitos gera um enorme impacto sobre os recursos naturais. De acordo com a ONU, enquanto são necessários 2 000 litros de água para produzir 1 quilo de trigo, para 1 quilo de carne bovina são gastos 13 000 litros de água. Nesse ambiente de estoques cada vez mais apertados, a mudança climática, que na última década vem castigando com severas secas a Austrália, um dos maiores produtores mundiais de alimentos, pressiona ainda mais as cotações.

Assim como no passado, hoje também são grandes a tentação e a pressão para buscar culpados que sejam facilmente reconhecidos pelas multidões nas ruas e que justifiquem a espiral inflacionária. Parte dos americanos ainda culpa exclusivamente os árabes e os russos pela estagflação nos anos 70. Mas, em grande medida, aquela crise foi causada pela política econômica frouxa do então presidente americano Richard Nixon em plena campanha para reeleição. Da mesma forma, hoje, os biocombustíveis e os especuladores que operam nos mercados futuros de matérias-primas despontam como os culpados. Em 2007, o operador John Paulson, dono de uma gestora de fundos de hedge que leva seu nome, lucrou 3,7 bilhões de dólares apostando pesadamente nos mercados agrícolas e no petróleo. Diante da publicidade negativa gerada pelos lucros extraordinários num momento penoso para os americanos, Paulson tem evitado os jornalistas.

Mas quem tem apanhado mais da imprensa e de autoridades internacionais são os biocombustíveis. No começo de abril, o porta-voz para o programa de alimentação das Nações Unidas, o suíço Jean Ziegler, acusou os biocombustíveis de ser um "crime contra a humanidade". O equívoco de Ziegler é não separar o etanol brasileiro, feito com base na cana-de-açúcar, do americano, produzido com milho. Enquanto o álcool brasileiro não afeta a produção de alimentos, nos Estados Unidos cerca de um quarto de todo o milho produzido é desviado para a produção de combustível -- o que parece um modelo inviável. A solução pode estar na segunda geração de etanol, a ser feita de celulose, pois o milho deixaria de ser matéria-prima do biocombustível. Essa tecnologia, porém, ainda não se tornou viável comercialmente.

Mais gente comendo, comida mais cara
O aumento do consumo de alimentos nos últimos anos em países emergentes...
Consumo anual per capita na China (em kg)
Carne
1980 20
2007 50
Ovos
1981 5
2004 10
Leite
1990 5
2006 22
...é um dos fatores que mais pressionam a alta de preços no mundo atualmente
Variação de preços de março de 2007 a março de 2008
Milho 31%
Arroz 74%
Soja 87%
Trigo 130%
Fontes: BBC, FAO, Jackson Son & Co., Bloomberg e Ministério da Agricultura da China

Quando se olha para o passado, aprende-se que a solução para choques como o do petróleo passa mais pelo avanço da oferta do que pelo corte da demanda. Naquele perigo, a salvação foi a descoberta de novas reservas de petróleo no golfo do México e no mar do Norte. Atualmente, as reservas do pré-sal da costa brasileira, ainda não totalmente comprovadas, despontam como as maiores descobertas de pe tróleo desde os anos 70 (veja reportagem na página 134). Um raciocínio semelhante aplica-se aos alimentos. A resposta equivocada à crise -- e já ensaiada no Brasil pelo Ministério da Agricultura -- aponta para o controle de preços e a taxação de exportações de produtos em falta no mercado. A verdadeira solução não é milagrosa nem inclui decisões arbitrárias dos governos. A saída passa pela inovação tecnológica, com o desenvolvimento de sementes mais resistentes às pragas e às mudanças climáticas, e pela expansão das lavouras para áreas hoje usadas como pastagens. Ou seja, investimentos e estímulo ao aumento da produção. Outro requisito fundamental são regras econômicas estáveis e o respeito ao direito de propriedade, sem as constantes ameaças de invasões, como as do Movimento dos Traba-lhadores Rurais Sem Terra. Com essa receita, o agronegócio brasileiro tem tudo para ajudar a encher as panelas do planeta e baixar a pressão sobre os preços.

Publicado por Rocio (17/06/2008 - 12:39)


Concordo com a realidade de aumento da demanda e crescimento do consumo de produtos e serviços tecnologicamente criados. Até o desgaste da "Terra", guerras e catástrofes naturais influenciam a economia do país, nações crescerem e morrerem. Mas vejo muita desigualdade e concentração de renda somos marionetes deste Grade Negocio "
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