Os irmãos Francisco Vieira e Avelino Antônio Vieira Neto ainda eram crianças quando o futuro profissional de ambos começou a ser planejado pelo pai, o banqueiro Tomaz Edison de Andrade Vieira. Herdeiros do clã fundador do banco paranaense Bamerindus -- que chegou a ocupar a terceira posição entre as maiores instituições financeiras privadas do país --, os dois passaram boa parte da vida sendo preparados para um dia assumir o comando do banco. Mas dois episódios atrapalharam esse plano. Em 1981, Tomaz Edison, então presidente da instituição, morreu num acidente de avião. Francisco e Avelino eram adolescentes e, sem a presença do pai, viram-se numa situação desvantajosa quando começaram a trabalhar no banco e a disputar espaço nos cargos executivos com pelo menos três primos. Em 1997, houve o segundo grande revés. Com prejuízo de 250 milhões de reais em valores da época (cerca de 500 milhões em valores atuais), o Bamerindus sofreu uma intervenção do Banco Central e, em seguida, foi vendido ao banco inglês HSBC. Com isso, o quinhão de Francisco e Avelino no banco virou pó -- junto com a mãe e as duas irmãs, eles tinham participação estimada em 250 milhões de reais em valores atuais.
Desde então, o mercado financeiro nunca mais ouviu falar dos dois herdeiros da família Andrade Vieira, que passaram a viver de recursos que estavam aplicados em outros negócios. Isso até o mês passado, quando os irmãos fecharam a compra de 48% da Credipar, pequena financeira sediada em Curitiba. "Decidimos que é hora de resgatar a história da nossa família no setor financeiro", diz Avelino. Entre o fim do Bamerindus e a compra da Credipar, Francisco e Avelino dedicaram-se a negócios como revendas e um consórcio de veículos, um site e até uma empresa exportadora de madeira. "O fim do Bamerindus, um banco fundado por nosso avô, foi tão traumático que não queríamos mais nenhum contato com o setor financeiro", diz Francisco. A decisão de voltar começou a ser amadurecida há dois anos, durante um processo de aconselhamento profissional com uma consultoria especializada. Segundo amigos dos irmãos, ambos estavam insatisfeitos de ser conhecidos como os ex-herdeiros do Bamerindus. "Durante a análise de nossa história, uma coisa ficou clara: por mais que seja sofrido relembrar o acontecido, nosso DNA é financeiro, e isso não adianta negar", diz Francisco.
| Avelino Antônio Vieira Neto, sócio da Credipar |
| Idade 40 anos |
| Formação Administração de empresas |
| Carreira Começou no Bamerindus como estagiário, em 1987, e dirigiu a seguradora do banco. Depois da venda do Bamerindus, passou a trabalhar com o irmão na holding familiar |
O passo seguinte foi decidir a melhor maneira de recomeçar. Os irmãos venderam boa parte de suas empresas e optaram por uma das áreas mais promissoras do setor bancário: a de empréstimos à pessoa física. Essa modalidade de crédito -- que nos últimos três anos cresceu 102% no país -- é a especialidade da Credipar, dona de uma carteira de crédito estimada em 120 milhões de reais. Comparada ao que já foi o Bamerindus, a Credipar é um negócio modestíssimo. Antes de ser vendido ao HSBC, o banco tinha um total de ativos estimado em 13 bilhões de reais em valores da época e mais de 2 milhões de correntistas. A Credipar tem hoje 80 milhões de reais em ativos e 100 000 clientes e está na 17a posição na lista das financeiras que divulgam seus balanços, segundo a agência de risco Austin Rating. Com foco no sul do país, a Credipar atua no nicho de crédito para clientes das classes C e D de pequenos e médios varejistas. Mais de 60% dos consumidores atendidos pela financeira nem sequer têm conta em banco, e 70% dos varejistas com que a empresa tem acordos faturam menos de 2 milhões de reais por ano.
Ao firmar a sociedade na Credipar, os irmãos Francisco e Avelino procuraram se assegurar de que não corriam risco de enfrentar o mesmo conflito societário que viveram no Bamerindus -- o sócio majoritário da financeira é um amigo de longa data da família, Orlando Kaesemodel Filho. Na época do Bamerindus, além da disputa com os primos, eles tinham de lidar com o estilo de administração do tio, o ex-senador e duas vezes ministro José Eduardo de Andrade Vieira, que assumiu a presidência do banco logo após a morte de Tomaz Edison. "Francisco e Avelino não costumavam se indispor com o tio, mas discordavam diametralmente de suas estratégias", diz um ex-diretor do banco. O principal ponto de discordância era o envolvimento de José Eduardo na política, visto como uma das razões para a má qualidade da gestão do Bamerindus.
| Francisco Vieira, sócio da Credipar |
| Idade 37 anos |
| Formação Relações internacionais |
| Carreira Começou como estagiário no Bamerindus, em 1988, e tornou-se gerente de uma agência em Curitiba, em 1993. Desde a venda do banco, comanda a holding da família |
À frente da financeira, o maior desafio dos irmãos será dar relevância ao negócio em meio a um setor pulverizado, mas que tem a maior parte das receitas concentrada nas financeiras ligadas aos grandes bancos. Para aumentar a oferta de crédito da Credipar -- e o tamanho da empresa --, Francisco e Avelino pretendem atrair o dinheiro de fundos de investimento estrangeiros, tarefa que pode ser árdua em meio ao clima de instabilidade na economia americana. Depois, devem transformar a financeira em banco. Assim, a Credipar poderá oferecer produtos em expansão no mercado brasileiro, como financiamento imobiliário e cartões de crédito. Otimistas, os irmãos acreditam que a Credipar deve dobrar de tamanho até o final deste ano. Ainda assim, será um feito tímido no setor -- mas que não parece incomodar os Andrade Vieira. "Não é nossa intenção fazer um novo Bamerindus", diz Francisco.
