Diz o senso comum que, em nenhum lugar do mundo, os preceitos da livre concorrência funcionam com tanta fluência e intensidade quanto nos Estados Unidos. Graças a isso, o país consegue gerar riqueza para todos os seus cidadãos. A tese é boa, mas não procede. Quem afirma isso é o americano David Cay Johnston, renomado jornalista do The New York Times que venceu o prêmio Pulitzer em 2001 por uma série de reportagens sobre o sistema tributário americano. Em seu recém-lançado livro, Free Lunch ("Almoço grátis", sem previsão de lançamento em português), que já está na lista dos mais vendidos da revista BusinessWeek, Johnston afirma que, desde a década de 80, o governo dos Estados Unidos vem adotando uma política nada fiel às teorias liberais. A nova lógica funciona da seguinte maneira: os ricos se aproveitam da frouxidão das regras do Estado para ganhar subsídios que estimulem seus empreendimentos -- e se tornar ainda mais ricos. À medida que mais dinheiro público vai para os já abastados, menos recursos são direcionados para aplacar a demanda daqueles que mais precisam dele. Segundo Johnston, essa mecânica distorcida faz com que o sistema de distribuição de riqueza de seu país se assemelhe cada vez mais ao de nações menos desenvolvidas, como o Brasil.
Johnston explica sua teoria com exemplos práticos de diferentes empresas -- e, muitas vezes, de setores inteiros da economia americana que se beneficiaram de ajuda municipal, estadual e até federal. Uma das melhores histórias do livro envolve o atual presidente dos Estados Unidos, George W. Bush. A maioria dos americanos sabe que, no passado, Bush foi um dos donos do time de beisebol Texas Rangers. Fãs do esporte também se lembram de que, em 1998, nove anos após a aquisição do Rangers por 86 milhões de dólares, Bush e seus sócios venderam o time por 250 milhões de dólares. Mas pouca gente sabe como ao longo do período em que esteve à frente da gestão do time a trupe se beneficiou de incentivos do governo para aumentar o valor do negócio. Johnston calcula que o time amealhou 202 milhões de dólares em subsídios do governo texano em jogadas como a construção de um estádio, nos anos 90. Segundo o autor, embora tivessem dinheiro de sobra para dar conta da empreitada, Bush e seus colegas decidiram ameaçar tirar o time de sua cidade natal, Arlington, para pressionar o governo a bancar parte das obras. Deu certo. Naquele ano, o governo realizou um aumento de impostos que criou recursos para financiar a obra -- e os contribuintes texanos pagaram a conta.
A saga do Texas Rangers não é um caso isolado. Segundo Johnston, outras dezenas de times profissionais de beisebol, futebol americano, hóquei e basquete ostentam resultados positivos, quando, na verdade, estariam no vermelho se operassem sem a benemerência da máquina estatal. E que benemerência! O autor estima que os subsídios do governo aos times para que eles construam estádios e outras instalações privadas ultrapassem hoje 2 bilhões de dólares por ano. "De maneira geral, a indústria esportiva nos Estados Unidos não lucra com o mercado, mas com o dinheiro dos contribuintes", diz. O que torna a prática mais condenável, ressalta ele, é o fato de que, além dos cidadãos não irem de graça aos estádios, os parques e as escolas públicas do país estão em condições periclitantes devido à escassez de recursos.
As artimanhas que os bilionários donos de times esportivos dos Estados Unidos usam para conseguir dinheiro do governo não são, nem de longe, as mais maquiavélicas. Um dos capítulos mais propensos a despertar a indignação dos leitores é aquele no qual Johnston esmiúça os privilégios conquistados por algumas das maiores empresas de varejo do país. O gigante Wal-Mart não escapa da mira. Na visão de Johnston, o crescimento do varejista não pode ser creditado apenas à eficiência de sua operação. O autor explica que os executivos do Wal-Mart são talentosos não apenas para cortar custos mas também para conseguir dinheiro do go verno. Há investimento público em pelo menos 84 dos 91 centros de distribuição que a empresa mantém nos Estados Unidos -- isso sem levar em consideração as dezenas de lojas agraciadas com verbas públicas. No total, os incentivos somariam mais de 1 bilhão de dólares.
| Free Lunch |
| Editora Portfolio, 323 págs. |
| Autor O jornalista americano David Cay Johnston |
| "A cruel realidade é que, da década de 80 para cá, políticas adotadas em nome de Adam Smith para supostamente fortalecer a mão invisível que guia o mercado têm colocado um fardo sobre a nossa economia, ao mesmo tempo que enchem os bolsos dos ricos e poderosos que as solicitam" |
NENHUMA REDE DE VAREJO, porém, é tão dependente da "mão" do governo quanto a Cabela's, cadeia especializada em produtos para caça e pesca. Criada em 1987, no estado de Nebraska, a rede vem financiando sua expansão país afora com o dinheiro dos contribuintes. Na prática, os executivos da Cabela's convencem o poder público de pequenas cidades de que a abertura de uma loja da rede é a solução para todos os problemas -- da geração de empregos à atração de novos consumidores. A propaganda feita em Hamburg, na Pensilvânia, município com pouco mais de 4 000 habitantes onde a empresa se instalou em 2003, era que a loja atrairia 6 milhões de clientes por ano. Passada a etapa do convencimento, o passo seguinte consiste em definir o preço dessa salvação -- normalmente na forma de isenção de impostos. No caso de Hamburg, a instalação da Cabela's custou à cidade mais de 30 milhões de dólares -- valor superior ao que a prefeitura gastou na manutenção do município em mais de uma década. A loja, porém, nunca chegou nem perto de atrair o número de consumidores prometidos durante a negociação (nos melhores anos, recebeu pouco mais de 2 milhões de clientes).
A pergunta óbvia é o que leva os governantes a aceitar esse tipo de acordo tão pouco vantajoso. A resposta, afirma Johnston, é o medo de que, se recusar a proposta, o empreendimento e todos os seus benefícios econômicos irão para o município vizinho (o autor não fala em suborno). Um indício de que a chantagem funciona está no fato de que, no período de 1998 a 2005, a rede inaugurou 15 lojas fora de Nebraska (no total, a empresa tem 26 pontos-de-venda). Cada uma delas ganhou, em média, 25 milhões de dólares em isenção de impostos. A estratégia tem sido tão eficaz que do último relatório anual da Cabela's consta o seguinte trecho: "Historicamente, temos conseguido negociar acordos de desenvolvimento econômico relacionados à construção de uma série de novas lojas (...), temos a intenção de continuar usando esses acordos com os governos municipais e estaduais de modo a equilibrar os custos de construção e aumentar o retorno sobre o investimento nessas novas lojas".
Johnston faz um contraponto e dedica algumas páginas aos casos de empresas que estão nadando contra essa corrente. O mais curioso é o da Gander Mountain, rede com mais de 100 lojas nos Estados Unidos que também vende produtos para caça e pesca. A Gander Mountain financia a consultoria de David Edwald, uma espécie de lobista que tem a missão de evitar que empresas como a Cabela's obtenham regalias do Estado. Por enquanto ele não teve sucesso. As práticas da empresa de Nebraska, que almoça grátis à custa dos contribuintes, seguem apenas amaldiçoadas pela concorrência e pelo jornalista do The New York Times, que usa uma frase da Bíblia, de Jeremias, capítulo 22, versículo 13, para rogar sua praga: "Ai daquele que edifica sua casa com injustiça".
| O contribuinte paga a conta |
| Os subsídios generosos que algumas empresas conseguiram arrancar do governo dos Estados Unidos — sobretudo com isenção de impostos — para impulsionar seus negócios |
| QUEM |
| Times variados de futebol americano, hóquei,b asquete e beisebol |
| Wal-Mart, maior rede de varejo do mundo |
| Cabela’s, rede varejista de produtos para caça e pesca |
| QUANTO |
| 10 bilhões de dólares |
| 1 bilhão de dólares |
| 375 milhões de dólares |
| PARA QUÊ |
| Construir mais de 50 estádios,entr e outras instalações,de 1995 a 2006 |
| Abrir 84 dos 91 centros de distribuição no país |
| Inaugurar as primeiras 15 lojas fora de Nebraska,s eu estado de origem,de 1998 a 2005 |

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