Assim que desembarcou na Bahia, há 31 anos, para fundar uma fábrica de charutos, o cubano Félix Menendez se encantou com as histórias e com os personagens de Jorge Amado. O escritor, por sua vez, era um admirador dos charutos produzidos manualmente por Menendez, na pequena fábrica da Menendez & Amerino, localizada na cidade de São Gonçalo dos Campos, região do Recôncavo Baiano. A amizade entre ambos originou a marca Dona Flor, criada em 1987 para comemorar os 20 anos de lançamento do livro Dona Flor e seus Dois Maridos. Era uma homenagem de Menendez a Jorge Amado e uma forma de associar seus charutos à sedutora personagem que ganhou o mundo na pele de Sonia Braga, no filme dirigido por Bruno Barreto nos anos 70. A idéia era vender o produto no mercado americano, fechado aos charutos cubanos. Apesar do apelo de marketing baiano e da origem cubana do fabricante, o charuto de Menendez jamais conseguiu uma fração sequer da fama e do prestígio das marcas de Cuba. Isso até o fim do ano passado, quando uma avaliação da revista americana Cigar Aficionado, colocou o Dona Flor Robusto (uma das versões da marca) entre os cinco melhores do mundo, com a nota 92 -- antes, nenhum charuto brasileiro havia alcançado os 90. A Cigar Aficionado é uma espécie de Bíblia entre os apreciadores de charuto, consultada por fumantes do mundo inteiro. "Finalmente, conseguimos o reconhecimento que esperávamos desde que resolvemos fazer charutos no Brasil", diz Félix Menendez.
O impacto da boa avaliação pela Cigar Aficionado foi imediato -- em menos de dois meses, as vendas internacionais cresceram 36% e a Menendez & Amerino passou a exportar para Austrália e países africanos, como África do Sul, Angola e Moçambique. A empresa também aproveitou a oportunidade para ampliar sua atuação no Oriente Médio. Uma das razões para a conquista é um tipo peculiar de fumo desenvolvido nos últimos dois anos em parceria com a escola de agronomia da Universidade Federal da Bahia. A planta usada nos charutos da empresa é uma variante obtida de cruzamentos de variedades cubanas com brasileiras. A produção é totalmente artesanal, do plantio à confecção, exatamente da mesma forma que o pai de Félix, Alonso Menendez, fazia em Cuba até a tomada do poder por Fidel Castro. Antes da Revolução Cu bana, os Menendez produziam charutos de várias marcas, entre elas a consagrada Montecristo. Com a chegada dos comunistas ao poder, as propriedades da família foram encampadas pelo governo e os Menendez se refugiaram nas Ilhas Canárias, arquipélago espanhol, onde tentaram -- sem sucesso -- produzir uma nova marca de charutos, a Montecruz, destinada ao mercado americano. Nas Ilhas Canárias, Félix teve o primeiro contato com o fumo brasileiro -- sua companhia importava o produto do Recôncavo Baiano. Dos acordos comerciais com o empresário Mario Amerino Portugal, nasceu, em 1977, a Menendez & Amerino.
| O bom baiano |
| Características do Dona Flor, o charuto brasileiro de maior aceitação no exterior |
| Tipo Robusto |
| Tempo médio de queima 45 minutos |
| Procedência do fumo São Gonçalo dos Campos, na Bahia |
| Preço 250 reais (caixa com 25 charutos) |
| Por que ele é o melhor Foi o primeiro charuto brasileiro a conquistar 92 pontos na Cigar Aficionado |
O Dona Flor segue o mesmo padrão da genuína tradição cubana -- a secagem das folhas de fumo é feita uma a uma e o processo de fermentação é acompanhado pessoalmente pelo diretor da fábrica, Arturo Toraño. Primo de Félix, Toraño foi preso pelo regime castrista durante a invasão da Baía dos Porcos pelos americanos nos anos 60, passou meses na cadeia e, desde os anos 80, vive no Brasil. Parte de sua família é dona da respeitada marca Toraño, na República Dominicana. "A região do Recôncavo Baiano é, no território brasileiro, a que mais se aproxima em condições climáticas e de solo à principal área produtora de Cuba, Piñar Del Rio. Mas, mesmo com as semelhanças, é praticamente impossível produzir por aqui habanos como os caribenhos", diz Félix. O fumo brasileiro tem um sabor bem mais suave, o que não agrada tanto aos apreciadores de charutos caribenhos. Também há uma brutal diferença de escala. A produção brasileira no ano passado foi de 12 milhões de unidades, enquanto no país de Fidel Castro foram mais de 300 milhões. No Brasil, a Menendez & Amerino compete diretamente com as marcas cubanas, que mesmo sendo mais caras são as preferidas dos fumantes.
Com a boa nota da Cigar Aficionado, a Menendez & Amerino quer crescer também no mercado doméstico. Além do premiado Robusto, a empresa produz no Brasil cigarrilhas Dona Flor e charutos Pirâmide Quadrado, Double Corona, Churchill, Corona e Petit Corona -- diferenciados em formato e tamanho do charuto, particularidade que influencia na queima e no sabor. A empresa planeja para os próximos dois anos o lançamento de novos produtos: o Dona Flor Corpo e Alma e o Alonso Menendez Perfeição Cubano -- o primeiro a ser fabricado no Brasil com 100% de origem cubana. Até o fim do ano entra em produção o Dona Flor Short Robusto, versão mais curta do charuto premiado, que pode ser fumada em menos tempo. É um produto especial para os brasileiros, que nem sempre têm a paciência para apreciar um puro habano. Em vez dos 45 minutos tradicionais, a versão reduzida poderá ser fumada em apenas 20 minutos. Fidel Castro, claro, jamais aprovaria.

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