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De dar inveja em Fidel

 | 17.04.2008

O brasileiro Dona Flor Robusto, produzido por uma família que fugiu do regime castrista, entrou para a elite mundial dos charutos

 

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Por Paula Barcellos

EXAME 

Assim que desembarcou na Bahia, há 31 anos, para fundar uma fábrica de charutos, o cubano Félix Menendez se encantou com as histórias e com os personagens de Jorge Amado. O escritor, por sua vez, era um admirador dos charutos produzidos manualmente por Menendez, na pequena fábrica da Menendez & Amerino, localizada na cidade de São Gonçalo dos Campos, região do Recôncavo Baiano. A amizade entre ambos originou a marca Dona Flor, criada em 1987 para comemorar os 20 anos de lançamento do livro Dona Flor e seus Dois Maridos. Era uma homenagem de Menendez a Jorge Amado e uma forma de associar seus charutos à sedutora personagem que ganhou o mundo na pele de Sonia Braga, no filme dirigido por Bruno Barreto nos anos 70. A idéia era vender o produto no mercado americano, fechado aos charutos cubanos. Apesar do apelo de marketing baiano e da origem cubana do fabricante, o charuto de Menendez jamais conseguiu uma fração sequer da fama e do prestígio das marcas de Cuba. Isso até o fim do ano passado, quando uma avaliação da revista americana Cigar Aficionado, colocou o Dona Flor Robusto (uma das versões da marca) entre os cinco melhores do mundo, com a nota 92 -- antes, nenhum charuto brasileiro havia alcançado os 90. A Cigar Aficionado é uma espécie de Bíblia entre os apreciadores de charuto, consultada por fumantes do mundo inteiro. "Finalmente, conseguimos o reconhecimento que esperávamos desde que resolvemos fazer charutos no Brasil", diz Félix Menendez.

O impacto da boa avaliação pela Cigar Aficionado foi imediato -- em menos de dois meses, as vendas internacionais cresceram 36% e a Menendez & Amerino passou a exportar para Austrália e países africanos, como África do Sul, Angola e Moçambique. A empresa também aproveitou a oportunidade para ampliar sua atuação no Oriente Médio. Uma das razões para a conquista é um tipo peculiar de fumo desenvolvido nos últimos dois anos em parceria com a escola de agronomia da Universidade Federal da Bahia. A planta usada nos charutos da empresa é uma variante obtida de cruzamentos de variedades cubanas com brasileiras. A produção é totalmente artesanal, do plantio à confecção, exatamente da mesma forma que o pai de Félix, Alonso Menendez, fazia em Cuba até a tomada do poder por Fidel Castro. Antes da Revolução Cu bana, os Menendez produziam charutos de várias marcas, entre elas a consagrada Montecristo. Com a chegada dos comunistas ao poder, as propriedades da família foram encampadas pelo governo e os Menendez se refugiaram nas Ilhas Canárias, arquipélago espanhol, onde tentaram -- sem sucesso -- produzir uma nova marca de charutos, a Montecruz, destinada ao mercado americano. Nas Ilhas Canárias, Félix teve o primeiro contato com o fumo brasileiro -- sua companhia importava o produto do Recôncavo Baiano. Dos acordos comerciais com o empresário Mario Amerino Portugal, nasceu, em 1977, a Menendez & Amerino.

O bom baiano
Características do Dona Flor, o charuto brasileiro de maior aceitação no exterior
Tipo
Robusto
Tempo médio de queima
45 minutos
Procedência do fumo
São Gonçalo dos Campos, na Bahia
Preço
250 reais (caixa com 25 charutos)
Por que ele é o melhor
Foi o primeiro charuto brasileiro a conquistar 92 pontos na Cigar Aficionado

O Dona Flor segue o mesmo padrão da genuína tradição cubana -- a secagem das folhas de fumo é feita uma a uma e o processo de fermentação é acompanhado pessoalmente pelo diretor da fábrica, Arturo Toraño. Primo de Félix, Toraño foi preso pelo regime castrista durante a invasão da Baía dos Porcos pelos americanos nos anos 60, passou meses na cadeia e, desde os anos 80, vive no Brasil. Parte de sua família é dona da respeitada marca Toraño, na República Dominicana. "A região do Recôncavo Baiano é, no território brasileiro, a que mais se aproxima em condições climáticas e de solo à principal área produtora de Cuba, Piñar Del Rio. Mas, mesmo com as semelhanças, é praticamente impossível produzir por aqui habanos como os caribenhos", diz Félix. O fumo brasileiro tem um sabor bem mais suave, o que não agrada tanto aos apreciadores de charutos caribenhos. Também há uma brutal diferença de escala. A produção brasileira no ano passado foi de 12 milhões de unidades, enquanto no país de Fidel Castro foram mais de 300 milhões. No Brasil, a Menendez & Amerino compete diretamente com as marcas cubanas, que mesmo sendo mais caras são as preferidas dos fumantes.

Com a boa nota da Cigar Aficionado, a Menendez & Amerino quer crescer também no mercado doméstico. Além do premiado Robusto, a empresa produz no Brasil cigarrilhas Dona Flor e charutos Pirâmide Quadrado, Double Corona, Churchill, Corona e Petit Corona -- diferenciados em formato e tamanho do charuto, particularidade que influencia na queima e no sabor. A empresa planeja para os próximos dois anos o lançamento de novos produtos: o Dona Flor Corpo e Alma e o Alonso Menendez Perfeição Cubano -- o primeiro a ser fabricado no Brasil com 100% de origem cubana. Até o fim do ano entra em produção o Dona Flor Short Robusto, versão mais curta do charuto premiado, que pode ser fumada em menos tempo. É um produto especial para os brasileiros, que nem sempre têm a paciência para apreciar um puro habano. Em vez dos 45 minutos tradicionais, a versão reduzida poderá ser fumada em apenas 20 minutos. Fidel Castro, claro, jamais aprovaria.

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