Buscar

Olá, .

Sair

Para usar o Portal EXAME você precisa estar autenticado

Entrar
 
 

Avalie a reportagem:

 

  •    
  •    
  •    
  •    
  •    
Fraca
Boa
Excelente

Média dos usuários

Fraca
Boa
Excelente

Choque de pragmatismo

 | 03.04.2008

Um plano de recuperação leva a complicada Light do prejuízo ao lucro, a guinada mais radical de todo o setor elétrico em 2007

 

André Valentim

Alquéres, o presidente: agora é a vez dos “gatos”

Publicidade

Por Malu Gaspar

EXAME 

A última reunião entre a diretoria da Light e cerca de 150 investidores e analistas de mercado, realizada há duas semanas em um dos complexos hidrelétricos da empresa no estado do Rio de Janeiro, foi marcada por um otimismo inédito na história da companhia. Os resultados alcançados pela Light chamaram a atenção mesmo em um ano marcado pelo crescimento da economia brasileira, o que ajudou a impulsionar os resultados de todas as empresas do setor elétrico. Pela primeira vez em dez anos, a Light distribuiu dividendos a seus acionistas, resultado de uma longa e bem-sucedida estratégia de recuperação. Além de pagar um dos maiores dividendos do mercado, a Light conseguiu também a maior margem operacional do setor, de 50%. Mas não foi só. O prejuízo de 150 milhões de reais registrado em 2006 transformou-se em lucro de 1,1 bilhão e o valor de mercado dobrou, passando de 3 bilhões para 6 bilhões de reais. Em um encontro semelhante, realizado em agosto de 2006, o estado de ânimo era bem diferente. A Light devia 3,1 bilhões de reais aos bancos, tinha mais de 700 milhões de reais a receber de consumidores inadimplentes e estava enrolada em um emaranhado de contratos de difícil compreensão. O consórcio formado por Cemig, Andrade Gutierrez e Pactual havia acabado de comprar a companhia da francesa EDF e os planos para saneá-la eram vistos com ceticismo. "Sabia que eram executivos competentes, mas ainda achava que estava perdendo meu tempo", diz um analista que participou dos dois encontros.

A reviravolta financeira que mudou o humor dos acionistas da Light é resultado do mais puro pragmatismo administrativo, algo que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso chamou, certa vez, de "utopia do possível". Em vez de partir com tudo para o combate aos "gatos" (ligações irregulares à rede elétrica), algo mais demorado e complexo, a empresa começou por um caminho menos espinhoso: o ataque à inadimplência. A lógica por trás dessa opção era que seria muito mais fácil transformar um inadimplente em cliente regular do que identificar -- e cobrar -- um fraudador. Com essa decisão, a companhia conseguiu elevar a arrecadação de 94% para 99% das contas emitidas, o que significou aumento de receita de 50 milhões de reais por mês apenas com seus maiores consumidores. Em paralelo, todos os contratos com fornecedores foram revistos e renegociados, uma economia com resultados financeiros de 300 milhões de reais. Com a credibilidade da nova administração, a empresa também conseguiu renegociar a dívida com os bancos para poder voltar a captar recursos. Dos 3,1 bilhões de reais, a dívida foi reduzida a 1,4 bilhão, com prazos alongados e menos dependência de moeda estrangeira. "Quando chegamos, a reputação da Light estava bastante comprometida", diz José Luiz Alquéres, presidente da empresa. "Era preciso recuperar o respeito pela companhia para refazer um pacto básico: os clientes pagam e nós oferecemos um serviço de qualidade."

Das trevas à luz
Os resultados obtidos pela gestão da Light
Balanço no azul
O prejuízo de 150 milhões de reais em 2006 foi convertido em lucro de
1,1 bilhão de reais em 2007
Margem recorde
A empresa teve a maior margem operacional do setor elétrico no ano,
50%
Dividendos
Pela primeira vez em dez anos, a Light pagou dividendos aos acionistas:
720 milhões de reais
Redução de custos
A companhia cortou apenas em despesas do dia-a-dia
300 milhões de reais
Alívio da dívida
A dívida da Light foi reduzida de 3,1 bilhões para
1,4 bilhão de reais

SIMPLES DE FALAR, BEM MAIS difícil de fazer. Nos últimos 16 meses, Alquéres incluiu em sua rotina de 15 horas diárias de trabalho compromissos típicos de político em campanha eleitoral. Durante esse período, foi visto, por diversas vezes, comendo feijoada e tomando caipirinha com prefeitos do interior ou em eventos políticos com o governador Sérgio Cabral e seus secretários. A maratona gastronômica fez (e ainda faz) sentido porque os grandes devedores da Light estão no setor público -- concessionárias, prefeituras e órgãos estaduais, alguns dos quais não pagavam a conta de luz havia cinco anos. Nas conversas com os devedores, a estratégia também foi pragmática. Quem quisesse renegociar os débitos precisava pagar as novas contas imediatamente. Em contrapartida, a empresa ofereceu ajuda para que esses clientes não voltassem a atrasar os pagamentos, os chamados programas de eficiência energética. No caso da Supervia, companhia que administra os trens da região metropolitana do Rio, o programa conseguiu uma economia de 10% na conta de luz da empresa, algo como 4 milhões de reais mensais. Ajudando-os a gastar menos em vez de simplesmente cobrar a dívida na Justiça, a Light já conseguiu recuperar 200 milhões de reais desses devedores -- além de ter todas as contas dos grandes clientes em dia. "A administração anterior da Light não entendia que nós queríamos pagar as contas, mas não conseguíamos", diz Amin Murad, presidente da Supervia.

Daqui em diante, a expectativa de acionistas, bem como de todo o mercado, vai se concentrar nos resultados futuros da companhia. É consenso que Alquéres e sua equipe precisam atacar agora a parte mais complicada da operação: o roubo de energia. As taxas desse tipo de irregularidade continuam no mesmo patamar do passado, ou seja, em 20% do fornecimento. Embora o gato seja visto como um problema de favelas e comunidades pobres, ele está disseminado e não dá sinais de retrocesso. Hoje, cerca de 45% do roubo de energia acontece em áreas de classe média e em empresas. Para reduzir o problema, a Light está aumentando o volume de investimentos no combate ao gato, de 70 milhões para 220 milhões de reais por ano, mas sabe que os resultados agora vão aparecer mais lentamente. "Combater o roubo de energia é uma tarefa complexa. É preciso um trabalho de inteligência intenso", diz Sérgio Tamashiro, analista da Itaú Corretora. "É como se a Light fosse um obeso fazendo regime: perder os primeiros quilos é fácil, o difícil é continuar emagrecendo até chegar ao peso ideal." Por razões bem pragmáticas, a determinação da empresa em seguir a dieta continua firme.

Nome

Comentário
 

Links Patrocinados

 
 
 

Copyright © 2008, Editora Abril S.A. -
Todos os direitos reservados. All rights reserved.