Os executivos Marco Antonio Bologna e Paulo Remy passaram por duras experiências no ano de 2007. Ex-presidente da TAM, Bologna teve de enfrentar a pior crise que pode ser vivida por quem dirige uma companhia aérea, como a causada pela explosão de um avião da empresa em um aeroporto. Remy encarou uma brutal reversão de expectativas. Sócio da construtora paulistana WTorre, ele apostou em 2007 como o ano em que a companhia faria sua abertura de capital, surfando a lucrativa onda que levou mais de 20 empresas do setor imobiliário à Bolsa de Valores de São Paulo. A tentativa foi frustrada, e a WTorre foi forçada a desistir. Em 2008, Remy e Bologna buscam uma segunda chance -- juntos. Bologna foi recentemente contratado para assumir a direção da construtora e, com isso, ele espera desassociar sua imagem da crise aérea da TAM. Sua missão é reorganizar a WTorre para, finalmente, levá-la à bolsa com sucesso.
Para ele, essa é uma chance de voltar a transitar num tipo de terreno em que se provou muito bem-sucedido. Por mais que seus últimos meses à frente da TAM tenham sido controversos, cabe a Bologna o mérito de ter preparado a companhia aérea para a abertura de capital (em 2005) e de tê-la tornado saudável financeiramente para sobreviver à competição com a Gol. Foi justamente para essa missão que o fundador da TAM, Rolim Amaro, contratou Bologna em 1999. Sua carreira na companhia foi considerada exemplar, até que, no fim de 2006, uma série de problemas operacionais atrasou centenas de vôos da TAM. Para piorar, teve de enfrentar uma crise sem precedentes com o acidente de um Airbus no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Com a ida para a WTorre, Bologna tem a oportunidade de provar sua capacidade de gestão financeira. "Queremos nos preparar para abrir o capital a qualquer momento, inclusive no exterior", diz ele.
Apesar de suas credenciais em operações dessa natureza, Bologna terá na WTorre uma gama de desafios muito maior que a enfrentada em seu emprego anterior. O principal motivo para isso é simples: a construtora passou pelo teste do mercado uma vez e recuou. A pouca receptividade dos investidores às ações da WTorre foi um balde de água fria nos planos que os sócios Walter Torre Júnior e Paulo Remy traçaram para a empresa há três anos. Com faturamento de 1,7 bi lhão de reais, a companhia tem um tamanho considerado adequado para ir à bolsa. A operação, porém, naufragou às vésperas de ser concluída em 2007, quando os investidores não demonstraram interesse pelos papéis. O problema se agravou quando a Comissão de Valores Mobiliários pediu um estudo de viabilidade do negócio, medida que tende a aumentar a desconfiança dos investidores. O estudo foi requisitado porque o grupo teve patrimônio líquido negativo nos três anos anteriores à data escolhida para a oferta pública de ações. Como desistiu de ir à bolsa, a WTorre nunca apresentou o tal estudo, e os investidores ficaram sem entender nada -- de onde vinham o prejuízo, o lucro e todo o resto.
| As missões de Bologna |
| As principais tarefas delegadas ao novo CEO da construtora WTorre |
| Dar maior credibilidade ao grupo perante o mercado de capitais. O executivo tirou a TAM da bancarrota, em 2001, para a bem-sucedida abertura de capital, em 2005 |
| Uniformizar a gestão das cinco empresas criadas pela WTorre. O objetivo dos controladores é abrir o capital de cada uma delas |
| Criar negócios em infra-estrutura aeroportuária. O executivo continua no conselho de administração da TAM, em que é responsável por avaliar investimentos na área |
PARA EVITAR UMA NOVA TENTATIVA frustrada de estréia na bolsa, os controladores da WTorre decidiram reorganizar a estrutura do grupo, deixando as operações mais compreensíveis aos olhos dos investidores. Entre as mudanças realizadas está a divisão das diversas atividades da WTorre em cinco unidades de negócio: WTorre Empreendimentos (incorporação de imóveis comerciais), WTorre Engenharia (construtora do grupo), WTorre Óleo e Gás (construção e reparo de plataformas de petróleo), Guanandi (incorporadora popular) e WTorre Investimentos. A idéia agora é que não mais a holding faça o IPO, mas cada uma de suas controladas, individualmente. A primeira a estrear na bolsa, segundo Paulo Remy, será a WTorre Empreendimentos.
Caberá a Bologna gerenciar toda a estratégia de gestão do grupo, promovendo, entre outras coisas, a adoção de um modelo de governança corporativa independente para cada unidade de negócios e a migração para o padrão das normas internacionais de contabilidade. O executivo também vai implantar na WTorre as regras da lei americana Sarbanes-Oxley, que inclui maior controle dos processos operacionais e financeiros para combater fraudes internas e a implantação de mecanismos de avaliação e gerenciamento de riscos. Aos poucos, Bologna também deve assumir o papel de ser a cara da WTorre, enquanto Walter Torre Júnior e Paulo Remy concentrarão suas atividades no conselho de administração da companhia. "Quero que o Bologna faça aqui o mesmo que fez na TAM", afirma Remy.
Com a contratação de Bologna, a WTorre espera ganhar espaço num segmento considerado estratégico por seus controladores: a infra-estrutura aeroportuária. A demanda por investimentos nesse setor é de pelo menos 5 bilhões de reais nos próximos dois anos. Não por coincidência, Bologna faz parte do conselho administrativo da TAM, com a responsabilidade de avaliar investimentos nessa mesma seara. Na outra ponta, a WTorre é sócia da família Constantino, dona da Gol, no consórcio BRVias, que atua no setor de concessão de rodovias. Cercada agora pelas duas maiores companhias aéreas do país, a empresa tem tudo para entrar nesse mercado. "Estamos atentos a qualquer boa oportunidade de infra-estrutura na área", diz Bologna. A empresa pretende entrar em concorrências para obras como a possível ampliação do Aeroporto de Guarulhos e um novo aeroporto em São Paulo -- área em que concorre com as maiores empreiteiras do país. Após conhecer na pele os efeitos da precária infra-estrutura dos aeroportos brasileiros, Bologna talvez seja mesmo a pessoa certa para comandar a empresa.

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