Revista EXAME -
No início da década de 90, o empresário Sergei Galitsky dirigia um modesto comércio de perfumes e produtos de beleza em sua cidade natal, Krasnodar, no interior da Rússia. A história começou a mudar quando caiu em suas mãos um manual americano sobre as operações do Wal-Mart. Curioso a respeito do modelo de negócios do líder do varejo no mundo, Galitsky gastou 2 500 dólares na tradução do material e passou a estudá-lo de forma obsessiva. Decorou o livro de cabo a rabo e começou a sonhar em construir uma versão russa do Wal-Mart. Com algumas economias acumuladas, fundou em 1998 o supermercado Magnit, utilizando o nada original slogan "Preços baixos sempre". O negócio evoluiu rapidamente e mudou a sorte de Galitsky. Em 2007, o Magnit chegou a 2 000 pontos-de-venda espalhados pela Rússia e a um faturamento de quase 4 bilhões de dólares -- resultado 68% superior ao do ano anterior. Graças ao sucesso de sua rede de supermercados, Galitsky, aos 40 anos, já acumula uma fortuna de 1,9 bilhão de dólares, patrimônio suficiente para bancar sua queda por relógios caros e automóveis Ferrari. "Ele construiu um império a partir do nada", afirma James Fenkner, analista de mercado da financeira Red Star Asset Management em Moscou. "Aposto que existem atualmente muitos outros casos parecidos escondidos na Rússia."
O último ranking de maiores magnatas do mundo produzido pela revista americana Forbes localizou boa parte desses personagens. Segundo o levantamento da publicação, a Rússia possui atualmente 87 bilionários, dos quais 74 estão sediados em Moscou. Com isso, a capital russa desbancou Nova York da condição de cidade com maior concentração de endinheirados no mundo. A metrópole americana possui 71 bilionários, e São Paulo entrou na lista em décimo lugar, com 14 personagens (veja quadro na pág. 64). Outro dado que chama a atenção é o frescor das fortunas. Entre os representantes russos da lista, 34 figuram no ranking pela primeira vez. O rei do varejo Galitsky é um desses novatos. Muitos acumularam seu patrimônio nas duas últimas décadas, sem ajuda do dinheiro do petróleo ou das privatizações suspeitas, até aqui os dois caminhos mais comuns para a formação de fortunas no país após a derrocada do socialismo.
Entre as novas e mais promissoras fontes de riqueza em Moscou, o mercado imobiliário ocupa hoje lugar de destaque. Nos últimos três anos, o preço das propriedades valorizou-se 100%. E deve subir outros 50% até 2011. De acordo com a Inr.ru, consultoria que analisa o mercado imobiliário moscovita, o valor do metro quadrado na cidade custa em média 5 000 dólares, ante 4 600 dólares em Londres. Um dos empresários que melhor aproveitaram esse cenário foi Yuri Zhukov, de 38 anos, dono do PIK Group, atualmente uma das maiores construtoras de imóveis residenciais de Moscou. O PIK Group foi a primeira companhia russa do setor a abrir o capital. Em junho de 2007, Zhukov captou 2 bilhões de dólares por 15% de suas ações oferecidas no mercado europeu. Outros empresários também orbitam em torno da construção civil. É o caso de Georgy Krasnyansky, de 52 anos, um ex-trabalhador de minas de carvão que fez seu primeiro bilhão no ano passado, mesmo com uma participação minoritária na Evrocement, maior fabricante de cimentos da Rússia.
Apesar de trazer à tona uma série de novos rostos, a lista mais recente de magnatas de Moscou não é suficiente para livrar a fama (justa) do Leste Europeu de representar um dos maiores celeiros do mundo de capitalistas polêmicos. "Que ninguém se engane: os jovens empreendedores também dependem de ótimas relações com o governo para enriquecer", afirma Fenkner, da Red Star. A empresária Elena Baturina, de 44 anos e com patrimônio estimado em 3,1 bilhões de dólares, é um exemplo disso. Única mulher russa com fortuna de dez dígitos, ela começou a carreira fabricando mobília de plástico. Mas sua vida andou mesmo a partir de 1992, quando passou a atuar no mercado imobiliário. Sua empresa, a Inteko, é hoje a maior construtora do país, com 20% do mercado. A ascensão nos negócios coincidiu com a eleição do marido de Elena, Yuri Luzhkov, à prefeitura de Moscou. Nos últimos anos, a Inteko ganhou vários contratos municipais, como a construção de 85 000 novos assentos no estádio Luzhniki, o maior da cidade.
| A nova geração de poderosos |
| Os 74 magnatas da capital russa possuem patrimônio de 470 bilhões de dólares. Abaixo, alguns dos novos sócios do clube |
| Gavril Yushvaev |
| 50 anos Sócio da Wimm-Bill-Dann |
| Fortuna 1,1 bilhão de dólares |
| Fez fortuna depois de abrir o capital de sua companhia de leite e sucos. Também investe no mercado imobiliário de luxo |
| Sergei Galitsky |
| 40 anos Sócio-fundador da Magnit |
| Fortuna 1,9 bilhão de dólares |
| Fã e seguidor do modelo de negócios do Wal-Mart,tem mais de 2 000 lojas da varejista Magnit espalhadas pela Rússia |
| Yuri Zhukov |
| 38 anos Fundador do PIK Group |
| Fortuna 6,1 bilhões de dólares |
| Sua construtora de imóveis residenciais abriu o capital em junho de 2007 e captou 2 bilhões de dólares por 15% das ações |
TER CONEXÕES NEBULOSAS com o governo não é nem o crime mais grave que consta do prontuário dos novos magnatas de Moscou. Um deles, Gavril Yushvaev, de 50 anos, chegou a ficar nove anos preso num campo de concentração soviético, ainda nos tempos de comunismo. Em sua ficha consta apenas a observação de que ele fora punido por "roubo com violência". Essa mancha no passado não o impediu de se transformar num dos empresários mais bem-sucedidos do país, com patrimônio de 1,1 bilhão de dólares, construído graças à sua companhia de leite e sucos.
Polêmicas à parte, o fenômeno da multiplicação de bilionários no país retrata, em grande medida, o recente progresso econômico russo. Quando Vladimir Putin assumiu o comando do Kremlin, em 2000, o país não tinha nenhum bilionário na lista da Forbes. O período de alta de preços do petróleo foi o que impulsionou o desenvolvimento do país, que registrou taxa média de crescimento de 7% nos últimos oito anos. Com os tempos de pujança, começaram a se tornar mundialmente conhecidas figuras como a do empresário Roman Abramovich, de 41 anos. Nos últimos anos, ele vinha liderando o ranking de bilionários russos da Forbes. Na lista mais recente, aparece com um patrimônio estimado em 23,5 bilhões de dólares, com investimentos em campos diversos, que vão desde uma participação nas ações da Evraz, maior produtora de aço da Rússia, até o controle do time de futebol Chelsea, na Inglaterra. Abramovich, no entanto, acabou desbancado da posição de número 1 pelo empresário Oleg Deripaska, de 40 anos, dono da maior fortuna da Rússia e nona maior do mundo (28 bilhões de dólares). Ele inaugurou sua indústria de produção de alumínio em 2006, com o dinheiro que juntou como lobista na época das privatizações. O salto definitivo nos negócios ocorreu após a fusão de sua companhia com outras duas empresas para formar a maior produtora de alumínio do mundo, a United Company Rusal.
| A geografia das fortunas | |
| As cidades com a maior concentração de bilionários no planeta | |
| Cidade/País | Número de bilionários |
| 1a. Moscou (Rússia) | 74 |
| 2a. Nova York (EUA) | 71 |
| 3a. Londres (Inglaterra) | 36 |
| 4a. Istambul (Turquia) | 34 |
| 5a. Hong Kong (China) | 30 |
| 6a. Los Angeles (EUA) | 24 |
| 7a. Mumbai (Índia) | 20 |
| 8 São Francisco (EUA) | 19 |
| 9a. Dallas (EUA) Tóquio (Japão) | 15 |
| 10a. São Paulo (Brasil) | 14 |
| Fonte: Forbes | |
A concentração de magnatas acima da média gerou outro tipo de fenômeno na cidade: Moscou transformou-se num grande pólo mundial de atração de eventos sob medida para esse público. Desde 2005, acontece na cidade a feira anual dos milionários. Na última, realizada em novembro, foram exibidos itens como um Bugatti Veyron avaliado em 1,5 milhão de dólares. Mas nem é preciso ir a esse tipo de feira para conferir de perto o padrão atual de consumo da fatia mais rica da população -- e quanto ela gosta de ostentar essas conquistas. As ruas ao redor da Praça Vermelha, no centro da cidade, viraram uma espécie de versão russa da luxuosa Quinta Avenida, em Nova York. "O dinheiro está nas vitrines das lojas de grife e nas roupas das pessoas, que hoje sorriem mais em seus carros novos", afirma Timothy Ennekin, consultor da financeira Tara Capital Fund Enneking, em Moscou. "Todo dia eu vejo pelo menos um Rolls-Royce, três Lamborghinis e meia dúzia de Bentleys pelas ruas da cidade."