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Não é fácil virar uma só

 | 03.04.2008

Empresas que iniciaram aquisições após estrear na bolsa agora têm de integrar várias operações de uma vez

 

Germano Lüders

Kaufmann (à esq.) e equipe da Medial: mais difícil do que o IPO

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Por Suzana Naiditch

EXAME 

Um dos efeitos imediatos da onda de estréias no mercado de capitais é uma série de aquisições protagonizadas por empresas que captaram dinheiro na bolsa. Cerca de 90 companhias lançaram ações pela primeira vez na Bovespa nos últimos dois anos e juntas levantaram 70 bilhões de reais. Nem bem esses bilhões entraram em caixa e já foram destinados à consolidação de setores tão pulverizados como saúde, construção civil e tecnologia (veja quadro acima). Algumas empresas chegaram a investir em novas aquisições mais do que o total captado em seus lançamentos no mercado. A empresa gaúcha de equipamentos industriais Lupatech, por exemplo, investiu 480 milhões de reais para adquirir sete empresas no Brasil e cinco na Argentina -- 20% mais do que captou com sua estréia, em maio de 2006. Passada a euforia das compras, para companhias como Lupatech, Cyrela e Medial começa agora uma etapa tão ou mais desafiante que a de preparação para estrear no mercado: integrar todas as novas operações -- algumas vezes, de uma única tacada -- e fazê-las funcionar como uma só. "A integração de várias empresas ao mesmo tempo é mais difícil do que preparar um IPO", diz o paranaense Luiz Kaufmann, presidente da operadora de planos de saúde paulista Medial.

A primeira dificuldade é que, para muitas dessas empresas, crescer por aquisição representava um passo absolutamente inédito. A Medial, por exemplo, nunca havia comprado uma concorrente em quase meio século de história. A empresa, com vendas de 1,6 bilhão de reais em 2007, adquiriu três empresas desde que abriu o capital -- a rede de laboratórios Endomed, a operadora de planos odontológicos E-Nova e a de planos de saúde Amesp, que fizeram crescer em 50% seu número de beneficiários e dobrar a rede de hospitais e centros médicos. Os três negócios aconteceram entre dezembro de 2006 e março de 2007 -- e as integrações ocorreram ao mesmo tempo. "Como se tratava da primeira vez que muitos profissionais da Medial se envolviam com a compra de outras empresas, buscamos ajuda fora", diz Kaufmann. Ele contratou duas consultorias, a americana McKinsey e a brasileira Gradus, que entre outros trabalhos ajudou a organizar a integração da Brahma com a Antarctica. Enquanto a McKinsey cuidou do aspecto estratégico, a Gradus estudou as sinergias operacionais. No total, sete consultores ajudaram um time de 30 executivos da Medial, divididos por 15 departamentos diferentes, a coordenar a integração. O processo todo levou três meses. "O objetivo era fazer tudo o mais rapidamente possível para reduzir traumas", afirma Kaufmann. Durante esse período, semanalmente os membros do time de integração da Medial enviavam e-mails para os 4 000 funcionários explicando as mudanças. As sinergias resultaram em economia de 60 milhões de reais (a Medial não revela o número de demissões).

Hora de juntar os pedaços
Quanto as estreantes na bolsa estão investindo para comprar concorrentes e qual a maior dificuldade na integração das operações
CYRELA
Estréia na bolsa
Setembro de 2005
Quanto captou
511,5 milhões de reais
Quanto investiu nas compras
Não informa
O que comprou
Tornou-se sócia de nove construtoras
O que eles dizem
"Temos dificuldade de integrar produtos e processos e ainda assim manter as características culturais de cada região"
Antônio Guedes, diretor de novos negócios da Cyrela
LUPATECH
Estréia na bolsa
Maio de 2006
Quanto captou
400 milhões de reais
Quanto investiu nas compras
481,1 milhões de reais
O que comprou
Sete empresas no Brasil e cinco na Argentina
O que eles dizem
"Hoje, temos mais de dez ex-donos como executivos, e gerenciar toda essa rede fez com que eu triplicasse minha agenda de viagnes"
Nestor Perini, presidente da Lupatech
MEDIAL
Estréia na bolsa
Setembro de 2006
Quanto captou
750 milhões de reais
Quanto investiu nas compras
260 milhões de reais
O que comprou
Três empreas
O que eles dizem
"Corremos para integrar três novas empreas em 90 dias para reduzir a ansiedade entre todos os funcionários envolvidos"
Luis Kaufmann, presidente da Medial

Uma saída encontrada por algumas empresas para administrar a integração de várias novas operações num período tão curto é mantê-las relativamente independentes. Nesses casos, os antigos donos viram executivos de filiais e continuam a tocar a empresa -- mas sem a mesma autonomia de um dono. Essa foi a so lução encontrada pela Lupatech, fabricante de equipamentos industriais, que faturou 430 milhões de reais em 2007. Desde que estreou na bolsa, há quase dois anos, a Lupatech fez 12 aquisições -- numa média superior a uma por bimestre. Os executivos da empresa, porém, optaram por unificar apenas as estruturas de apoio, como recursos humanos e tecnologia, e deixar que os antigos donos continuassem à frente das operações. Para tornar esse modelo eficiente, Nestor Perini, fundador e presidente da companhia, decidiu ele mesmo escolher os alvos de compra, sem o intermédio inicial de bancos. "Comprei empresas cujos antigos donos eu conhecia bem, porque teria de me relacionar com eles o tempo todo", diz Perini. Pelo menos uma vez por mês, ele se reúne com os principais executivos das empresas compradas para acompanhar o andamento dos negócios. "É uma correria. Minha agenda de viagens triplicou desde o início das aquisições", diz.

Com o objetivo de evitar a debandada dos antigos donos e dos executivos-chave das empresas compradas, Perini decidiu oferecer a cada um deles um programa de stock options e remuneração variável. A tática funcionou para empresários como o baiano Dante de Azevedo, ex-dono da Petroima, especializada em concretação de poços de petróleo, comprada pela Lupatech em março de 2007. "Muitos ex-donos ficam na empresa porque esse sistema é financeiramente interessante e faz com que as pessoas tenham a sensação de que continuam participando ativamente do destino do negócio", diz Azevedo. Hoje, ele é o responsável pela coordenação das atividades das cinco empresas de petróleo e gás adquiridas pela Lupatech. "A maior dificuldade é fazer todo esse trabalho de integração sem deixar de lado o dia-a-dia da companhia", diz Azevedo. Apesar dos cuidados e do incentivo financeiro, nem todos os antigos donos se adaptaram ao modelo proposto pela Lupatech. Pelo menos um deles deixou a empresa por não conseguir conviver com a falta de autonomia.

Para facilitar o trabalho, algumas dessas novatas têm incorporado práticas comuns aos grandes grupos acostumados à rotina das aquisições, como a adoção de um "manual de operações". A construtora Cyrela, por exemplo, escreveu sua primeira cartilha há cerca de dois anos. "É um manual de gestão que traz controles, indicadores e revisões de processos, mas procuramos adaptá-lo às especificidades de cada região", diz Antônio Guedes, diretor de novos negócios da Cyrela. O manual contém desde a descrição do processo de avaliação e compra de um terreno até a maneira de anunciar os novos prédios e como são geradas e acompanhadas as metas de cada empresa. Esse material já foi distribuído às nove construtoras (oito brasileiras e uma argentina) das quais a Cyrela se tornou sócia desde a abertura de capital -- uma medida fundamental para padronizar todas as atividades, já que todos os antigos donos se mantêm no comando dessas operações. Além disso, a construtora entregou a cartilha a outras 60 empresas com as quais firmou parcerias para erguer alguns empreendimentos fora do estado de São Paulo. Guedes e sua equipe de 40 pessoas verificam, em visitas semanais, se as regras estão sendo cumpridas. É o jeito que a Cyrela, empresa com faturamento de 1,7 bilhão de reais em 2007, encontrou de crescer rapidamente sem perder o mais importante -- a própria identidade.

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