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Colamos na China. Isso é bom?

 | 03.04.2008

O Brasil se beneficiou da explosão da economia chinesa exportando matérias-primas e comprando produtos industriais. Mas esse modelo de comércio cria novos riscos para o país

 

AP

Construção na China: forte demanda por insumos

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Por Angela Pimenta

EXAME 

Assim como costuma acontecer com os casais antes apaixonados, depois de uma entusiasmada lua-de-mel a vida real acabou se impondo nas relações entre Brasil e China. O auge da aproximação bilateral se deu em 2004, ano marcado pelas visitas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Pequim e de seu colega chinês Hu Jintao a Brasília. Na época, ambos assinaram um alentado memorando de intenções. De um lado, o Brasil prometeu reconhecer a potência comunista como economia de mercado. Do outro, a China oferecia reduzir as barreiras contra a carne brasileira. Além disso, Hu Jintao teria sinalizado a Lula que a China apoiaria a entrada do Brasil no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas. Desde então, as promessas foram quebradas e os atritos se multiplicaram. Apesar das divergências, os negócios bilaterais crescem rapidamente. A participação chinesa no total do comércio internacional brasileiro passou de 2% em 1998 para 8,3% no ano passado -- a China tornou-se o segundo país na lista dos que exportam para o Brasil e o terceiro maior comprador de produtos brasileiros. A balança bilateral somou 23 bilhões de dólares em 2007, com superávit de 1,8 bilhão de dólares para os chineses -- valor que, neste ano, pode ir a 5 bilhões. Embora os Estados Unidos ainda sejam de longe o parceiro comercial número 1, o Brasil está cada vez mais próximo da China. Diante da feroz competição chinesa e dos riscos da crise financeira global, chegou a hora de discutir a relação: estar colado à China é realmente um bom negócio para o Brasil?

Com as devidas ressalvas, a resposta é sim. Em primeiro lugar, porque fazer mais negócios com os chineses propiciou maior diversificação das trocas externas brasileiras. Diferentemente do México, por exemplo, que depende dos Estados Unidos para mais de 80% de suas exportações, o Brasil conta com um leque de parceiros: o próprio mercado americano, países da Europa e a Argentina são os principais. A China nos últimos anos se incluiu entre esses, permitindo ao Brasil repartir ainda mais as exportações e as importações.

Outro bom motivo para andar perto da China é o fato de ela ser a nova locomotiva da economia mundial. Com sua voracidade de consumo, tem demandado do Brasil matérias-primas como o minério de ferro, que vira o aço das construções erguidas em metrópoles como Pequim e Xangai, e a soja, que ajuda a alimentar a massa de 1,3 bilhão de pessoas. Como o fluxo tende a crescer, a China deve continuar a subir no ranking dos parceiros globais do Brasil. "De agora em diante, a relação com os chineses será cada vez mais estratégica para os brasileiros", diz o brasilianista Riordan Roett, professor da universidade americana Johns Hopkins. A China também tem beneficiado o Brasil indiretamente, por meio do aumento de preços que provocou no mercado mundial de produtos básicos. A explosão no preço das commodities foi vital para o Brasil obter superávits comerciais desde 2001 e acumular reservas de 200 bilhões de dólares. Tal volume de reservas colaborou para tranqüilizar os investidores e afastar o risco de crises no balanço de pagamentos (leia reportagem sobre contas externas na pág. 36). Há risco de uma desaceleração da economia chinesa causar queda no preço de matérias-primas e pôr tudo a perder? Por enquanto, esse parece ser um cenário remoto. "Os chineses estão aprendendo a fazer um 'pouso suave'. Em vez de crescer 10% ao ano, vão crescer de 7% a 8% e continuar a comprar as commodities brasileiras", diz Roett.

Mas há outro lado da moeda que também merece atenção. Sob esse ponto de vista, o que salta primeiro aos olhos é a inundação do mercado brasileiro e do Mercosul por produtos chineses. A lista se estende de itens de tecnologia, como chips para celulares, computadores e máquinas pesadas, a roupas, calçados e uma infinidade de quinquilharias made in China. Essas importações, em alguns casos, ajudam a complementar a falta de capacidade da indústria brasileira para atender ao crescimento da demanda -- é o que ocorre com os guindastes para construção. Muitas empresas montadoras também têm recorrido a fornecedores chineses de componentes para manter seu produto final competitivo. Em outros casos, como os de bens de consumo populares, são produtos baratos, feitos numa escala com a qual os fabricantes nacionais não têm como concorrer.

Mais trocas com os chineses
O comércio entre Brasil e China decuplicou desde o início da década...
Exportações
  (em bilhões de dólares)
2000 1,1
2001 1,9
2002 2,5
2003 4,5
2004 5,4
2005 6,8
2006 8,4
2007 10,7
Importações
2000 1,2
2001 1,3
2002 1,6
2003 2,1
2004 3,7
2005 5,4
2006 8
2007 12,6
...e fez a China despontar como um dos principais parceiros comerciais do Brasil
Origem das importações brasileiras
  (participação de cada país no total negociado em 2007)
EUA 16%
CHINA 10,5%
Argentina 9%
Holanda 7%
Alemanha 4%
Principais destinos das exportações
EUA 16%
Argentina 9%
CHINA 7%
Holanda 5,5%
Alemanha 4,5%
Fonte: Secex/MDIC

Há quem veja com preocupação essa relação porque estaria relegando o Brasil ao papel de fornecedor de produtos básicos e comprador de manufaturas que tiram o espaço da indústria nacional. "São os chineses que vêm ditando a pauta; nós estamos apenas nos acomodando ao que eles querem", afirma Yoshiaki Nakano, diretor da Escola de Economia da Fundação Getulio Vargas de São Paulo. "Temos de assumir um papel mais ativo e criar uma estratégia de relacionamento com a China." Isso não significaria deixar de aproveitar a vantagem que é ser um grande produtor de insumos que os chineses necessitam em volumes astronômicos. Um caminho seria avançar com produtos mais elaborados. "Em vez de exportar alimentos a granel, o Brasil tem de almejar colocar alimentos já embalados nos supermercados chineses", diz José Ricardo Roriz Coelho, presidente da Vitopel, maior fabricante de embalagens flexíveis do país e interessado na questão. Segundo ele, desenvolver embalagens, design e marca permitirá ao Brasil extrair muito mais valor das commodities.

Some-se a isso o fato de que, com o controle do câmbio para manter suas exportações mais baratas, a China vem deslocando fornecedores brasileiros também em outros mercados. "Devido aos baixos preços dos produtos chineses e ao real forte, as manufaturas brasileiras, como eletroeletrônicos e calçados, têm perdido espaço na Argentina", diz o economista Maurício Claveri, da consultoria argentina Abeceb. O mesmo ocorre no que ainda é o principal mercado do Brasil no mundo: os Estados Unidos. Desde meados do ano passado, o grupo têxtil Rosset deixou de fornecer maiôs às marcas americanas Victoria's Secret e Gap. Concorrentes chineses substituíram a Rosset após a entrada em vigor de um acordo bilateral no setor têxtil com os americanos. Nesse caso, fica flagrante o contraste entre a agressividade chinesa em firmar acordos comerciais e a nulidade do governo brasileiro nesse campo.

O que vai e o que vem
O Brasil vende produtos básicos para a China...
Principais itens exportados em 2007
  (participação no total da pauta)
Minério de ferro 34,5%
Soja 26,3%
Óleos brutos de petróleo 7,8%
Pasta química de madeira 3,9%
Óleo de soja 2,9%
...e compra dos chineses produtos de alta tecnologia
Principais itens importados em 2007
  (participação no total da pauta)
Peças para telefonia 6,5%
Computadores 4,7%
Peças para computadores 4,7%
Dispositivos de cristal líquido 4%
Máquinas, geradores e transformadores elétricos 3%
Fonte: Secex/MDIC

COM ATRASO, O GOVERNO esboça uma reação. Em meados de abril, como parte do plano de política industrial que está sendo preparado pelo Ministério do Desenvolvimento, deverá ser anunciada a criação do grupo China, uma força-tarefa com 18 técnicos de diversos órgãos. "Nossa meta é triplicar as exportações para a China até 2010", diz Welber Barral, secretário de Comércio Exterior do ministério. Entre os produtos a ter prioridade estão carne, frango e óleo de soja. No caso do óleo, a China pratica uma escalada tarifária. Para entrar no mercado chinês, a soja brasileira paga 2% de imposto. Já o óleo é taxado em 26% -- o que mostra que será preciso muito empenho para introduzir produtos mais elaborados. A exportação de carnes é ainda mais complicada, pois depende do governo chinês levantar barreiras fitossanitárias usadas como barganha para forçar o Brasil a reconhecer a China como economia de mercado. "O Brasil devia ter aplicado o reconhecimento o mais cedo possível", diz Jiang Hui, encarregado da seção comercial da China no Brasil. Mas tal reconhecimento, que causou críticas de empresários ao governo Lula, não deverá sair do papel, porque favoreceria a China em disputas com o Brasil na Organização Mundial do Comércio. À medida que o comércio bilateral cresce, as diferenças tendem a proliferar. "O Brasil deve ser cuidadoso ao lidar com a China, que hoje se vê como potência imperial", diz Roett. Segundo ele, a saída é a redução do custo Brasil, com a realização de reformas e investimentos em educação, pesquisa e infra-estrutura. Num seminário promovido em Brasília pela revista inglesa The Economist, o editor Michael Reid disse: "A questão é saber se o Brasil será apenas um exportador de commodities ou será uma potência moderna, como o Canadá, que, além de matérias-primas, tem uma das indústrias mais avançadas do mundo". Está na hora de decidir.

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