A força de uma tradição está diretamente ligada à sua antiguidade. Em instituições financeiras cuja história remonta a meados do século 19, como Goldman Sachs e HSBC, algumas práticas sedimentaram-se com o tempo e tornaram-se parte da carga genética dos bancos. Em 139 anos de história, o Goldman nunca foi presidido por um executivo contratado de fora de suas fileiras. No HSBC, banco inglês com origem em Hong Kong, o comando das principais operações sempre coube a britânicos. Aos 50 anos, o brasileiro Conrado Engel se orgulha de ter no currículo a quebra dessa tradição de 143 anos. Há um ano, ele comanda a operação de varejo do HSBC para a região da Ásia e do Pacífico, a segunda mais importante do banco, atrás apenas da Europa. De seu escritório, no 10o andar de um arranha-céu no centro financeiro de Hong Kong, Engel controla uma carteira de 112 bilhões de dólares em ativos. É mais do que as operações de varejo de Bradesco e Itaú somadas -- uma posição que o coloca no topo das finanças mundiais. "Conrado é um dos grandes talentos do banco", afirma Emílson Alonso, presidente da subsidiária brasileira do HSBC. "Faz todo o sentido a matriz tê-lo recompensado com essa posição."
A operação comandada por Engel é estratégica pelo que é, mas principalmente pelo que pode vir a ser. Hoje, o HSBC tem na Ásia dimensões superlativas. Sob o comando de Engel estão as atividades bancárias de 19 países, que se estendem do Japão ao Cazaquistão, passando por China, Índia e Coréia do Sul. Ao todo, são mais de 25 000 funcionários e cerca de 500 agências. O banco é líder absoluto na região (sua importância é tão grande que o governo chinês dá ao HSBC o direito de imprimir dinheiro). A jóia da coroa é a unidade de Hong Kong, uma das praças bancárias mais sofisticadas do planeta. "Essa subsidiária é responsável por mais de um terço do lucro mundial do banco", afirmou Engel a EXAME. Além da importância atual, a região comandada pelo executivo brasileiro é estratégica pelo enorme potencial de crescimento. O lucro do HSBC na China ainda é tímido. Beira 1 bilhão de dólares. Mas, segundo o mais recente relatório do banco Lehman Brothers, esse número deverá ultrapassar os 5 bilhões de dólares nos próximos cinco anos. "Com a crise americana, o HSBC vai precisar como nunca do lucro que vem da Ásia e dos países emergentes", diz Antonio Bento, vice-presidente da consultoria francesa Solving International, especializada em instituições financeiras.
A CARREIRA DE CONRADO ENGEL pode ser dividida em duas fases. A primeira, de crescimento mais lento. A segunda, de expansão vertiginosa. Formado em engenharia aeronáutica pelo ITA, Engel construiu toda a sua carreira no mercado financeiro. Começou como trainee de tecnologia no Citibank, passou pelo banco Nacional, onde reestruturou a operação de cartões de crédito e, depois disso, ficou três anos no Unibanco, também na área de cartões (ele foi um dos mentores da criação da Visanet). Seu grande salto, porém, ocorreu entre 1998 e 2003, quando presidiu a combalida financeira Losango, então controlada pelo banco inglês Lloyd's. Engel assumiu com a missão de reverter um prejuízo de aproximadamente 10 milhões de reais. Para isso, reuniu um time de nove pessoas com larga experiência no mercado de crédito ao consumidor (a maior parte delas continua na financeira), refez o portfólio de produtos, lançou novos serviços, como crédito para a compra de automóveis, e criou um cartão de crédito com a marca da empresa. A reestruturação colocou a Losango entre as três maiores e mais rentáveis financeiras do país, com lucro de 160 milhões de reais em 2002. "Foi graças ao Conrado que decidimos comprar a financeira", diz Alonso, presidente do HSBC.
No período em que esteve à frente da área de varejo do HSBC no Brasil, Engel manteve a toada dos tempos de Losango. Entre 2004 e 2006, o número de pontos de atendimento do banco passou de 680 para 1 386. A carteira de crédito para pessoa física subiu de cerca de 6 bilhões de reais em 2003 para mais de 13 bilhões de reais em 2006. Essa expansão teve impacto direto no lucro do banco, que saiu de 438 milhões de reais em 2004 para quase 1 bilhão de reais em 2006. Quando o executivo britânico Paul Thurston deixou a operação em Hong Kong, a matriz decidiu apostar em Engel. Segundo executivos que acompanharam as conversas na época, essa foi a forma encontrada pela matriz para resolver um problema sucessório no Brasil, já que Engel e o presidente Alonso começavam a disputar espaço no HSBC (os dois negam veementemente essa versão). "Tive apenas um fim de semana para decidir", afirma Engel. "Mas assumir uma operação desse tamanho é um desafio que não se pode ignorar." O executivo partiu apenas três meses mais tarde e deixou a mulher e os dois filhos no Brasil. Hoje, entre ele e o presidente mundial do banco, Michael Geoghegan, há apenas um degrau hierárquico.
| Conrado Engel, diretor de varejo do HSBC para Ásia e Pacífico |
| Idade 50 anos |
| Formação Engenharia pelo ITA |
| Carreira Comandou a área de cartões de crédito do banco Nacional e do Unibanco. Presidiu a financeira Losango e, depois disso, a área de varejo do HSBC no Brasil |
| Feito De seu escritório, em Hong Kong, comanda 19 operações do banco, com uma carteira de 112 bilhões de dólares em ativos |
| Curiosidade Leitor assíduo de biografias de personalidades como Bill Gates e Napoleão Bonaparte |
A experiência de Engel na Losango é vista como um ensaio do que o HSBC pretende fazer nos países de maior potencial de crescimento da Ásia -- China e Índia. Nesses países, a expansão da economia criou uma classe média emergente ainda com acesso restrito ao sistema bancário. E é aí que entra a experiência de Engel. Sua tarefa é criar uma estrutura de crédito ao consumidor nos moldes do que ele fez na Losango. Ao longo de 2007, Engel cumpriu sua missão com fervor, criando diversos produtos para facilitar essas operações. Foram introduzidas, por exemplo, linhas de financiamento a taxas subsidiadas, que auxiliaram os clientes do HSBC na compra de bens de consumo -- de carros a geladeiras. Ao mesmo tempo, Conrado criou um novo banco pela internet na Coréia do Sul, aperfeiçoou os sistemas de cobrança e reuniu uma equipe especializada na gestão de fortunas (a estratégia permitiu um aumento da ordem de 85% na receita com tarifas). Outro desafio de Engel é a manutenção da habitual liderança no mercado de Hong Kong, hoje ameaçada por bancos estatais chineses, que, apoiados pelo governo, crescem em Hong Kong desde a retomada da cidade pela China, em 1997.
A agressividade do HSBC na Ásia contrasta fortemente com o comportamento que o banco vem adotando no Brasil. Apesar de se tratar de um gigante lá fora, com ativos da ordem de 2 trilhões de dólares, o banco ainda ocupa uma posição tímida no mercado brasileiro. Desde que adquiriu o Bamerindus, em 1997, o HSBC oscila entre a quinta e a sexta colocação no ranking dos maiores bancos privados do país. "É uma questão de prioridade", afirma um ex-executivo do banco. "O Brasil está longe de ser o principal foco de investimentos da matriz." Isso fica mais evidente quando se comparam as estratégias do HSBC e do Santander no Brasil. Nesse mesmo período, o banco espanhol deslanchou no país: saiu da quinta posição em 2000, quando comprou o Banespa, para se tornar o segundo maior banco privado do Brasil em 2007, com a aquisição do ABN. "Para um banco estrangeiro, tanto faz a posição que ele ocupa no mercado brasileiro", afirma Luiz Francisco Rodrigues de Souza, da consultoria Silver Dime, especializada em varejo bancário. "O que conta é o retorno sobre o investimento." Nesse sentido, a subsidiária brasileira está em linha com os demais bancos no país, com retorno sobre o patrimônio líquido da ordem de 25%.
Segundo EXAME apurou, a operação brasileira do HSBC está prestes a passar por uma profunda reformulação. O atual presidente, Emílson Alonso, será promovido em breve para o comando do banco na América Latina. Esse movimento gerou especulações de que Conrado Engel estaria prestes a assumir o banco no Brasil. Caso volte, terá de enfrentar dois grandes desafios. O primeiro é uma brutal diferença entre o mercado asiático e o brasileiro. O HSBC é líder absoluto no continente asiático, com participação de mercado superior a 30% em alguns países. Aqui, a situação é bem diferente. O HSBC ocupa uma posição de mero coadjuvante num mercado dominado por três grandes bancos: Itaú, Bradesco e, agora, Santander. "A operação asiática, apesar de maior, é mais simples que a brasileira", afirma Engel. "Ser o primeiro no ranking facilita bastante a condução do negócio." Além disso, a subsidiária brasileira conta com uma das mais pesadas estruturas de custos do setor. Segundo cálculos da Moody's, a relação custo sobre receita do banco é de aproximadamente 64%, bem acima da média de 45% registrada pelos grandes bancos no mundo. De acordo com executivos que acompanham as conversas, no entanto, a chance de Engel voltar é pequena. Quando perguntado, o próprio executivo desconversa."Tenho saudades do Brasil", diz. "Mas meu trabalho aqui acabou de começar."

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