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A China européia

 | 06.03.2008

Numa onda inédita de crescimento, a Bulgária tornou-se até pólo de atração de investimentos em resorts de golfe

 

Alamy

Sófia: na mira das redes de varejo

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Por Luciene Antunes

EXAME 

Nem nos mais desvairados sonhos capitalistas da população da Bulgária após a queda do Muro de Berlim, no final da década de 80, alguém imaginaria a possibilidade desse ex-satélite comunista um dia se tornar o paraíso do golfe para turistas europeus. Mas é exatamente isso o que vem acontecendo. A Bulgária transformou-se num dos destinos preferidos no mundo para grandes investimentos em resorts destinados à prática de um esporte intimamente ligado aos ricos. No momento, estão sendo construídos no país três grandes campos e outros 24 encontram-se em fase de projeto, totalizando um investimento estimado em 1,3 bilhão de dólares. Algumas obras estão em estágio avançado, como é o caso do Thracian Cliffs Golf & Spa Resort. Avaliado em 150 milhões de dólares e com previsão de inauguração para o segundo semestre deste ano, o resort fica a 4 quilômetros do mar Negro e tem um circuito de 18 buracos assinado por um dos designers mais badalados desse mercado, o sul-africano Gary Player. Com o sucesso do golfe na Bulgária, o governo local -- aparentemente num surto nostálgico -- cogita criar uma empresa estatal exclusiva para coordenar investimentos e projetos relacionados ao esporte. "O turista interessado em golfe tem uma média de gastos diários quatro vezes superior à de um visitante comum", afirma Nicolay Nedkov, presidente da Asta Bridge, uma das maiores empresas imobiliárias da Bulgária.

O fenômeno do circuito das tacadas é reflexo de um dos setores mais aquecidos da economia búlgara. De acordo com estimativas, o mercado imobiliário do país faturou cerca de 17 bilhões de dólares em 2007 e deve crescer de 12% a 20% ao ano até 2010. O ingresso da Bulgária e da vizinha Romênia na União Européia em janeiro do ano passado gerou uma corrida de compradores para a região. Os investidores búlgaros e estrangeiros (sobretudo ingleses, irlandeses, russos e romenos) movimentaram o mercado, prevendo benefícios da adesão ao bloco econômico, como a entrada de verbas para melhoria da infra-estrutura e o livre trânsito entre os países membros. "Apesar da grande valorização, os imóveis e o custo de construção na Bulgária ainda estão entre os mais baixos da Europa, o que é visto como uma grande vantagem pelos investidores", diz a consultora Nina Nikolova, da Bulgarian Land Development, uma das principais construtoras do país. A grande demanda gerou um aumento de mais de 30% no preço dos imóveis e colocou a Bulgária no topo do ranking de valorização do metro quadrado na Europa no ano passado.

Acima da média
A Bulgária tem hoje uma das maiores taxas de crescimento da Europa. Compare alguns de seus indicadores com os de outros países do continente
Crescimento do PIB (2007)
Bulgária
6%
Alemanha
2,7%
Inglaterra
2,7%
França 2%
Desemprego (2007)
Bulgária 5,8%
Alemanha 7,8%
Inglaterra 5,3%
França 7,8%
Evolução do investimento direto estrangeiro (2006)
Bulgária
34%
Alemanha
19%
Inglaterra
-2,8%
França 0,02%
Fontes: Banco Nacional da Bulgária, Eurostat, FMI e Unctad


SEMPRE CONSIDERADA uma economia insignificante no contexto europeu, nos últimos tempos a Bulgária vem colecionando indicadores positivos. Em 2007, seu PIB cresceu 6%, o dobro da média da União Européia, feito que lhe rendeu o apelido de "tigre dos Bálcãs". A onda de desenvolvimento ajudou a derrubar o índice de desemprego de 8,2% para 5,8% em 2007. No bloco econômico, apenas a Polônia conseguiu um desempenho melhor nessa área. Mesmo com uma das taxas mais aceleradas de valorização salarial do mundo no momento, os búlgaros ainda podem ser considerados os chineses da Europa. O custo médio da hora de trabalho de um operário no país é 1,65 euro, ante 6 euros na Polônia e 28 euros na Alemanha. Esse é o principal atrativo para as empresas que decidem investir por lá, nos mais diferentes tipos de negócios. De acordo com uma recente pesquisa da consultoria inglesa Cushman & Wakefield, a capital búlgara, Sófia, por exemplo, ocupa a sexta colocação no ranking das cidades européias mais atraentes para a expansão de cadeias de varejo nos próximos cinco anos.

O bom desempenho econômico no último ano contribuiu para criar um clima de otimismo no país, mas há ainda grandes desafios a ser vencidos. A diminuição do nível de corrupção na Bulgária foi aplaudida pelos comissários da União Européia, mas a situação ainda se encontra num patamar acima do tolerável. Apesar do avanço recente, a renda per capita, de 5 185 dólares, ainda é a mais baixa dos países membros da União Européia. Devido a uma maior disponibilidade de dinheiro no país, facilidades de crédito pessoal e grande aumento do consumo doméstico, a inflação búlgara tem se mantido em níveis alarmantes (a taxa do ano passado foi de 12,5%, um recorde nos últimos anos). O déficit em conta corrente (basicamente o volume de dinheiro emprestado de outras nações para financiar o crescimento búlgaro) ultrapassa os 7 bilhões de dólares, cerca de 20% do PIB do país. A questão do êxodo da força de trabalho representa mais uma preocupação. Diante da possibilidade de parte considerável da população migrar para economias mais poderosas do continente (fenômeno que já atingiu outros países do Leste Europeu), a Bulgária adotou medidas preventivas, facilitando a entrada de estrangeiros no país e estimulando a valorização salarial. O governo sabe que, sem trabalhadores, a continuidade do crescimento do "tigre dos Bálcãs" ficará comprometida.

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