O engenheiro paulista Cassiano Hissnauer, diretor de suprimentos para a América Latina da Ambev, faz parte de um pequeno grupo de funcionários da cervejaria: o dos 43 executivos com potencial para ocupar uma posição de liderança em qualquer subsidiária da Inbev (controladora da Ambev) no mundo. Em junho, esse potencial será posto à prova. Aos 36 anos, Hissnauer vai se mudar para a China na companhia da mulher e das duas filhas. Ele não apenas será o diretor de suprimentos para a região (que inclui também Austrália, Cingapura e Coréia do Sul) como ganhou o desafio extra de gerenciar um escritório que comprará produtos e serviços da Ásia para o resto do mundo. "Hoje, esse processo ainda é feito de maneira bem descentralizada", afirma Hissnauer. Parte importante da preparação que o executivo recebeu para ocupar esse posto foi dada há dois anos. Na época, com outros 39 profissionais da empresa no mundo todo, Hissnauer passou duas semanas enfurnado nas salas de aula de Wharton, escola de negócios da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, e outras duas no Insead, na França. "Trabalho em uma área que cada vez mais seguirá diretrizes globais", diz. "Fui treinado para ter uma visão global do nosso negócio." O modelo de imersão pelo qual Hissnauer passou foi criado há apenas três anos, vem se espalhando por outras empresas e é um sinal da necessidade cada vez maior das corporações brasileiras.
Até 2005, os cursos para o corpo geren cial da Vale eram organizados pela Fundação Dom Cabral, de Belo Horizonte. O antigo modelo de aprendizado hoje atende apenas supervisores e gerentes. Para níveis superiores, o pacote de estudos inclui uma semana no IMD, na Suíça, e outra na Sloan, a escola de administração do Massachusetts Institute of Technology (MIT). Atualmente, a Vale manda para essas duas escolas cerca de 120 executivos por ano, divididos em turmas de, no máximo, 30 alunos.
Um dos principais objetivos desses cursos -- feitos sob medida para grupos fechados -- é expor os executivos ao que há de melhor no ensino de gestão no mundo. Um dos destaques da programação dos alunos da Ambev, em Wharton, por exemplo, é a aula com Ram Charan, o badalado autor do livro Execução -- A Disciplina para Atingir Resultados. As escolas de primeira linha da Europa, como IMD e Insead, são menos profícuas em celebridades. Em compensação, oferecem aos executivos um ambiente de aprendizado ainda mais diverso. "Nosso pessoal precisa ter uma visão cada vez mais ampla de como todos os mercados funcionam", diz Francisco Deppermann Fortes, diretor de recursos humanos do grupo siderúrgico Gerdau. "E as escolas européias são excelentes nisso." Durante os sete dias que passaram no Insead no ano passado, 29 executivos da Gerdau tiveram aulas com professores de Rússia, Portugal, Inglaterra e Estados Unidos.
| Imersão global | |||
| Algumas empresas brasileiras já se aliaram a renomadas escolas de negócios do mundo para preparar seus altos executivos | |||
| Empresa | Com quem tem parceria | Executivos treinados(1) | Duração do curso |
| AMBEV | Wharton, da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, e Insead, na França | 40 | 4 semanas |
| Gerdau | Insead, na França, Duke University, nos Estados Unidos, e Universidade de Hong Kong | 30(2) | 3 semanas |
| Vale | Sloan, do Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos, e IMD, na Suíça | 120 | 2 semanas |
| (1) Média por ano (2) A cada dois anos | |||
Espera-se que, além de absorver as idéias dos mestres, os executivos treinados no exterior desenvolvam um senso maior de cooperação. "À medida que uma companhia se internacionaliza e passa a ter profissionais de várias culturas, torna-se necessário treiná-los num território neutro", diz Richard M. Locke, professor de empreendedorismo e de ciência política do MIT e um dos coordenadores do curso da Vale na universidade. O tal terreno neutro deixa os executivos mais suscetíveis à troca de conhecimento e menos arraigados a suas idiossincrasias, dizem os especialistas. "Nos debates sobre o negócio, pensamos mais no que faz sentido para a empresa como um todo e menos no que é bom para os belgas ou para os brasileiros", diz Hissnauer, da Ambev. A interação também tem beneficiado os executivos da Vale, que descobriram que têm muito a aprender com os colegas da canadense Inco, adquirida pela mineradora brasileira em 2006. "Eles têm muito mais experiência, por exemplo, no relacionamento com governos, comunidades e ONGs, os chamados stakeholders", diz Pedro Gutemberg, diretor de tecnologia e assistência técnica em ferrosos da Vale, que já assistiu a aulas no MIT.
Os resultados desses cursos, na avaliação das empresas, têm sido bons -- e elas já pensam em ampliá-los. A Vale, por exemplo, planeja mais um módulo no exterior. Dessa vez, a idéia é que o MIT e o IMD trabalhem juntos para oferecer aos executivos da empresa um programa centrado no estudo de questões voltadas para a sustentabilidade. A Ambev está estudando com a Wharton a possibilidade de incluir em seu programa uma visita à China, onde seus executivos veriam o que rende tanto assunto em sala de aula.

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