Uma das principais revelações do último campeonato nacional, o zagueiro Breno, de 19 anos, do São Paulo, tornou-se uma espécie de blue chip dos gramados. Ao término da competição, em dezembro, o Bayern de Munique, da Alemanha, pagou 19 milhões de dólares para ficar com o atleta. Breno é mais do que um craque. No pulsante mercado financeiro brasileiro -- ávido por novos tipos de investimento --, ele é um ativo. Sua transferência para o exterior gerou um lucro fenomenal ao DIS, fundo que enxergou que futebol poderia render mais que a bolsa ou imóveis. Capitaneado pelo empresário Delcir Sonda, presidente da cadeia de supermercados batizada com seu sobrenome, o DIS pagou, em junho, cerca de 250 000 dólares por 30% dos direitos federativos de Breno. Após a ida do craque para a Europa, os sócios do DIS receberam 5,7 milhões de dólares. Ou seja, em seis meses eles multiplicaram o capital 2 180%. Nenhuma outra aplicação do período chegou perto dessa marca. "Futebol é uma aposta de alto risco, mas também oferece uma possibilidade de retorno sem igual", afirma Thiago Ferro, um dos proprietários do DIS.
De um ano para cá, fundos de venture capital começaram a surgir no Brasil para negociar jogadores de futebol. Seus gestores enxergam nesse mercado uma forma de diversificar investimentos e ganhar muito em pouco tempo. Em Minas Gerais, um fundo administrado por Estevão Duarte de Assis, dono do Grupo Bretas de Supermercados, possui participação nos direitos de oito atletas do Atlético Mineiro. No Rio de Janeiro, quem atua nesse mercado é o empresário Diniz Ferreira Batista, dono do banco de investimentos Modal. No ano passado, ele criou a empresa MDF para comprar e vender jogadores. Em São Paulo, a Traffic, maior empresa do país na área de marketing esportivo, tem 27 milhões de reais investidos em porcentagens dos direitos federativos de 22 atletas. Nos próximos meses, a Traffic pretende aumentar o capital desse fundo para 40 milhões de reais, atraindo novos sócios. "Em dois anos, prevemos um retorno de 90% a 100% do investimento", afirma Julio Mariz, diretor executivo da empresa.
O mercado nunca esteve tão favorável. Em dificuldades financeiras, muitos times brasileiros aceitam vender uma parte dos direitos federativos dos jogadores. É uma maneira de embolsar imediatamente algum dinheiro pelos craques e, ao mesmo tempo, mantê-los na equipe até que apareça uma proposta de venda vantajosa. Hoje, além das ricas ligas de Alemanha, Espanha, Itália e Inglaterra, equipes de países emergentes, como Turquia e Ucrânia, têm cacife para disputar as maiores revelações. No ano passado, 1 200 jogadores trocaram o Brasil pelos gramados europeus. O número de transferências não chegava a 300 há dez anos.
Pode-se comparar os investimentos em jogadores de futebol com aqueles feitos por empresas de venture capital em negócios recém-nascidos e aparentemente promissores. Quando tudo dá certo, o ganho é alto porque correu-se um risco quase incalculável. Empresas quebram, seus produtos podem ser rejeitados pelo mercado. Jogadores se machucam, perdem a cabeça diante da fama e do que vem agregado a ela ou simplesmente deixam de ter o toque mágico. Para minimizar os prejuízos, seguros contra lesões e acidentes fazem parte do pacote básico dos fundos. Na tentativa de melhorar o grau de acerto de suas apostas, a Traffic montou um departamento encarregado de monitorar jogadores por todo o país. O setor de inteligência está aos cuidados do ex-jogador Dario Pereira, ídolo do São Paulo nos anos 80. A outra frente é a prospecção de negócios no exterior, a porta de saída para os investidores. No episódio da venda do zagueiro Breno para a Alemanha, por exemplo, os sócios do DIS, assim que receberam a informação de que o Bayern procurava um jogador para essa posição, investiram 50 000 reais na produção de um dossiê sobre o atleta contendo um DVD com as principais jogadas e o resultado de um check-up completo para atestar a saúde do craque.
| Lucro espetacular | |
| Em julho do ano passado, o empresário Delcir Sonda pagou 250 000 dólares para adquirir uma participação nos direitos econômicos do jogador Breno, do São Paulo. Cinco meses depois, esse dinheiro virou 5,7 milhões de dólares, por ocasião da venda do atleta ao Bayern de Munique, da Alemanha. Compare o retorno da operação com o de outros investimentos no mesmo período | |
| Poupança | 4% |
| CDI | 6% |
| Ouro | 14% |
| FGV-E | 15% |
| Ações da Vale | 40% |
| Ações da Petrobras | 75% |
| Investimento no jogador Breno | 2180% |
| Fonte: Economática | |
EMBORA AINDA SEJA NOVIDADE por aqui, a tabelinha entre futebol e mercado financeiro já vem ocorrendo há algum tempo no exterior. Na Europa, 37 clubes possuem capital aberto. Empresas de venture capital também atuam na negociação de jogadores em países como a Argentina. Um dos obstáculos para o desenvolvimento desse tipo de negócio no Brasil é a má fama dos cartolas dos clubes e os problemas criados pela MSI, um fundo de investimento internacional que trouxe ao Corinthians, em 2005, craques como os argentinos Tevez e Mascherano. Hoje, esses atletas atuam na Inglaterra e o presidente da MSI, o iraniano Kia Joorabchian, assim como alguns de seus sócios na empreitada, responde na Justiça brasileira a processos por lavagem de dinheiro e formação de quadrilha.
Ao mesmo tempo que tentam mostrar que suas operações são diferentes -- e lícitas --, as novas empresas de capital de risco se preparam para realizar os investimentos em julho, quando se abre a janela de transferências para os clubes da Europa. Uma das grandes apostas do DIS no momento é o meia Thiago Neves, do Fluminense, pelo qual o fundo pagou 1,5 milhão de dólares em troca de 66% de seus direitos federativos. A expectativa é que ele possa ser negociado por 15 milhões de dólares.

CONSTRUÇÃO Construtoras congelam fusões e buscam alternativas
PETRÓLEO Petrobras vai construir refinaria de US$ 11 bi no Ceará