Ensinam os meteorologistas que o olho de um furacão é um lugar tomado por uma estranha calmaria, escapando ileso da tormenta. Até o final de 2007, tal lei da natureza valeu para descrever o mercado imobiliário residencial da ilha de Manhattan, espécie de porto seguro em meio ao furacão subprime. Ao contrário do restante do mercado americano, que ao longo do ano passado registrou queda média de 15% nos preços, o metro quadrado em Manhattan teve uma surpreendente valorização de 18% em relação a 2006. Os dados são da empresa de avaliação Radar Logic, principal referência desse segmento na cidade. Mas, diante da profunda deterioração dos indicadores econômicos americanos nas últimas semanas, os mais influentes analistas do mercado imobiliário de Manhattan agora prevêem que os preços dos imóveis na ilha terão queda em 2008, criando boas oportunidades para investidores brasileiros que tenham pelo menos 500 000 dólares no bolso, um faro certeiro e uma boa dose de sangue-frio para ir às compras em meio à tempestade.
As oportunidades nascem da combinação de dois fatores básicos: a queda nos preços dos imóveis aliada a uma desvalorização mais profunda do dólar em relação ao real. Segundo o site Economy.com, pertencente à agência de classificação de risco Moody's, o preço dos imóveis residenciais em Manhattan deve cair, em média, 8% até o final de 2008, permanecendo estável em 2009. Quanto ao câmbio, assim que a fase atual de volatilidade passar, a estimativa é que a moeda americana feche o ano com desvalorização de 4% a 10% em relação ao final de 2007. Caso tais previsões se confirmem, os imóveis em Manhattan ficarão entre 12% e 18% mais baratos para o investidor brasileiro. Para quem sempre sonhou em ter um lar na Big Apple, esta é a hora certa para começar a acompanhar o mercado imobiliário -- embora o melhor momento de efetivamente fechar um negócio seja mais próximo do final deste ano.
O PRIMEIRO PASSO PARA uma boa aquisição é selecionar os bairros com potencial de valorização, que só deve se materializar a partir de 2010. De acordo com o avaliador Jonathan Miller, diretor de pesquisa da Radar Logic, as melhores fatias de Manhattan estão ao longo das duas margens do Central Park, no Upper East e Upper West Sides, além do Village, do Soho e de Tribeca, no sul da ilha. "Historicamente, essas regiões apresentam menor volatilidade de preços", diz Miller. Por outro lado, ele não indica três bairros que devem sofrer um período mais longo de desvalorização: Wall Street, a região de Times Square e toda a porção ao norte do Central Park. Uma vez definido o lugar, o segundo passo é decidir-se por um imóvel novo ou usado. A vantagem do segundo tipo é o preço. A opção mais compacta de apartamen to à venda em Manhattan são os estúdios com cerca de 50 metros quadrados de área. Em imóveis do gênero, o preço do metro quadrado oscila entre 9 900 e 11 000 dólares. Já para apartamentos do mesmo tamanho mas com porteiro e elevador, os preços giram em torno de 13 000 dólares por metro quadrado. Tais valores se aplicam aos edifícios tipo condomínio (chamados de condos), em que cada proprietário é dono de uma unidade específica. Esse não é o caso dos co-ops, espécie de cooperativa de moradores. Com uma estrutura mais burocrática, os co-ops nova-iorquinos têm menor liquidez, pois cada venda deve ser aprovada pelo conselho de proprietários, tornando os imóveis pelo menos 10% mais baratos.
Mesmo antes da esperada queda nos preços para os próximos meses, Nova York já desperta o interesse de endinheirados de todas as partes do mundo. "Graças à desvalorização do dólar, cerca de um terço dos compradores dos imóveis em Manhattan são estrangeiros", diz o corretor Robson Lemos, vice-presidente da corretora Corcoran. Quando se trata de Manhattan, os investidores não dormem no ponto.
