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A transformação de Pequim

 | 06.03.2008

Com os projetos olímpicos, os chineses têm o grande desafio de mostrar que acabou a fase de construir tudo muito rápido abrindo mão da qualidade e passando por cima das normas ambientais e trabalhistas

 

Ricky Wong/Sinopix

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Por Fernando Valeika de Barros, de Pequim

EXAME 

A próxima Olimpíada, marcada para acontecer em Pequim, só começará no próximo dia 8 de agosto, quando o relógio do Estádio Nacional marcar, pontualmente, 8 horas da noite, 8 minutos e 8 segundos. Os chineses continuam a ser um povo supersticioso e acreditam que o número 8 seja um símbolo de boa sorte. Esse horário também marcará o final de uma corrida iniciada pelo governo de Pequim em 2001, quando a cidade foi escolhida para abrigar os Jogos. Nesses sete anos, as autoridades chinesas se dedicaram a reformar e erguer instalações, construir uma vila olímpica com capacidade de receber 16 000 atletas e, acima de tudo, mudar a face de uma das maiores e mais caóticas metrópoles do mundo. A primeira impressão de alguém que desembarca na cidade a cinco meses do início dos Jogos é que está diante de uma cidade devastada recuperando-se das cicatrizes de uma guerra. Ao som quase ininterrupto dos bate-estacas e das ferramentas, cerca de 9 000 obras são executadas quase simultaneamente nos limites da capital da China. Apesar do cenário de confusão que salta aos olhos dos visitantes, as autoridades do Comitê Organizador da Olimpíada de 2008, mais conhecido pela sigla Bocog, garantem que tudo segue no ritmo planejado. "Dos 37 estádios e ginásios que serão utilizados nos Jogos, 36 já estão prontos", afirmou a EXAME Jiag Xiaoxu, vice-presidente do órgão.

Alguns desses projetos são enormes e espetaculares, como o Estádio Nacional, conhecido como Ninho de Pássaro, com capacidade para 91 000 pessoas, uma construção com contornos emaranhados que utilizou 42 000 toneladas de aço. O estádio deve ser inaugurado até o final deste mês. A poucos metros de distância, foi entregue em fevereiro o Cubo d'Água, um edifício azulado com estilo moderno, no qual as 130 000 toneladas de água usadas nas piscinas e nos vestiários serão recicladas. Há tarefas ainda mais hercúleas, como a que movimenta um formigueiro de operários que correm para finalizar antes de julho as duas torres em forma de imensos "L" (a maior delas com 230 metros de altura), concebidas pelo holandês Rem Koolhaas e erguidas por aproximadamente 750 milhões de dólares. Nesse complexo futurista irão trabalhar cerca de 10 000 funcionários da CCTV, a maior emissora de televisão chinesa. Entre as obras já concluídas encontra-se o moderno terminal 3 do aeroporto da cidade, com 1 milhão de metros quadrados de área construída (ou seja, é duas vezes maior do que o terminal londrino de Heathrow) e que custou 1,9 bilhão de dólares.

Estão na reta final uma nova ferrovia de alta velocidade (exatamente para ligar o aeroporto ao centro da cidade), mais três linhas de metrô, novos sistemas de tratamento de água e esgoto e telecomunicações e gigantescos projetos de reurbanização que estão varrendo da face de Pequim quarteirões inteiros de hutongs -- os centenários cortiços construídos desde a dinastia Ming -- e transformando-os em centros comerciais e prédios residenciais e de escritórios de última geração. "Desde que começaram a erguer a Grande Muralha, há 2 200 anos, os chineses são um povo treinado para fazer grandes obras", disse a EXAME o americano Jeff Ruffolo, consultor sênior do Bocog.

Esse complexo pacote de renovação urbana foi estimado -- por baixo -- em 38 bilhões de dólares. O gerente da infra-estrutura olímpica é o engenheiro metalúrgico Liu Qi, presidente do Bocog. Ex-prefeito de Pequim, ele diz conhecer a cidade como a palma de sua mão. Deixou o cargo em 2001, o mesmo ano no qual uma das cidades mais poluídas do planeta foi escolhida para organizar os Jogos prometendo uma "Pequim Grandiosa, com Olimpíada verde e alta tecnologia". Desde então, Qi é o maestro dessa transformação. Um dos 23 membros do comitê supremo do Partido Comunista da China e considerado atualmente o burocrata mais poderoso de Pequim, Qi coordena uma equipe de 16 executivos, que cuidam de tarefas como a definição da localização de estádios e ginásios iluminados por energia solar e ecologicamente corretos, a compra dos terrenos, o planejamento das obras e a fiscalização das construções.

Construções Olímpicas

As características dos projetos que mudarão a face da capital da China até os Jogos de 2008, em agosto
Floresta Olímpica
Custo
216 milhões de dólares
Responsável pelo projeto
A Prefeitura de Pequim
Características
Três bolsões verdes — o maior com extensão de 680 hectares — ajudarão a proteger a cidade da poeira que sopra em sua direção desde o deserto de Gobi
Situação da obra
Será entregue em julho
Piscina Ecológica
Custo
200 milhões de dólares
Responsável pelo projeto
Um consórcio que reuniu os arquitetos da australiana PTW, a consultoria de engenharia Arup e engenheiros chineses
Características
Além de dar um belo efeito azulado ao prédio, o uso de placas de etileno tetrafluoretileno ajudou a reduzir custos. Cada metro quadrado de fibra de vidro custaria 3,5 vezes mais caro
Situação da obra
Inaugurada no final de janeiro
Ninho de Pássaro
Custo
486 milhões de dólares
Responsável pelo projeto
A empresa de engenharia suíça Herzog & de Meuron
Características
O estádio de 91 000 lugares consumirá 42 000 toneladas de aço em sua e strutura, três vezes o pe so da Torre Eiffel. É feito em um estilo que lhe v aleu o apelido de Ninho de Pás saro. Tem painéis fotovoltaicos capazes de produzir energia equivalente à que seria gerada pela queima de 103,8 toneladas de carvão por ano
Situação da obra
Será completamente inaugurada em março
Vila Verde
Custo
480 milhões de dólares
Responsável pelo projeto
O Comitê Chinês de Desenvolvimento e Reforma
Características
A residência de 16 800 atletas durante os Jogos é uma cidade ec ologicamente correta. Tem 6000 metros de painéis fotovoltaicos para captar energia solar, 70% do total para fazê-la funcionar
Situação da obra
Finalizada no final de janeiro
Trem-Bala
Custo
1,5 bilhão de dólares
Responsável pelo projeto
O Ministério dos Transportes da China e a empr esa Tangshan Locomotive Plant, que usa tecnologia da alemã Siemens
Características
Trens capazes de de slizar a até 300 km/h lig arão Pequim a Tianjin em apenas meia hora de viagem. Hoje o percurso é realizado em 70 minutos
Situação da obra
Ficará pronta em junho
Os responsáveis pela festa
Quem são os organizadores e os trabalhadores encarregados de tocar o projeto Pequim 2008
Quem faz
80 000 operários envolvidos na construção dos estádios para a Olimpíada
Perfil
Em sua maioria, são recrutados nas províncias centrais do país, ganham 15 reais por dia de trabalho e moram em casas pré-fabricadas ao lado das obras
Desafio
Deixar todas as instalações prontas até o final do mês de março

Além da integração de vários núcleos de administração, uma explicação para revelar como esse pacote de obras anda nos trilhos é que não falta verba para tocá-lo. Há no caixa da China 1,4 trilhão de dólares de reservas. Sem falar no reforço do dinheiro de investidores que enxergaram na festa olímpica uma boa oportunidade para fazer negócios no maior mercado consumidor do planeta. E há muito mais para saciar o apetite de qualquer consultor ou empreiteiro, mesmo depois do encerramento da Olimpíada, no dia 24 de agosto. Para sediar a Exposição Universal de 2010, Xangai deverá consumir 41 bilhões de dólares em obras. Para organizar os Jogos Asiáticos no mesmo ano, em Cantão, serão necessários mais 27 bilhões em investimentos. É muito dinheiro em jogo, e participar da renovação em Pequim é um bom começo para estreitar laços, ganhar fama e fazer parte da festa que é hoje o setor de infra-estrutura na China. Isso explica por que a Olimpíada de 2008 já é considerada um sucesso comercial antes mesmo que a pira do Estádio Nacional seja acesa. Só os patrocinadores colocarão 1,5 bilhão de dólares no evento, o equivalente a três vezes o que se arrecadou nos Jogos de Atenas, em 2004, e o dobro do obtido na australiana Sydney, no ano 2000.

Os recursos são geridos por um sistema de decisões centralizado e à prova de contestações -- algo que ajuda a explicar a velocidade impressionante das obras e que dificilmente poderia ser reproduzido em países com tradição democrática. Grandes projetos, como hidrelétricas, ferrovias e as obras da Olimpíada, são elaborados dentro do próprio governo, mais especificamente nos Planos Qüinqüenais e na gigantesca Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma. A obra aprovada já sai dessas instâncias com seus relatórios de impacto ambiental e de orçamento avaliados por ministérios e diversas agências envolvidas. Entre os órgãos encarregados de fazer esses estudos está a Agência Estatal de Proteção Ambiental, geralmente acusada por ONGs ocidentais de fazer vista grossa para problemas graves. Uma vez iniciados os trabalhos, o governo preocupa-se apenas com o cumprimento do cronograma. Não há instâncias capazes de paralisá-los para discutir alguma questão levantada pela sociedade, como ocorre com freqüência no Brasil por ação do Ministério Público. A ferrovia Qinghai­Tibete, por exemplo, que passa por 18 reservas naturais ao longo de seus 1 142 quilômetros de extensão no território chinês, foi construída no prazo de apenas quatro anos. A título de comparação, apenas as discussões ambientais em torno da viabilidade do trecho sul do rodoanel de São Paulo, com 175 quilômetros, consumiram os mesmos quatro anos. E a previsão de entrega da estrada é 2010 -- caso as obras não sejam paralisadas no meio do caminho por alguma ação na Justiça.

 

EM SEU PROJETO OLIMPICO, AS AUTORIDADES DE PEQUIM vêm se esforçando para mostrar que mudaram suas idéias e métodos de gestão para erguer grandes obras de infra-estrutura. Desde o Grande Salto Adiante, conduzido por Mao Tsé-tung, os chineses se especializaram em construir centenas de obras de forma rápida e simultânea, alheias às questões trabalhistas e ambientais. É esse modo de fazer -- impensável em países com instituições consolidadas -- que explica, por exemplo, a execução de Três Gargantas, a maior usina hidrelétrica do mundo. A obra foi iniciada no final dos anos 80 sem levar em conta impactos ambientais e sociais e atropelando os custos. Orçada inicialmente em 20 bilhões de dólares, sua conta final será 3,5 vezes maior. Durante a construção, dezenas de fissuras foram detectadas, o que levou o então primeiro-ministro chinês, Zhu Rongji, a declarar que "o concreto utilizado em Três Gargantas tinha a consistência de um tofu". Além de prejuízos financeiros, no caso de Três Gargantas e de outras grandes obras de infra-estrutura, as autoridades do país tiveram de encarar as críticas internacionais, cada vez mais fortes em relação ao modelo de desenvolvimento chinês. A construção da represa da hidrelétrica fez submergirem 90% dos 8 000 sítios arqueológicos das redondezas. Mas na região do Parque Olímpico as autoridades do Bocog mudaram o local do Cubo d'Água para poupar o templo taoísta de Niang Niang Miao, uma das relíquias descobertas durante as construções, ao lado de tumbas, vasos e jóias dos tempos da dinastia Ming.

Os chineses também tentaram atacar questões como o controle da poluição e a gestão da execução de obras. Cerca de 13 bilhões de dólares foram investidos para transferir 212 fábricas poluidoras para outras regiões do país, fechar outras 700, plantar 28 milhões de árvores, limpar todos os rios e lagos do perímetro urbano de Pequim e encontrar novas fontes de energia mais limpas do que o carvão mineral, um combustível tradicionalmente usado em fornos industriais e mesmo domésticos na China. É evidente que os chineses não abriram mão do desenvolvimento econômico e industrial em nome do meio ambiente e dos elogios das autoridades internacionais. As fábricas, mesmo as poluentes, não deixaram de funcionar. Apenas estão poluindo outras regiões, longe dos Jogos. A China nunca consumiu tanto carvão quanto atualmente -- trata-se da forma de energia que ainda sustenta o crescimento de dois dígitos do país. A Pequim da Olimpíada é, em boa medida, uma vitrine para um novo marketing da China. Ainda que com todas as mudanças, a atmosfera carregada de fumaça da capital chinesa tira o sono dos organizadores. Há dias em que o ar fica tão esfumaçado que é impossível enxergar o topo dos edifícios mais altos mesmo com o sol brilhando no horizonte.

Ao menor sinal de que a poluição ameace fugir ao controle nos dias de competição, será decretado o rodízio de metade dos carros, retirando das ruas algo como 1,3 milhão de automóveis. Para tentar eliminar a poeira fina que passou a fazer parte da paisagem de Pequim com a proliferação de canteiros de obras, a promessa é que todas elas deverão estar concluídas até o primeiro trimestre de 2008 ou serão imediatamente paralisadas. "Faremos o que pudermos para melhorar a situação na cidade", afirma a meso-tenista Deng Yaping, quatro vezes medalhista de ouro olímpica e atual diretora da vila olímpica de Pequim. O maior receio dela e dos membros do Bocog é o vexame de ver delegações desembarcarem na cidade em cima da hora para competir ou mesmo atletas serem flagrados com máscaras de proteção nos treinamentos.

São problemas sérios e que exigiram uma postura diferente da que os chineses tiveram nos últimos anos em busca de soluções. O resultado foram regras que acabaram por selecionar o melhor que o mundo poderia oferecer em termos de projeto e consultoria. É necessário fazer o megaeroporto de Pequim? Pois que se contrate sir Norman Foster e seu premiadíssimo escritório. Precisa-se conceber um estádio com desenho inovador para marcar o evento? Abra-se outra licitação e ganhe-se o suporte de empresas do calibre dos suíços Jacques Herzog e Pierre de Meuron (autores da londrina galeria Tate).

Apesar de toda a propaganda em torno da Olimpíada, houve um considerável desgaste entre as autoridades de Pequim e vastos setores da população. Para consumar a transformação urbana a passos acelerados, calcula-se que 300 000 casas foram demolidas e 1,5 milhão de pessoas despejadas. Como acontece em qualquer desapropriação, o governo chinês indenizou os ocupantes do imóvel. Muitos deles acharam a oferta pequena demais para deixar suas casas e os protestos começaram a ganhar as ruas com faixas e também barulhentas passeatas. Protestos semelhantes ocorrem em Xangai, onde daqui a dois anos será organizada a Exposição Universal, cuja área central também passa por uma metamorfose semelhante à que ocorre na capital. No Brasil, possivelmente as obras seriam paralisadas nos tribunais por uma chuva de liminares. Na China, os trabalhos seguiram adiante. "Os tribunais chineses foram instruídos pelas autoridades a não aceitar nenhuma demanda de despejados", afirma o ativista Nicholas Becquelin, ligado ao Observatório de Direitos Humanos, sediado em Hong Kong.

Outro ponto de atrito considerável entre o governo da China e organizações humanitárias são as condições de trabalho dos 80 000 operários envolvidos na construção de estádios e outras obras de renovação urbana. A precariedade das condições de trabalho, somada à pressa para concluir os projetos no prazo, já teria ocasionado a morte de uma dezena de operários, isso apenas nas dependências do Ninho de Pássaro, de acordo com uma reportagem divulgada recentemente pelo jornal inglês Sunday Times. Depois de primeiro desmentir a notícia, o Departamento de Proteção ao Trabalho da prefeitura de Pequim admitiu a morte de seis trabalhadores.

Episódios como esse mostram que há ainda uma grande distância entre as intenções e as práticas adotadas pelas autoridades de Pequim. A cinco meses da abertura da maior Olimpíada da história, os chineses cumpriram parte da lição de casa que tinham pela frente. Deverão fazer a festa por 15 dias, quando heróis como o recordista mundial dos 110 metros com barreiras Liu Xiang e o melhor jogador de tênis de mesa do mundo, Wang Liqin, poderão levar o país a uma conquista recorde de medalhas de ouro (cerca de 40, de acordo com projeções -- que evidentemente podem ou não se confirmar). Se a organização fracassar, o evento pode representar uma grande peça de contrapropaganda, expondo ao mundo as mazelas de um tipo de capitalismo que, apesar das façanhas atuais de crescimento, terá problemas para se mostrar um modelo sustentável no médio e longo prazos. Na hipótese mais otimista, a maior festa de esportes pode marcar uma mudança de atitude na nação mais populosa do mundo e, principalmente, em sua capital -- de um cenário esfumaçado, poluidor e socialmente injusto para outro, bem melhor. Resta saber que preço o acelerado desenvolvimento chinês pagará por isso.

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