As estatísticas são como os biquínis", disse certa vez o diplomata e político brasileiro Roberto Campos. "Mostram tudo, mas escondem o essencial." Para os empreendedores brasileiros, as estatísticas são especialmente cruéis. Em meio à miríade de dúvidas que cerca a criação de uma companhia, os empresários têm uma certeza -- a chance de tudo dar errado é bem maior que a possibilidade de o negócio florescer. Um terço das empresas criadas no Brasil vai à falência antes de completar um ano de existência, e cerca de 60% fecham as portas antes de cinco anos. Dito isso, é preciso aplicar a essa numeralha a regra de Roberto Campos: se mostram como é difícil criar empresas de sucesso no Brasil, essas estatísticas escondem o que realmente interessa. Espalham-se pelo país histórias pouco conhecidas de empresários que venceram as dificuldades e criaram negócios bem-sucedidos. A trajetória do mineiro Ricardo Tavares é exemplar. Ele é um especialista em fundar ou comprar pequenas empresas, fazê-las crescer, incomodar os concorrentes e depois vendê-las a multinacionais. Com o dinheiro no bolso, lá vai ele iniciar o ciclo outra vez. "Meu negócio é criar empresas", diz ele. "E para isso é preciso ter coragem e disposição para correr riscos."
Aos 46 anos, Tavares tem dois negócios grandes no currículo -- e já aposta no terceiro. Ele tinha apenas 21 anos quando iniciou o primeiro, ao comprar a pequena e quebrada torrefadora de café Três Corações. Tavares e sua família criaram novos produtos que chamaram a atenção do consumidor e transformaram a empresa. O principal deles foi o cappuccino em pó, que ganhou 70% do mercado nos anos 90. Com o desempenho da marca, a Três Corações atraiu a cobiça do grupo israelense Strauss-Elite, que comprou a companhia, em 2000, por 41 milhões de dóla res. Dois anos depois, Tavares resolveu investir a parte que lhe coube na venda da torrefadora de café no mercado de sucos prontos. Em sociedade com o grupo WRV (dos ex-controladores dos supermercados Mineirão), montou a Sucos Mais. Com três anos de vida, a Sucos Mais superou marcas tradicionais como a Santal, da Parmalat, e a Maguary, da Kraft, alcançando a segunda posição no mercado, atrás da líder, a mexicana Dell Vale. Não demorou muito para ser vendida à Coca-Cola, por 110 milhões de reais. Tavares começou, agora, a tocar outro projeto, a processadora Trop Brasil, que produz polpa de fruta. A empresa já nasceu superando um desafio comum a qualquer companhia novata: firmou um contrato de longo prazo com um cliente de peso. A Trop vai abastecer, por um período de dez anos, toda a produção de sucos prontos da Coca-Cola, que detém 10% do mercado.
O mineiro Tavares é o que os especialistas classificam de empreendedor serial, um personagem raro num mercado tão pouco afeito ao risco quanto o brasileiro. Trata-se de um tipo de empresário que, em geral, aprecia os desafios associados à criação de novos negócios, mas se sente entediado na hora de administrar o cotidiano da empresa. Quando alcançam o sucesso, empreendedores como Tavares simplesmente vendem o negócio e partem para outra. "Esse tipo de empreendedor está atento a diferentes setores e não concentra seus recursos num segmento específico do mercado", diz Afonso Cozzi, professor do núcleo de empreendedorismo da Fundação Dom Cabral, de Belo Horizonte. Diferentemente de seus parentes, que optaram por seguir no ramo de café após a venda da Três Corações, Tavares resolveu olhar para oportunidades com maior potencial de retorno -- e as encontrou no mercado de sucos. "Sua obsessão por trabalho chega a ser inconveniente", diz um amigo. "Até em eventos sociais ele prospecta novos negócios."
| Ele faz, ele vende | ||
| Os negócios do empresário mineiro Ricardo Tavares que atraíram a atenção de grandes grupos internacionais | ||
| Empresa | O que faz | O que aconteceu |
| Café Três Corações | Produtora de café conhecida por seu cappuccino, atingiu 70% do mercado nacional nos anos 90 | Em 2000, foi vendida por 41 milhões de dólares para a companhia de alimentos israelense Strauss-Elite |
| Sucos Mais | Fabricante de sucos prontos que se tornou a segunda marca mais vendida no país | Em 2005, a empresa foi vendida para a Coca-Cola, líder do mercado de sucos, por 110 milhões de reais |
| Trop Frutas do Brasil | Recém-criada processadora de polpa de fruta para fabricantes de sucos prontos | Acaba de firmar um contrato de venda para a Coca-Cola, por dez anos, da ordem de 600 milhões de reais |
INCONVENIENTE OU NÃO, o fato é que Tavares tem colecionado vitórias no mudo empresarial. Para honrar o compromisso com a Coca-Cola e fazer da Trop Brasil mais um sucesso em seu currículo, ele criou seis cooperativas no estado do Espírito Santo e firmou um acordo que lhes garante a venda das frutas com um lucro de 20% sobre o custo de produção. Além disso, estimulou novos pólos de fruticultura, em parceria com o governo do Espírito Santo, para abastecer sua fábrica de polpa de frutas. Inicialmente, serão processados goiaba e maracujá. Nos próximos anos, ele pretende estender a produção para abacaxi, caju, mamão, manga e pêssego. Para a Coca, o contrato com a Trop Brasil proporcionará, no longo prazo, uma redução de aproximadamente 7,5% no custo de aquisição das polpas de frutas. A multinacional economizará no frete e não terá custos com estocagem, uma vez que a fábrica da Trop Brasil está localizada estrategicamente em frente à da Minute Maid Mais. Além disso, as polpas processadas pela empresa sairão para a Coca 5% mais baratas do que a menor cotação do mercado, de acordo com o contrato firmado. A decisão de apostar no processamento de frutas foi a alternativa encontrada por Tavares para não concorrer com a Coca após a venda da Sucos Mais e continuar no segmento de sucos prontos, que cresce, anualmente, acima de 12% no Brasil. Segundo a consultoria Monitor, o consumo per capita de sucos prontos é de 4 litros no Brasil, enquanto nos Estados Unidos é de 37 litros, e no México, de 25 litros. O plano de Tavares é transformar a Trop Brasil na maior processadora de frutas do país em quatro anos. Isso, claro, se ele não vender a empresa até lá.