O ano de 2007 foi o pior da história do Citi, maior banco privado do mundo em ativos. A crise do mercado imobiliário americano custou-lhe um rombo de 18 bilhões de dólares, uma das maiores perdas já registradas no setor. O lucro caiu 83%, para pouco mais de 3,6 bilhões de dólares. Mais de 20 000 funcionários devem ser demitidos para estancar uma crise que quase levou o banco à bancarrota. E, quem diria, em meio a essa espécie de circo dos horrores, uma surpresa positiva veio de um país onde durante muito tempo o Citi só colheu resultados modestos -- o Brasil. Aqui, a operação presidida pelo uruguaio Gustavo Marin teve o melhor ano de sua história. Em 2007, o Citi brasileiro alcançou um lucro líquido de 1 bilhão de dólares, quase um terço do lucro global (mesmo tendo receitas inferiores a 1% do total mundial do banco). Trata-se de um enorme salto para uma operação que, apenas um ano antes, havia registrado um prejuízo de 50 milhões de reais. "Foi um dos melhores desempenhos de uma subsidiária do Citi no ano passado", diz um executivo do banco, que não quis se identificar. "Todas as nossas metas foram superadas."
Dos pilares que sustentaram a recuperação do Citi no Brasil, o mais importante é a processadora de cartões de crédito Redecard. Por anos, a empresa foi uma aparentemente inesgotável fonte de problemas, mas a manutenção do controle deu resultado no ano passado, quando o Citi vendeu 7% de sua participação na abertura de capital da Redecard. O negócio rendeu 400 milhões de dólares aos cofres do banco. Outras áreas ligadas à operação tornaram-se rentáveis, entre elas o banco de investimento. O Citi encerrou 2007 na liderança do mercado de assessoria a fusões e aquisições no Brasil. No total, o banco concentrou 31 operações, que somaram 17 bilhões de dólares, sete vezes mais que o inicialmente previsto. Segundo um concorrente, o lucro dessa área (que tem cerca de 30 profissionais) alcançou cerca de 100 milhões de dólares no ano passado. Finalmente, o banco realizou uma virada na área de câmbio. Em 2007, quase 20% de todas as conversões realizadas no Brasil passaram pelo Citi -- um volume de 130 bilhões de dólares. Isso fez com que o banco passasse para o topo do ranking de operações de câmbio pela primeira vez na história, ultrapassando o Banco do Brasil, e lucrasse outros 100 milhões de reais.
O bom resultado da operação brasileira não poderia ter vindo em melhor hora para o Citi. Para compensar parte da colossal perda de dinheiro com a crise imobiliária, a matriz tem contado com o socorro de fundos soberanos de países emergentes. O resto virá da venda de ativos do banco no mundo. Nesse sentido, o Brasil vai desempenhar um papel de destaque. "Trata-se de um dos poucos países do mundo com gordura para queimar sem comprometer a operação do banco", afirma o analista de um grande banco de investimento. Estima-se que o Citi no Brasil poderá contribuir com até 2 bilhões de dólares para a matriz em 2008. A primeira parte viria da venda de outros 6% da participação do Citi na Redecard, operação que pretende levantar 500 milhões de dólares. Outro objetivo é conseguir 1,3 bilhão de dólares com a venda da participação do Citi na Solpart, a holding que controla a Brasil Telecom, empresa atualmente em negociações para uma fusão com a Oi. "O Brasil saiu de uma posição de mero coadjuvante para se tornar uma das operações mais importantes do banco no mundo", afirma Alberto Mathias, especialista em mercado financeiro da ABM Consulting.
| Um lucro desproporcional | |
| A operação brasileira do Citi, que representa menos de 1% do total mundial, foi responsável por 30% do lucro do banco no ano passado | |
| Faturamento | |
| (em bilhões de dólares) | |
| Mundo | 81,7 |
| Brasil | 4(1) |
| Lucro | |
| Mundo | 3,6 |
| Brasil | 1(1) |
| (1)Estimativa | |
Apesar da importância que adquiriu, a operação brasileira ainda tem de enfrentar alguns obstáculos para continuar crescendo. O maior desafio será tornar a atividade de varejo mais rentável. Segundo o último relatório da agência de classificação de risco Standard & Poor's, a rentabilidade do banco ainda é uma das menores do setor. A financeira Citi Financial, que ainda não deu lucro, também é fonte de preocupação para alguns executivos do banco. Segundo seus planos, a operação tem de estar plenamente azeitada até o início de 2009, quando deverá mudar o nome para Credicard. "A ordem é ampliar a participação do banco na área de crédito para consumo", afirma um executivo que deixou o Citi há poucos meses. A crise na matriz, porém, pode atrapalhar tudo. "É possível que, depois de um ano excelente, eles passem por um período de certa letargia como reflexo da situação na matriz e da falta de investimentos", afirma Tamara Berenholc, da Standard & Poor's, consultoria especializada em classificação de risco. O cenário que se avizinha é de competição ainda mais acirrada entre os bancos, sobretudo com a chegada do Santander à vice-liderança do ranking. O HSBC já começa a se movimentar para ocupar uma fatia mais relevante do mercado (a instituição é uma das interessadas na compra do BMG). Além disso, entre 2006 e 2007 o Citi se beneficiou do vácuo deixado pela venda do BankBoston ao Itaú, situação que não deverá se repetir neste ano. A grande dúvida, portanto, é se o Citi vai seguir a trajetória de 2007 e continuar ajudando a matriz -- ou se vai voltar a atrapalhar.

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