O empresário goiano João Alves de Queiroz Filho anunciou em fevereiro a mais ambiciosa tacada de sua carreira -- a abertura de capital da Hypermarcas, companhia fundada por ele em 2002. Até hoje, o negócio mais famoso de Júnior (como ele é conhecido) havia sido a venda da Arisco para o grupo americano Bestfoods, em fevereiro de 2000, por 760 milhões de dólares. Essa transação deu ao empresário fama de midas e dinheiro para começar de novo. Pois o que veio a seguir deixou claro que a venda da Arisco foi apenas uma demonstração preliminar de seu potencial de criação de riqueza. Júnior comprou a então pequena Assolan e, com um investimento inicial de 30 milhões de dólares, começou a montar o que é hoje o mais diversificado grupo de marcas com capital nacional. No início deste ano, Júnior sentiu que sua empresa estava preparada para o grande teste da abertura de capital. De acordo com os cálculos de analistas especializados em empresas de bens de consumo, a Hypermarcas valerá algo entre 4 bilhões e 6 bilhões de reais na bolsa. E os 30 milhões de dólares inicialmente investidos por Júnior se transformarão num patrimônio aproximado de 3 bilhões de reais -- tudo isso num espaço de apenas seis anos.
A expectativa em torno da abertura de capital da Hypermarcas se deve ao caráter único que a empresa adquiriu ao longo dos últimos anos. Por meio de uma série de aquisições, Júnior criou um portfólio de mais de 50 marcas, hoje presentes no cotidiano de milhões de brasileiros. A lista é impressionante, e está dividida em quatro segmentos principais. O ramo de alimentos conta com Finn, Etti e Zero Cal. O núcleo de higiene pessoal, Monange e Cenoura & Bronze. O setor de medicamentos tem marcas como Doril, Gelol, Biotônico Fontoura e Engov. Finalmente, a Assolan reina no braço de limpeza da Hypermarcas. O grupo de Júnior fatura hoje 1,4 bilhão de reais e teve em 2007 uma geração de caixa de 253 milhões de reais. O cerca de 1,5 bilhão de reais que, estima-se, a empresa espera levantar com a emissão de ações será usado para acelerar seu crescimento (ou seja, nenhum centavo irá para o bolso do fundador da empresa). A perspectiva de que esse universo de marcas levante tanto dinheiro para sua expansão leva os especialistas a prever uma nova onda de aquisições, o que manteria vivo um sonho que Júnior não faz questão alguma de esconder: criar uma "Unilever brasileira", mesmo que em miniatura. A companhia anglo-holandesa, segunda maior empresa de bens de consumo do mundo, faturou mais de 100 bilhões de dólares no ano passado.
| Marcas que valem bilhões |
| Com mais de 50 rótulos, a Hypermarcas quer enfrentar as grandes multinacionais |
| Alimentos |
| 14 Produtos Principais marcas Etti, Finn e Zero Cal |
| Higiene pessoal |
| 11 Produtos Principais marcas Monange, Cenoura & Bronze, Avanço e Leite de Colônia |
| Medicamentos |
| 17 Produtos Principais marcas Gelol, Doril, Engov, Melhoral e Biotônico Fontoura |
| Limpeza |
| 13 Produtos Principais marcas Assolan, Assim e Sim |
O ARQUITETO POR TRAS da Hypermarcas é um homem discreto em sua vida pública e extravagante em sua vida privada. Raras foram as entrevistas que concedeu, e não se tem notícia de fotografias de Júnior expostas além das paredes de seu apartamento, na zona sul de São Paulo, ou das casas de suas três filhas. (Procurados por EXAME, Júnior e os demais executivos da Hypermarcas não concederam entrevistas por estar em período de silêncio imposto pela Comissão de Valores Mobiliários, a CVM.) Tamanha discrição destoa de seus hábitos pessoais. Júnior gosta de luxo. Nos fins de semana, pilota uma moto BMW GS 1200 e dirige seu Aston Martin DB9 de 1,15 milhão de reais, único exemplar do lendário carro do agente James Bond em circulação no Brasil (para não chamar a atenção, circula num Santana durante a semana, sem motorista ou seguranças). Os filmes da série 007 são seus prediletos e também o inspiram na hora de se vestir. Uma de suas grifes preferidas é a italiana Brioni (que confecciona os ternos de James Bond). Júnior também aprecia relógios. Em sua coleção há marcas como Franck Muller e Patek Philippe, que podem custar mais de 100 000 dólares cada um. Para longas viagens, o empresário usa um avião Citation X de 40 milhões de dólares, o jatinho mais veloz do planeta. Nos passeios marítimos, desfruta de uma de suas três lanchas. Júnior adora o mar. Alterna temporadas no litoral norte paulista com idas a Saint Barth, no Caribe. Para a festa de casamento de sua filha mais velha, em novembro do ano passado, Júnior mandou erguer uma tenda no Jockey Club de São Paulo e contratou a cantora Ivete Sangalo para animar os convidados. Apesar do ambiente repleto de celebridades, como a apresentadora Xuxa e o ex-piloto Nelson Piquet, nenhuma foto do casamento vazou para a imprensa.
À frente dos negócios, Júnior é descrito como um empresário que ouve poucos, mas os ouve muito. Seus homens de confiança são os executivos Nelson Mello e Claudio Bergamo, respectivamente o presidente da Hypermarcas e o diretor financeiro da empresa. Mello trabalha com Júnior há três décadas e é responsável pela área comercial. Bergamo, ex-consultor da McKinsey, é o cérebro por trás das absorções de empresas adquiridas. Fora da estrutura da Hypermarcas, Júnior mantém relações estreitas com dois banqueiros de investimento oriundos do Goldman Sachs -- Ricardo Lacerda, hoje no Citigroup, e Michael Lynch, ex-sócio do banco americano. O relacionamento entre os banqueiros e Júnior começou nos anos 90, quando o Goldman comprou uma participação na Arisco. No fim da década de 90, a empresa passou por uma grave crise financeira, o que teria estreitado os laços entre eles. O Citigroup, banco dirigido por Lacerda, é o coordenador-líder da abertura de capital da Hypermarcas. "Ele confia muito nos dois quando o assunto é a estratégia global da empresa", diz um amigo de Júnior, que, assim como muitos outros, só aceitou conceder entrevista a EXAME na condição de não ter seu nome revelado.
| O tempero virou império |
| Os principais momentos da carreira de João Alves de Queiroz Filho, o Júnior, dono da Hypermarcas |
| 1969 |
| Começa a produzir e vender um tempero para carnes feito com sal, pimenta-do-reino, alho e cebolinha: nasce a Arisco |
| 2000 |
| Vende a Arisco para a americana Bestfoods por 760 milhões de dólares. No mesmo ano, a anglo-holandesa Unilever assume a marca |
| 2002 |
| Compra a marca Assolan e investe mais de 20 milhões de reais em sua primeira campanha de marketing. Inicia uma onda de aquisições que resulta na Hypermarcas |
| 2007 |
| Investe cerca de 1 bilhão de reais na compra da DM Farmacêutica, dona de marcas como Doril, Gelol e Biotônico Fontoura. É sua maior aquisição |
| 2008 |
| Pede o registro da abertura de capital da Hypermarcas. Estima-se que o grupo levantará cerca de 1 bilhão de reais com sua emissão de ações |
APESAR DE GOSTAR DE OUVIR seus executivos mais próximos, Júnior é dono de um estilo de decisão marcado pela confiança em sua intuição. Em meados do ano passado, a Hypermarcas caminhava aceleradamente rumo à sua abertura de capital, mas Júnior decidiu interromper o processo para negociar a compra da DM, líder do mercado nacional de medicamentos vendidos sem prescrição médica, com faturamento de 490 milhões de reais. Na época, o mercado acionário vivia um período de euforia, o que conferia uma espécie de garantia de sucesso à emissão de ações de uma empresa considerada sólida, como a Hypermarcas. Indo em direção contrária ao conselho de seus executivos, Júnior começou a conversar com o empresário Nelson Morizono, dono da DM. "Quando ele quer alguma coisa, é difícil convencê-lo do contrário", diz Abbos Abrarpour, amigo de Júnior há mais de 30 anos e um dos poucos que aceitam falar publicamente sobre o empresário. As negociações foram complexas. Para levantar os recursos, Júnior se associou a quatro banqueiros mexicanos -- Roberto Hernández, Alfredo Harp Helú, José Aguilera Mendrano e Esteban Malpica. O empresário negociou simultaneamente a sociedade com os mexicanos e a compra da DM, e fechou o negócio por 1,1 bilhão de reais. Com isso, seu plano de atingir um faturamento de 1 bilhão de reais foi encurtado em três anos.
A compra da DM foi o ápice de um movimento iniciado por Júnior em 2002, quando comprou a Assolan e pequenas fábricas de lã de aço em estado pré-falimentar. Seu objetivo era criar um conglomerado de consumo diversificado, sempre a partir de marcas subaproveitadas. Em pouco tempo, a participação de mercado da Assolan passou de 5% para 25%. Em seguida, adquiriu a Fisibra, fabricante de esponjas e panos de limpeza, e uma fábrica de detergentes e limpadores multiúso da Unilever. Em 2005, Júnior comprou duas fábricas e lançou suas marcas de detergente em pó. No ano seguinte, o empresário voltou para a área de alimentos com a compra da Etti, tradicional fabricante de molhos de tomate e vegetais enlatados. Ele raramente cria rótulos, exceção feita aos sabões em pó Sim e Assim. Com a aquisição da DM, seu objetivo é ressuscitar marcas como Vitasay, Avanço e Monange. Ao mesmo tempo que conquistou novas marcas para explorar, Júnior deu um salto em seu plano de diversificar a atuação da Hypermarcas, entrando nos segmentos de higiene pessoal e medicamentos.
Aos 55 anos, Júnior é um apaixonado por competição. Com 1,65 metro de altura, cabelo preto dividido ao meio e pele morena, ele nada todos os dias, seja na piscina do prédio em que mora, seja na academia que freqüenta. Mesmo os mais próximos sofrem com seu mau humor quando é derrotado em competições informais de natação. "Ele fica furioso se alguém faz um tempo melhor que o dele na piscina", diz uma amiga. Os passos que tem dado à frente da Hypermarcas ajudam a vislumbrar o tipo de competição que Júnior terá pela frente. O acalentado sonho de se tornar a "Unilever brasileira" vai, inevitavelmente, insuflar uma reação das líderes -- a própria Unilever e a americana Procter & Gamble. A linha de produtos das grandes multinacionais é muito mais ampla e variada do que a da Hypermarcas, voltada basicamente para os segmentos de preço mais baixo, o que lhes garante margem de manobra para atacar a rival menor em nichos estratégicos, como o de sabão em pó. Com a aquisição da DM, porém, a Hypermarcas ficou menos exposta a eventuais ataques das rivais "Ele pode perder rentabilidade nos segmentos de higiene, limpeza ou alimentos, nos quais as concorrentes são fortíssimas, e compensar parte dessas perdas na área de medicamentos", diz um executivo concorrente.
Ao acessar o mercado de capitais para financiar o crescimento de sua empresa, Júnior busca nos pequenos investidores novos sócios para sua ambiciosa empreitada. A abertura de capital deve ser uma das maiores dos últimos tempos, e é certamente uma das mais aguardadas. Num momento em que o tamanho das empresas que vão à bolsa tende a diminuir, o surgimento de uma companhia como a Hypermarcas tende a causar rebuliço. É nessa hora, porém, que os especialistas recomendam calma aos investidores. O caso da Bovespa Holding é o mais exemplar. Sua abertura de capital atraiu enorme atenção no ano passado, e as ações tiveram valorização de 50% no primeiro dia de negociação. Começaram o pregão valendo 23 reais e terminaram valendo 35. Segundo as expectativas, o valor de mercado da Bovespa seguiria subindo nos meses seguintes. No início do ano, porém, as ações voltaram ao patamar dos 20 reais. Fenômeno semelhante aconteceu com os papéis da BM&F, que fez outra concorrida abertura de capital no ano passado. Com a ida à bolsa, Júnior iniciará uma fase inteiramente nova em sua trajetória. A necessidade de abrir segredos facilitará a vida de seus concorrentes, e o incansável escrutínio imposto pelo mercado será certamente um imenso desafio para um empresário tão acostumado a dar pouca atenção à opinião pública. Júnior, então, passará por um dos maiores testes de sua carreira. É na bolsa que ele descobrirá se pertence ou não à categoria de empresários que usam seu talento para enriquecer não apenas a si mesmos -- mas aos outros também.
