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O poder da especulação

Livro mostra como, em pouco mais de um século, o mercado de capitais passou de pária a dominador da economia americana
Por Cristiane Mano
 
Por Cristiane Mano  | 07.02.2008

Revista EXAME - 

Na virada do século passado, um artigo publicado pelo jornal americano The Wall Street Journal fazia um alerta aos investidores: "Como uma regra geral, ações não deveriam ser consideradas investimento". Na mesma época, o The New York Times usava um tom ainda mais incisivo ao responder a um leitor que perguntava se deveria comprar ações de uma empresa que estava se valorizando. A afirmação categórica do jornal: não. Segundo o diário, o mercado de capitais equiparava-se a "apostas em corrida ou jogo de cartas". As recomendações dos dois jornais -- que soam anacrônicas nos dias de hoje -- refletem com precisão a fase de estranhamento entre cidadãos comuns americanos e o emergente mercado de capitais da época. É justamente esse o ponto de partida do livro The Speculation Economy ("A economia da especulação", numa tradução livre), escrito pelo americano Lawrence E. Mitchell, professor de direito da renomada Universidade George Washington. Recém-lançada nos Estados Unidos (e ainda sem previsão de publicação no Brasil), a obra relata em detalhes como a desconfiança inicial rapidamente foi superada e o mercado financeiro se tornou indissociável da economia e da sociedade americanas. Segundo o autor, a mudança protagonizada pelo mercado de capitais representa o equivalente econômico à criação da República para a política.

O livro disseca com habilidade o contexto de negócios e também as razões culturais que levaram ao avanço incrivelmente veloz do mercado de capitais nos Estados Unidos. Embora a bolsa de Nova York tenha aberto as portas em 1792, o grande salto veio apenas um século depois, com a onda de fusões e aquisições de empresas -- sobretudo entre 1897 e 1903, quando se formaram as primeiras grandes corporações americanas. Nessa onda, impulsionada por uma nova legislação que passou a permitir a emissão e a troca de ações para pagamentos no lugar do dinheiro vivo, criaram-se gigantes como a siderúrgica U.S. Steel Company, em 1901. Aos poucos, as figuras centrais do capitalismo deixaram de ser os empreendedores e passaram a ser os grandes banqueiros envolvidos nos gigantescos negócios de fusões de empresas e de emissões de ações. Um dos mais célebres dessa nova fase da economia americana foi John Pierpont Mor gan, fundador do banco homônimo JP Morgan.

Apesar dos banqueiros aristocráticos e do colossal volume de dinheiro que começava a circular, nos primórdios o mercado de capitais era uma espécie de "terra de ninguém". Sem regulação e livre de qualquer exigência, as empresas americanas começaram a emitir tantas ações quanto quisessem -- o que levou ao fenômeno da supercapitalização da indústria. Segundo pesquisas da época, as indústrias listadas na bolsa de Nova York emitiam ações num valor equivalente ao dobro do total de seus ativos. Além disso, não era necessário que as empresas fizessem uma divulgação transparente dos resultados financeiros. O empresário George Westinghouse, por exemplo, ficou mais de uma década sem publicar nenhuma informação financeira sobre a Westinghouse Electrics. Em sua defesa, o empreendedor relatou numa carta que o conselho de administração havia decidido que a publicação não era "do interesse de todos". A falta de regulação levou a várias crises, como as de 1903 e 1907 e, mais tarde, a de 1929 -- esta última deu origem a um órgão regulador, a Securities and Exchange Comission (SEC).

Apesar da falta de transparência e das crises, o interesse do cidadão médio pelo mercado de capitais não arrefecia. Segundo Mitchell, os investidores persistiram em tantos reveses porque a idéia de comprar ações aderiu perfeitamente à aspiração de propriedade individual existente na sociedade americana. "A compra de ações serviu para a manutenção da iniciativa individual numa sociedade que migrava da propriedade rural para o trabalho nas grandes corporações", diz o autor. Em apenas duas décadas, o número de investidores mais que triplicou, de 4 milhões, em 1900, para 14 milhões, no início dos anos 20.

The Speculation Economy
Editora Berrett-Koehler, 395 págs.
Autor
O americano Lawrence E. Mitchell
Por que ler
Para entender o contexto cultural e de negócios
que permitiu a rápida ascensão do mercado
de capitais nos Estados Unidos — e os perigos
dessa transformação
"A economia da especulação é aquela na qual a gestão do negócio centrada na produção é substituída por uma gestão voltada para o preço da ação no mercado"

O avanço do mercado de capitais, destaca Mitchell, trouxe uma mudança radical na gestão das grandes corporações -- influência que se estende até os dias de hoje. Critérios como produtividade e eficiência operacional deixaram de ser as principais preocupações dos administradores. Ao longo das últimas décadas, a insaciável cobrança dos investidores por resultados de curto prazo transformou-se no principal foco de atenção dos executivos. A tradicional máxima "O que é bom para a GM é bom para os Estados Unidos", disseminada por um presidente de conselho da montadora nos anos 20, cedeu espaço a algo como "O que é bom para Wall Street é bom para toda a economia americana". A cultura do curto prazo fez com que a lógica do mercado financeiro se sobrepusesse à da indústria. Segundo o autor, uma recente pesquisa mostrou que 80% dos 400 diretores financeiros de grandes companhias americanas tomariam medidas que pudessem comprometer os resultados de longo prazo do negócio para manter os do trimestre. Trata-se de uma constatação perigosa. Olhar para trás, segundo Mitchell, é a única maneira de entender como o mercado americano chegou a esse ponto.

 
 
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