Nos últimos três meses, o executivo gaúcho Francisco Olinto Velo Schmitt cumpriu uma rotina extenuante. Entre setembro e dezembro ele visitou mais de 50 bancos, corretoras e gestoras de recursos independentes do Rio de Janeiro e de São Paulo, onde se apresenta como o novo diretor da área de relações com os investidores da Grendene -- função antes ocupada interinamente pelo presidente e principal acionista da empresa, Alexandre Grendene. Munido de um notebook, Schmitt mostrou aos gestores e analistas uma exibição em PowerPoint dos números da companhia gaúcha -- crescimento de 10% nas vendas entre janeiro e setembro de 2007, aumento de 22% na receita com exportações e antecipação de pagamento de dividendos a acionistas. O périplo do executivo da Grendene é uma tentativa de reverter o desinteresse do mercado pelos papéis da empresa. Desde a estréia na bolsa de valores, em outubro de 2004, as ações da Grendene nunca mais voltaram ao valor inicial, de 30 reais, e hoje estão em cerca de 20 reais. No mesmo período, o Ibovespa valorizou-se 160%. Levando-se em conta o desempenho das empresas que abriram o capital nos últimos quatro anos, a Grendene tem o segundo pior resultado, à frente apenas da CSU CardSystem.
A peregrinação de Schmitt, por enquanto, não teve nenhum efeito nas cotações. "Foi um esforço incomum, louvável, mas a empresa ainda precisa mostrar mais para apagar a imagem ruim que tem no mercado", diz Denílson Duarte, gestor de renda variável da Máxima Asset Management, uma das instituições visitadas. A imagem ruim a que Duarte se refere começou a se formar a partir dos maus resultados que a empresa teve logo depois da abertura de capital e ganhou volume após a desastrosa forma como a Grendene passou a se comunicar com o mercado. Na estréia na bolsa, assim como outras empresas que abriram o capital na mesma época, a Grendene foi bem -- as ações subiram 11% no primeiro dia. A lua-de-mel, no entanto, durou pouco. Castigada pela valorização do câmbio -- a empresa exporta 15% do que produz -- e por uma coleção de calçados que não caiu no gosto dos consumidores, a empresa não conseguiu cumprir a promessa de crescimento anual de 20%, que vinha sustentando entre 2001 e 2004. As vendas caíram 12% em 2005, enquanto concorrentes como a São Paulo Alpargatas mantiveram o pique. Nos contatos com analistas durante o período de crise, a Grendene optou por não admitir os problemas, mantendo o compromisso de expansão -- que simplesmente não se concretizou. Os investidores não perdoaram: rejeitaram os papéis da empresa e, em maio de 2005, as ações caíram 60% em relação ao valor inicial.
A chegada de Schmitt à Grendene -- o quarto diretor de relações com os investidores em três anos -- coincide com a recuperação da empresa. O portfólio de novos produtos tem sido bem aceito e a Grendene é considerada bem posicionada no mercado, com uma estratégia de marketing azeitada. No entanto, o estigma sobre a companhia prevalece. "A falta de transparência nas comunicações iniciais não foi esquecida pelos investidores", diz Paolo Mason, sócio da corretora Alpes. A troca constante de profissionais responsáveis pelo contato com o mercado reflete o tom da conflituosa relação da Grendene com o mercado. Inconformados com o desabamento das cotações no primeiro ano, alguns investidores voltaram-se até mesmo contra o banco Pactual, coordenador da oferta de ações. "O mercado se convenceu de que o Pactual havia estipulado um preço alto demais na estréia e cobrou uma atitude do banco", diz um profissional que trabalhou no IPO da empresa. O Pactual decidiu indicar um dos executivos que participaram do lançamento, Marcus Peixoto, para o cargo de diretor de relações com os investidores. A partir desse momento, a empresa passou a dar previsões até mais conservadoras do que as que corriam no mercado e a detalhar melhor os números. Resultado: a comunicação melhorou sensivelmente. Foi quando as ações saíram do patamar de 12 para 22 reais. Peixoto, no entanto, entrou em rota de colisão com o dono da empresa e deixou o cargo um ano depois.
| A Grendene na bolsa | |
|
Variação da ação
(em reais) |
|
| 15/9/07 | 24,56 |
| 19/10/07 | 23,59 |
| 5/12/07 |
22,45 |
| 19/1/08 | 19,01 |
| Fonte: Economática | |
A recuperação da companhia é resultado de um esforço baseado em corte de custos e reposicionamento de marcas. Os calçados Melissa passaram a ser vendidos em butiques sofisticadas no Brasil e no exterior, por preços superiores a 50 dólares, e, para compensar a valorização cambial, a empresa começou a exportar produtos de maior valor agregado, como as sandálias da marca Ipanema Gisele Bündchen, com a top model à frente de uma arrojada campanha publicitária. Apesar dos avanços, o mercado dá demonstrações de que ainda quer ver mais da Grendene. A recuperação inicial das ações perdeu o fôlego, e o preço segue na casa dos 20 reais -- bem abaixo, portanto, do valor da estréia. "O mercado compra expectativa de crescimento, e a empresa ainda não mostrou que tem fôlego para manter a expansão", diz Rafael Weber, analista de consumo da Geração Futuro. Os investidores demonstram também uma particular má vontade com Alexandre Grendene. "Ele é um dono centralizador, mas que apesar disso não participa do dia-a-dia da empresa", diz um profissional que trabalhou no lançamento de ações da companhia. Alguns analistas acreditam que uma solução para o problema seria o controlador deixar o cargo e integrar apenas o conselho de administração. Schmitt afasta qualquer possibilidade de isso acontecer. "O presidente participa das decisões estratégicas da empresa e a diretoria é profissionalizada", disse ele a EXAME. Parece que o executivo ainda tem muito trabalho de convencimento pela frente para conquistar o interesse dos investidores.
| O que leva os investidores a rejeitar a Grendene |
| Apesar do crescimento de 10% nas vendas em 2007, a Grendene não tem bom desempenho na bolsa. Os principais problemas: |
| Os erros de comunicação com o mercado no passado ainda pesam, mesmo com os esforços dos executivos para tornar a empresa mais transparente |
| A Grendene insiste em seguir os passos da Alpargatas na busca por uma participação relevante no mercado externo apesar da valorização cambial |
|
A alta do petróleo, matéria-prima do plástico usado em suas sandálias, representa uma ameaça à estrutura de custos |
| Seu principal acionista, Alexandre Grendene, é visto como pouco comprometido com o negócio.A presença da família controladora na direção também incomoda |

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