Revista EXAME -
Em tempos de sustentabilidade, conceber novas maneiras de cuidar do meio ambiente virou obsessão de praticamente todas as grandes companhias do mundo. O gigante Wal-Mart, por exemplo, quer cortar 30% da conta de energia elétrica de suas cerca de 2 070 lojas nos Estados Unidos até 2010. A fronteira mais ambiciosa desbravada nesse campo, porém, está fora (e muitas vezes longe) dos portões das empresas. Em todo o mundo, companhias como Apple e Sony começam a se esforçar para apagar os rastros de impacto ambiental do último elo de seu ciclo produtivo: o descarte dos produtos após o consumo. Nos últimos anos, muitas delas passaram a recolher os próprios equipamentos usados para depois reaproveitar a matéria-prima na linha de produção (veja quadro). A fabricante de celulares americana Motorola, por exemplo, que iniciou a coleta de celulares usados em 2004, recolhe por ano 2 500 toneladas de equipamentos, o equivalente a cerca de 3,5% de suas vendas (e é uma das poucas a publicar esse tipo de estatística). Agora, algumas começam a estender os esforços ao Brasil. O caso mais recente é o da HP, que em dezembro habilitou um centro de serviço autorizado em Sorocaba, no interior de São Paulo, a receber baterias e impressoras descartadas pelos clientes. A meta é ter pelo menos 60 deles até o final de 2008.
Trata-se de uma mudança radical na maneira como as empresas têm de pensar seu negócio. Até agora, as companhias se limitavam a assegurar que seus produtos chegassem às prateleiras. O que o consumidor fazia com eles não lhes dizia respeito. Hoje, elas começam a trilhar o caminho inverso, o do consumidor de volta à empresa -- num movimento conhecido como logística reversa. Esse esforço foi iniciado por duas razões principais. A primeira é a crescente pressão de ONGs, que defendem a redução da produção de lixo do planeta, es pecialmente o gerado pelo consumo de equipamentos eletrônicos. Nos últimos tempos, o Greenpeace tem se dedicado a uma série de manifestações contra o lixo eletrônico. Em julho de 2007, ativistas da ONG montaram uma torre com peças de computador em frente ao Ministério das Comunicações e Tecnologia da Informação da Índia. Nas últimas semanas, incentivaram o envio de mensagens de protesto a fabricantes de consoles de videogames contra a falta de reciclagem de equipamentos usados.
Também os governos estão mais atentos à questão -- a segunda razão a impulsionar a logística reversa. Nos últimos meses, vários países têm buscado endurecer a legislação referente a questões ambientais. É o caso do Japão, um dos mais severos em relação às metas de reciclagem obrigatória, que inclui 33 produtos, entre os quais televisores, geladeiras e computadores. "As empresas mais avançadas estão revendo toda a cadeia produtiva, desde os fornecedores, para tornar os produtos mais recicláveis lá na frente", diz André Carvalho, especialista em logística reversa da Fundação Getulio Vargas de São Paulo.
Para colocar em marcha esse novo processo, porém, o ponto de partida é convencer os consumidores a devolver os aparelhos velhos em vez de jogá-los no lixo. Para estimular os consumidores a colaborar na reciclagem, lá fora companhias como Apple e Sony oferecem descontos na compra de produtos novos a quem devolve um usado nas lojas. Por aqui, essa prática é rara. "Esse é um ponto sensível, sobretudo porque a população não está conscientizada ainda sobre a importância da reciclagem", diz André Vilhena, diretor da Compromisso Empresarial para Reciclagem (Cempre), associação dedicada à promoção da reciclagem. Outra dificuldade é estruturar um sistema eficiente para a coleta desses produtos. A investida da operação brasileira da HP, por exemplo, prevê a adaptação de lojas da marca até então dedicadas apenas a vendas e assistência técnica. "Ao usar as lojas já existentes, conseguimos diminuir custos", diz Kami Saidi, diretor de operações para o Mercosul e líder do comitê de sustentabilidade da HP Brasil. Após a coleta, o material é encaminhado para dois centros próprios da HP para reciclagem nos Estados Unidos.
Algumas empresas, como a Motorola, preferem delegar o desmanche a terceiros. A subsidiária brasileira, que desde agosto de 2007 recolhe celulares usados, envia o material para a belga Umicore, dona de uma tecnologia para recuperar 17 metais de aparelhos eletrônicos. Parte do material reciclado volta para a Motorola, parte é vendida a consumidores como siderúrgicas. "Colocamos os materiais de novo no mercado e evitamos que poluam o meio ambiente", afirma Luiz Ceolato, gerente de meio ambiente da Motorola. Nos próximos anos, é quase certo que muitas outras empresas, dos mais diferentes setores, sigam a mesma trilha.
| De volta à origem | |
| Como empresas de todo o mundo começam a reaproveitar nas linhas de produção equipamentos descartados pelos consumidores | |
| 1 | Campanha O primeiro passo é convencer o consumidor a devolver os equipamentos usados aos fabricantes. No exterior, empresas como Apple e Sony oferecem crédito para a compra de novos produtos em troca da devolução dos usados |
| 2 | Coleta Para minimizar custos, empresas começam a montar postos de coleta nas lojas já existentes. AHP do Brasil, por exemplo, deve adaptar 60 lojas de assistência técnica para a coleta até o final deste ano |
| 3 | Processamento Depois de recolhidos, os produtos são desmontados. No Japão, a Toyota possui um centro próprio para separar matérias primas. Outras companhias, como a Motorola, vendem o material a empresas especializadas nesse desmanche |
| 4 | Reaproveitamento Aetapa final é levar as peças devolvidas de volta à linha de produção. Hoje, a Motorola recicla quase 2 500 toneladas de equipamentos, o equivalente a cerca de 3,5% de suas vendas anuais. Ou seja: ainda há um longo caminho a ser percorrido |