O homem da foto acima, Lloyd Blankfein, presidente do banco americano Goldman Sachs, está rindo sozinho. Enquanto seus concorrentes não param de anunciar perdas bilionárias causadas pela crise do setor imobiliário nos Estados Unidos, o Goldman teve um lucro recorde de 11,6 bilhões de dólares nos 12 meses terminados em 30 de novembro. Até 2006, o banco nova-iorquino estava na mesma posição da maioria das grandes instituições financeiras que operavam no segmento das hipotecas do mercado americano com as menores chances de ser pagas -- o hoje famoso subprime. Embalado pela bolha imobiliária, o Goldman seguia a manada e investia pesadamente em ativos lastreados nesse tipo de empréstimo. A situação começou a mudar no fim de 2006, quando uma área secundária e pouco conhecida dentro do próprio Goldman decidiu apostar no colapso do subprime. A crise imobiliária, de fato, se materializou em 2007 e, em um ano, os executivos Dan Sparks, Michael Swenson e Josh Birnbaum, todos com idade entre 35 e 40 anos, ganharam 4 bilhões de dólares para o banco. Quase anônimos até para a maioria dos colegas de andar, Sparks, o chefe, Swenson e Birnbaum ganharam fama e entraram para o grupo dos maiores operadores do mercado financeiro.
O caminho do trio rumo ao sucesso foi uma pedreira. No início, em dezembro de 2006, o objetivo das operações era apenas reduzir o risco a que o Goldman estava exposto por investir em subprimes. Como ninguém os queria, esses papéis eram baratos e, por terem um volume de transação baixo, os operadores demoraram mais de um mês até conseguir acumular a quantidade necessária para proteger a exposição do banco. Nesse meio tempo, Sparks foi chamado várias vezes à sala do presidente Blankfein, que acompanhava com atenção -- e apreensão -- os investimentos do trio. Também o vice-presidente responsável pela gestão de risco passou a ser uma presença constante no andar de Sparks, Swenson e Birnbaum. O temor da cúpula era que, em caso de exagero, os três poderiam fazer o banco perder muito dinheiro. É que, embora muitos em Wall Street desconfiassem do mercado subprime -- a dúvida não era tanto se a bolha um dia estouraria, mas quando --, uma saída prematura resultaria num enorme prejuízo. "Em momentos de incerteza, a tendência da maioria é sempre achar que as coisas vão continuar dando certo por mais tempo", diz Alexandre Povoa, sócio da Modal Asset Management. Já no começo de 2007 estava claro para os três operadores que a derrocada estava prestes a acontecer e, por isso, era hora de o Goldman aumentar sua aposta contra o subprime. A direção do banco, por sua vez, continuava reticente.
No final de fevereiro, a tensão subiu quando Birnbaum bateu o telefone na cara do colega destacado para comunicá-lo que era preciso tirar o pé do acelerador em seus investimentos. Começou então um trabalho de convencimento interno, que durou algumas semanas -- até a cúpula do banco bandear-se para o lado de Birnbaum. Em abril, o Goldman começou a perder dinheiro com os ativos lastreados em empréstimos subprime e, pouco depois, Sparks, Swenson e Birnbaum receberam a ordem tão esperada. Tinham o sinal verde para colocar em prática sua estratégia. A partir daquele momento, eles não tiveram mais sossego. Por longos meses, férias foram canceladas e passeios com a família adiados. Para extravasar a tensão, Sparks saía cedo de casa -- às 5h30 da manhã -- ainda a tempo de fazer musculação antes de chegar ao banco. Voltava para casa freqüentemente depois da meia-noite. Birnbaum, dono de um loft em Manhattan, passou a comer sanduíche com ovo como café da manhã em sua mesa de trabalho. Swenson, pai de quatro crianças, não podia nem reclamar com seu colega da falta de tempo para a família. Foi ele quem convidou Birnbaum para trabalhar no Goldman.
| Resultados bilionários | ||
| As recentes operações do Goldman Sachs no mercado de subprimes estão entre as apostas mais bem-sucedidas do setor financeiro nos últimos anos | ||
| Quem apostou | O que fez | Quanto ganhou (em dólares) |
| Paulson & Co. | Apostou no colapso dos subprimes em 2007 | 15 bilhões |
| Goldman Sachs | Previu o colapso dos subprimes em 2007 | 4 bilhões |
| Centaurus Energy | Apostou na falência de um fundo rival, o Amaranth, em 2006 | 1,5 bilhão |
| George Soros | Antecipou a desvalorização da libra esterlina em 1992 | 1,1 bilhão |
Em julho, quando os fundos do banco Bear Stearns já tinham quebrado e os comentários sobre as perdas do Merrill Lynch circulavam, o Goldman estava no azul. No final do ano, enquanto os concorrentes tentavam recolher os pedaços do naufrágio do subprime, Sparks, um conhecido doador da Universidade do Texas, Birnbaum e Swenson faziam as contas sobre quanto seriam seus bônus -- o mercado estima que tenham embolsado algo em torno de 10 milhões de dólares. "Se você confia na sua posição, tem de ter estômago para ver todo o resto da boiada indo na direção contrária. É muito difícil manter o sangue-frio, e eles conseguiram. Essa é a grandeza desses caras", diz um brasileiro que trabalha em um banco concorrente do Goldman em Wall Street. Mesmo após ter entrado para a galeria dos grandes apostadores do mercado financeiro, o trio manteve a rígida regra de conduta do Goldman, instituição nascida em 1869 e conhecida pela exigência de discrição acima de tudo. Não há fotos disponíveis dos três. Em um telefonema com a reportagem de EXAME, Sparks negou-se a comentar sobre seu feito no ano passado. A pergunta mais espinhosa que ficou no ar foi por que o Goldman investiu recursos próprios contra o subprime ao mesmo tempo que aplicava dinheiro de seus clientes na direção inversa -- clientes que perderam verdadeiras fortunas.
Casos como o de Sparks, Swenson e Birnbaum são mais comuns em fundos de hedge -- empresas mais propensas ao risco do que bancos. George Soros, por exemplo, ficou famoso em 1992 por ter apostado na desvalorização da libra esterlina e embolsado 1 bilhão de dólares. Na atual crise das hipotecas subprime, estima-se que o desconhecido fundo Paulson & Co., de Dallas, ganhou cerca de 15 bilhões de dólares. O sucesso foi tão expressivo que chamou a atenção de Alan Greenspan, ex-presidente do Federal Reserve, o banco central americano. Greenspan tem uma cadeira no conselho do Paulson & Co., empresa que certamente não teve nenhum problema de caixa para contratá-lo. Em meio à choradeira e ao medo generalizado, alguns poucos estão rindo à toa -- o trio do Goldman Sachs está entre eles.