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O Bradesco passou o Merrill Lynch

 | 24.01.2008

A desvalorização de bancos americanos -- verdadeiros ícones do capitalismo -- dá a dimensão da crise por que passa a economia dos Estados Unidos

 

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Por Roberta Paduan

EXAME 

Há quatro anos, o valor de mercado do banco de investimento Merrill Lynch era seis vezes maior que o do Bradesco, o maior grupo privado do setor financeiro no Brasil. No começo de 2007, a relação de forças entre as duas instituições tinha mudado, mas o banco americano ainda valia 84 bilhões de dólares, mais que o dobro do brasileiro. Nos últimos meses, a situação se inverteu diametralmente. Hoje, o valor em bolsa do Bradesco é quase 20% superior ao do Merrill Lynch. Também o Itaú deixou o americano para trás. Mais do que uma conseqüência do crescimento dos brasileiros -- que é consistente, sem dúvida --, essa reviravolta revela toda a extensão da atual crise da economia americana. O horizonte por lá, que já era desanimador desde o estouro da bolha do setor imobiliário no ano passado, ficou ainda pior neste começo de 2008 com a divulgação dos resultados dos bancos. O Citi teve um prejuízo de quase 10 bilhões de dólares no último trimestre de 2007, o maior em um único trimestre em 176 anos de existência. E o Merrill Lynch, que tem um terço do tamanho do Citi, também anunciou perdas de 10 bilhões de dólares no terceiro trimes tre. Nessa sucessão de anúncios infelizes, o que mais chocou os analistas foi a impressão de que a crise desencadeada por calotes no segmento de subprime -- os empréstimos imobiliários de alto risco -- ainda não bateu no fundo do poço. Somente nos últimos quatro meses, as perdas dos 17 maiores bancos do mundo totalizaram 91 bilhões de dólares.

Como costuma acontecer em situações como essa, os mercados financeiros caíram vertiginosamente. Nas três primeiras semanas de 2008, as bolsas de valores de Nova York e São Paulo caíram 10% cada uma. Nos Estados Unidos, é um dos piores começos de ano no mercado de ações desde a década de 20. Na Europa e na Ásia, o nervosismo também tomou conta dos investidores, derrubando seus índices. Na segunda-feira 21 de janeiro, a bolsa inglesa caiu para o menor nível desde os ataques terroristas de 11 de setembro, em 2001. O estopim dessa queda foi uma declaração do francês Christian Noyer, membro do Banco Central Europeu, avisando que novos prejuízos virão pela frente. Uma nova suspeita que começa a atemorizar os analistas é que existam "subprimes" em outros setores de crédito. "Quem garante que o excesso de otimismo não foi usado para emitir cartões de crédito ou financiar veículos para pessoas com pouca condição de pagar, ou, ainda, para financiar empresas pouco saudáveis que queriam comprar outras companhias?", pergunta o economista Tom Trebat, professor da Universidade Columbia.

Entre os grandes
Bradesco e Itaú subiram para o primeiro pelotão de instituições financeiras das Américas — há apenas quatro anos ocupavam o 43o e o 34o lugares — e passaram o valor de mercado de alguns símbolos do capitalismo mundial
Ranking por valor de mercado nas américas(1) (em bilhões de dólares)
1o Bank of America 160
2o JPMorgan Chase 133
3o Citigroup 122
4o Wells Fargo 85
5o Goldman Sachs 74
6o Wachovia 58
7o BRADESCO 52
8o US Bancorp 52
9o Itaú 51
10o American Express 51
11o Bank of NY Mellon 50
12o Morgan Stanley 48
13o Merrill Lynch 44
14o Banco do Brasil 41
15o State Street 29
16o Lehman Brothers 28
17o Unibanco 26
18o Charles Schwab 25
19o Mastercard 23
20o Sun Trust Banks 20
(1) Baseado no valor das ações em 18 de janeiro
Fonte: Econom´atica

Os sintomas da cambaleante economia americana estão em todas as partes e o desentendimento entre os principais economistas hoje é se o país já entrou em recessão. O segmento residencial registrou o sétimo trimestre consecutivo de contração. As encomendas de bens de capital também evidenciam a freada. Em novembro, ficaram 3% abaixo do registrado no mesmo mês de 2006, a redução mais forte dos últimos cinco anos. Mas a situação do mercado de trabalho talvez seja o indicador mais nevrálgico de todo o cenário. Desde 2003, o país não criava tão poucos postos de trabalho quanto em dezembro último: 18 000, resultado pífio frente a dezembro de 2006, quando foram abertas 226 000 vagas. O preço do petróleo nas alturas aperta ainda mais o orçamento do americano, especialmente no inverno, quando esse custo aumenta com a necessidade de calefação. Em meio a tantas notícias ruins, o consumidor americano está para lá de apreensivo -- as vendas do Natal foram as mais fracas dos últimos cinco anos, um péssimo sinal para uma economia em que o consumo representa 70% do PIB. "Apesar de ter sido iniciada no setor imobiliário, e ter atingido inicialmente apenas bancos, essa crise tem potencial de se espalhar para setores fora do sistema bancário", diz Gustavo Loyola, ex-presidente do Banco Central e sócio da consultoria Tendências.

Na tentativa de brecar a recessão econômica e reanimar o consumidor americano, o presidente George W. Bush anunciou em meados de janeiro um pacote cujo objetivo é injetar cerca de 150 bilhões de dólares na economia. Caso seja aprovado pelo Congresso, o que é altamente provável, o dinheiro chegará às mãos dos americanos como uma restituição extra de imposto de renda. Em outro front, Ben Bernanke, o presidente do Federal Reserve, o banco central americano, já deixou claro que fará o que for necessário para evitar uma forte desaceleração. Desde que reafirmou sua intenção no dia 10, o mercado passou a apostar num corte da taxa de juro ainda em janeiro -- de 4,25% para 3,5%.

É óbvio que a coleção de indicadores negativos que recaem sobre a maior economia do planeta não é um prenúncio do fim do capitalismo. "A situação é grave, mas há instrumentos dentro do próprio capitalismo capazes de solucioná-la", afirma Trebat, da Universidade Columbia. Prova disso foi a injeção de quase 50 bilhões de dólares feita por investidores majoritariamente de países asiáticos (turbinados por anos de crescimento acelerado) e árabes (guarnecidos com petrodólares) nos bancos americanos. De um lado, esses investidores enxergaram um bom momento para comprar ações e, por outro, devolveram liquidez ao mercado, mantendo longe o risco de quebra de confiança no sistema bancário e uma conseqüente corrida de saques. "É o capitalismo em ação", diz o economista Roberto Troster, da Integral consultoria financeira, de São Paulo.

Riqueza perdida
Bancos americanos e europeus registraram enormes prejuízos no ano passado em suas áreas ligadas ao setor imobiliário por causa da crise nos Estados Unidos (em bilhões de dólares)
Merrill Lynch
22
Citigroup
21
UBS
15
Morgan Stanley
10
Soma de outras instituições(1) 23
(1) Bank of America, Barclays, The Bear Stearns, BNP Paribas, Credit Suisse, Deutsche Bank, The Goldman Sachs, HSBC, ING, JPMorgan Chase, Lehman Brothers, The Royal Bank of Scotland e Société Générale
Fonte: Standard & Poor’s

Qual deve ser o impacto dessa crise para o Brasil? Depende da extensão que ela alcançar, dizem os analistas. "A princípio deve afetar pouco, pois os bancos brasileiros não tinham nenhum investimento nos títulos subprime americanos", diz Tomás Málaga, economista-chefe do Itaú. Contribui para uma análise menos pessimista o fato de os fundamentos da economia brasileira estarem mais fortes, dada a redução da dependência do comércio com os Estados Unidos e o alto nível de reservas acumuladas no país. O problema virá apenas se a crise se estender e reduzir o ritmo chinês, por exemplo, o que derrubaria os preços das commodities. "Nesse caso o Brasil sentirá o baque", diz Málaga. Enquanto a poeira não assenta, o mundo vai conviver com situações atípicas -- como o fato de os bancos brasileiros estarem tão bem posicionados no ranking do setor. Mais à frente é provável que os brasileiros percam posições no ranking. Por ora, porém, o descompasso entre a situação das grandes instituições financeiras lá e cá não deixa de ser uma mostra da diferença do clima entre Brasil e Estados Unidos. Pelo menos neste começo de 2008, as apostas para a economia americana são de crescimento modesto, na melhor das hipóteses menos da metade das previsões para a expansão do PIB brasileiro, estimado em cerca de 4,5%. É um contraste que há muito não se via. Por aqui, ainda reina o otimismo, enquanto nos Estados Unidos o ano mal começou e tem gente querendo que ele já termine.

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