Revista EXAME -
A imagem ao lado retrata uma realidade atual que não combina com a atividade frenética da maioria das indústrias do país nos últimos meses. Trata-se de uma ala da fábrica da Novelis, uma das maiores produtoras de alumínio no Brasil, situada em Ouro Preto, no interior de Minas Gerais. As máquinas estão desligadas e não há sinal da movimentação dos 150 operários que ali costumam trabalhar. A linha da Novelis está paralisada desde18 de janeiro devido à cotação astronômica que a energia elétrica atingiu no chamado mercado livre, em que produtores e consumidores negociam diretamente o preço -- alta que é reflexo direto do aperto crescente que o Brasil vem atravessando na área de energia, ainda sem solução no horizonte. É o trailer de um filme dramático, o do apagão, a que os brasileiros já assistiram em 2001, e que o governo nega que irá se repetir. A Novelis virou o ano em ritmo de trabalho intenso para dar conta dos pedidos que cresceram cerca de 15% em 2007. A decisão de parar parte da fábrica teve de ser tomada pelos executivos porque a conta de energia elétrica disparou subitamente: de dezembro para janeiro o preço do megawatt-hora sextuplicou, chegando a 569 reais. Como a energia representa um terço do custo de produção do alumínio, o custo do metal fabricado em Ouro Preto subiu para 4 000 dólares a tonelada -- quase o dobro da cotação do alumínio na bolsa de Londres, que era de 2 400 dólares em meados de janeiro. "Ficou totalmente inviável produzir", diz Tadeu Nardocci, presidente da Novelis no Brasil. "O jeito é parar a linha por um tempo e esperar que o preço da energia caia." Na prática, para a Novelis o apagão já começou.
FELIZMENTE, TRATA-SE de uma situação ainda atípica. Por enquanto o problema é localizado: o encarecimento da energia elétrica atinge apenas uma parcela das 700 empresas que se abastecem no chamado mercado livre e respondem por 20% do consumo total no país. Nesse nicho, as geradoras, distribuidoras e comercializadoras de energia fazem contratos sem a intermediação do governo, principalmente com consumidores industriais. Entre as mais prejudicadas estão empresas em que a energia pesa muito no custo operacional, caso das produtoras de alumínio, de aço e de vidro. Muitas delas contam com fontes próprias de suprimento -- a Novelis gera, em pequenas usinas, 60% do que consome. Dependendo da estratégia energética adotada, a empresa consumidora pode estar mais ou menos sujeita à crise do momento. Normalmente, fornecedores e consumidores mantêm contratos com prazos longos, de até 12 anos, com preços fixados. A maior parte do mercado está nessa situação e ainda opera sem susto -- embora também com preocupação. A Fiat, com planos de investir 5 bilhões de reais para ampliar a produção nos próximos três anos, é um exemplo. "Temos garantia de fornecimento por vários anos", diz José Silva Tavares, diretor financeiro da montadora. "Não tememos interrupção no fornecimento, nem mesmo para o nosso plano de expansão. Mas isso não resolve a situação, porque dependemos de uma cadeia de fornecedores, e aí pode haver algum risco."
| Energia mais cara | |
| O preço da energia elétrica no mercado à vista(1) disparou nos últimos 12 meses... | |
| (em reais por megawatt-hora) | |
| jan/07 | 23 |
| mar/07 | 18 |
| mai/07 | 60 |
| jul/07 | 123 |
| set/07 | 39 |
| dez/07 | 210 |
| jan/08 | 500(2) |
| ...e elevou os custos para uma parte das empresas que utilizam o mercado livre 700 empresas utilizam o mercado livre para se abastecer de energia total ou parcialmente | |
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10000 MWh
é o consumo total dessas empresas via mercado livre |
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2000 MWh
é a parcela desse consumo que estaria atualmente sem contrato e exposta ao preço à vista |
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600 milhões de reais
é quanto as empresas deverão pagar a mais pela energia em janeiro |
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| (1) Preço médio de liquidação de diferenças no sistema do Sudeste/Centro-Oeste (2) previsão Fontes: CCEE, Abrace e comercializadoras de energia | |
Os mais expostos são os que lidam com uma espécie de mercado à vista. A Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), órgão que regula e acompanha o mercado livre, estabelece semanalmente um preço para a energia negociada no curto prazo -- por exemplo, a de uma indústria que consome num mês mais energia do que prevê seu contrato. Desde setembro, uma sucessão de problemas resultou na escalada dos preços. Primeiro, foi a escassez de gás, que chegou ser racionado para taxistas e indústrias em outubro, para garantir o funcionamento de termelétricas. Ao mesmo tempo, a estiagem no Nordeste foi deixando os reservatórios da região cada vez mais secos. Às voltas com sua própria crise energética, a Argentina parou de vender o excedente para o Brasil. Para culminar, no Sudeste, desde dezembro as chuvas foram as mais escassas em 76 anos. "O que era para ser a fase mais chuvosa, e dos preços mais baixos do ano, transformou-se num período seco", diz Nardocci. De fato, um ano atrás, o preço médio do mercado à vista de energia era de 23 reais. Hoje é de 569 reais. A Novelis foi colhida de surpresa pelo aumento recente porque tem um contrato com sua fornecedora, a Cemig, que prevê uma espécie de gatilho. Se o preço sobe acima de um certo nível, a Novelis tem de pagar o valor máximo à distribuidora. "É como operar na bolsa", diz Paulo Toledo, sócio da comercializadora Ecom. "Quem optou por uma estratégia de mais risco para ganhar quando os preços eram favoráveis, agora terá de devolver parte dos ganhos."
NÃO SE SABE QUANTAS EMPRESAS exatamente estão passando por esse aperto. "Mais de dez clientes nossos já nos informaram que estão reduzindo a produção", diz Mateus Andrade, sócio da comercializadora Delta. Estima-se que de 10% a 20% do volume de energia consumido via mercado livre esteja em alguma proporção exposto ao preço máximo. A conta que as empresas pagarão em janeiro só será fechada no início do próximo mês pela CCEE, mas já se calcula que o custo extra da energia negociada pode ficar em 600 milhões de reais. Algumas comercializadoras e também distribuidoras e geradoras devem sofrer significativamente com as perdas -- há quem fale que pode haver insolvência no setor, quando a conta tiver de ser quitada. Apenas a intensificação das chuvas nos próximos dois ou três meses, em áreas de reservatórios e cabeceiras de grandes rios, pode evitar que o problema ganhe proporções maiores e afete seriamente a economia.
| Futuro preocupante | ||
| Um estudo indica que o crescimento da oferta de energia neste e nos próximos anos será inferior ao aumento da demanda | ||
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(em megawatts)
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2008
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Oferta | 51 844 |
| Demanda | 53 587 | |
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2009
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Oferta | 55 328 |
| Demanda | 55 962 | |
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2010
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Oferta | 59 480 |
| Demanda | 58 622 | |
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2011
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Oferta | 60 972 |
| Demanda | 61 180 | |
| Fonte: Abrace | ||
A fim de guardar a água das represas para o período realmente seco, que deve vir no meio do ano, o governo está ligando paulatinamente as termelétricas. Mas aí esbarra num outro problema: não há gás suficiente para todas, o que pode obrigar a operá-las com óleo, insumo mais poluente e mais caro. O efeito disso é que até o final do ano os preços da energia elétrica permanecerão altos. Um estudo recém-concluído da Associação dos Grandes Consumidores Industriais de Energia mostrou que, pelo menos até 2011, a demanda deve caminhar à frente da oferta em quase todo o período -- mantendo a pressão sobre os preços. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva já assinou decreto prevendo que o aumento de custo da energia será rateado entre todos os consumidores. Em meio a tudo isso, Lula cedeu às investidas do PMDB e nomeou o senador Edison Lobão, sem nenhuma experiência no setor, para o posto de ministro das Minas e Energia. Nesse quadro, as melhores esperanças de evitar algo pior estão depositadas na ajuda de são Pedro.