Revista EXAME -
No movimentado mercado financeiro brasileiro, um dos setores mais aquecidos da economia, poucas áreas se transformaram tanto nos últimos anos como a de gestão de grandes fortunas. Esse segmento, também conhecido como private banking, tem assistido a um crescimento vertiginoso dos negócios -- a carteira administrada pelos gestores passou de 32 bilhões de reais em 2002 para quase 150 bilhões hoje, segundo a Associação Nacional dos Bancos de Investimento. Outra mudança marcante se vê no perfil -- ou, mais precisamente, no gênero -- dos funcionários da área. Até recentemente, os gestores eram majoritariamente homens, seguindo o padrão que reina no restante do mercado. Mas a crescente chegada das mulheres está mudando a paisagem. No líder Itaú, elas ocupavam 35% das vagas do private e apenas 13% dos cargos de chefia há cinco anos. Hoje são metade da equipe e estão em 30% dos postos de liderança. No UBS Pactual, segundo colocado no ranking em volume de capital administrado, foi registrada uma mudança no mesmo sentido nos últimos tempos. O movimento mais acentuado ocorreu no HSBC, chefiado por Sylvia Coutinho. Trazida dos Estados Unidos em 2004 para o cargo, ela comanda atualmente uma equipe de 47 pessoas, das quais quase 30 são mulheres.
A pujança do setor ajuda a explicar essa mudança. Diante de um mercado em ebulição, turbinado pelo surgimento diário de novas fortunas, os bancos vêm aumentando as equipes, abrindo assim novas oportunidades de trabalho. Ante a necessidade premente de fazer o time crescer sem perda de qualidade, velhos preconceitos têm sido deixados de lado. "O mercado está crescendo, se sofisticando, e as executivas estão preparadas para ele", explica Lywal Salles, responsável pelo private do Itaú. "O meu parâmetro para contratações e promoções sempre foi a meritocracia. Nunca pensei em contratar mais mulheres, mas acabou acontecendo", diz Sylvia, do HSBC. Além disso, características próprias do private acabam favorecendo a "invasão feminina". Mesmo sendo uma área com carga de trabalho considerável (11 horas por dia), a vida dos executivos de gestão de fortunas não se compara à de quem trabalha em banco de investimento, por exemplo, um ambiente ainda masculino. Quem prepara aberturas de capital e fusões e aquisições costuma virar noites e trabalhar nos finais de semana, rotina impensável para a maioria das mulheres que têm filhos.
O sucesso das executivas brasileiras não chega a ser uma surpresa para quem acompanha as últimas pesquisas sobre o efeito das mulheres no mundo dos negócios. A mais recente, publicada em novembro pelo Centro Lehman Brothers sobre Mulheres no Mundo dos Negócios, da London Business School, ouviu 850 pessoas de 21 corporações em 17 países. Após seis meses de trabalho, a conclusão foi que, pelo menos nas atividades econômicas, não existe isso de homens serem de Marte e mulheres de Vênus. Para começar, quando o assunto é trabalho, todos têm as mesmas aspirações. Buscam o sucesso com afinco semelhante e querem, sim, subir na carreira. Além disso, tanto homens como mulheres trabalham melhor em times com números equilibrados de pessoas dos dois sexos, as chamadas equipes 50-50. Essa formação, diz a pesquisa, garantiria o melhor desempenho em áreas ligadas à inovação. Por quê? Quando as mulheres são minoritárias, elas tendem a montar uma rede de contato com pessoas de fora da equipe. Já os homens costumam formar um clube do Bolinha, isolando as mulheres. Em ambos os casos são registrados altos índices de mau humor, pouca satisfação com o trabalho e, conseqüentemente, menos compromisso com a empresa.
CONTA A FAVOR DAS equipes 50-50 maior complementaridade no trabalho. "Em geral, os homens são mais arrojados para conquistar novos clientes, enquanto as mulheres têm mais habilidade para manter os relacionamentos", diz José Leopoldo de Abreu Figueiredo, chefe do private do Credit Suisse Hedging-Griffo, terceiro maior do mercado e que tem 30% do quadro formado por mulheres. O último relatório da ONG americana Catalyst, especializada em estudar mulheres no mercado de trabalho, lançado em outubro, mostra que as 500 maiores empresas da lista da revista Fortune com maior representação de mulheres entre os diretores têm desempenho financeiro significativamente melhor que as demais. Na média, o retorno dessas companhias sobre o patrimônio foi, no mínimo, 53% acima das empresas com menor número de mulheres. No quesito retorno sobre vendas, o índice foi de 42%. Em termos de retorno sobre investimentos, empresas com mais mulheres na direção tiveram desempenho 66% superior.
Embora um ambiente de trabalho mais feminino pareça bom para os negócios, os obstáculos para que as mulheres ocupem espaços nos postos mais altos das empresas ainda são grandes. Do ponto de vista institucional, o preconceito ainda persiste num mundo dominado há séculos pelos homens. Na esfera íntima, conciliar maternidade com longas horas de trabalho nunca é uma missão indolor. "Eu sei que nossos filhos um dia vão ter orgulho da mãe bem-sucedida, mas, por outro lado, eles só vão ter 3 ou 4 anos uma vez na vida, e não podemos estar com eles todo o tempo que gostaríamos", diz Andrea Torres Landulfo, executiva do private do Itaú. "Mas, no final das contas, quando se coloca tudo na balança, vale a pena investir na carreira profissional." Outro grande problema observado por algumas executivas é a inveja sentida pelo marido quando ele se encontra na posição do cônjuge que ganha menos. "Meu primeiro marido pediu para eu parar de trabalhar e a resposta foi: 'Baby, isso não'", conta uma alta executiva do private de um grande banco. "Esse acabou sendo um dos motivos de nossa separação." Menos comuns são os casos como o de Sylvia, do HSBC, que hoje, além do private, supervisiona as áreas de custódia e de asset (gestão de recursos) no Brasil e no restante da América Latina. Segundo ela, seu marido, um empresário, sempre a apoiou e nunca deixou de adaptar seus projetos à carreira da parceira. A contar pelo recente desempenho das gestoras de fortunas, é provável que o marido de Sylvia seja parte da vanguarda de um movimento com alto potencial de crescimento.
| O toque feminino | |||
| Três pesquisas divulgadas recentemente comprovam que a presença de mulheres aumenta o desempenho financeiro e o potencial de inovação das empresas | |||
| Pesquisa | Instituição | Divulgação | Conclusão |
| POTENCIAL DE INOVAÇÃO: HOMENS E MULHERES EM EQUIPES | London Business School | Novembro de 2007 | Equipes que tenham, ao menos, 50% de mulheres apresentam uma performance acima da média em atividades ligadas à inovação |
| PERFORMANCE E PRESENÇA DE MULHERES NAS DIRETORIAS | Catalyst, ONG com sede em Nova York | Outubro de 2007 | Entre as companhias presentes na lista das 500 maiores da Fortune, as com maior número de mulheres na direção têm retornos maiores |
| UM DESPERTAR PARA A LIDERANÇA FEMININA NA EUROPA | Consultoria McKinsey | Agosto de 2007 | As companhias européias com as proporções mais altas de mulheres em postos de liderança têm desempenho financeiro melhor |