Revista EXAME -
Ao longo dos últimos 16 meses, o projeto Tucson foi discutido em sigilo absoluto nos corredores do escritório da subsidiária brasileira da Philips, na zona sul de São Paulo. Somente uma dezena de executivos sabia o que estava por trás do codinome -- definido aleatoriamente numa conversa entre eles e inspirado no carro homônimo da coreana Hyundai. Os outros quase 4 500 funcionários só descobriram do que tratava o Tucson no fim de novembro, quando a Philips anunciou sua entrada no mercado de notebooks, com o lançamento de dois modelos a partir de 7 de dezembro. Tanto mistério não se deu apenas pela precaução usual de uma empresa ao se aventurar num setor que desconhece -- a Philips jamais vendeu laptops em qualquer um dos mais de 60 países em que está presente. Em grande parte, o segredo na operação brasileira foi mantido porque nem mesmo executivos da matriz holandesa conheciam detalhes do projeto. O sinal verde só veio em agosto (veja quadro na página seguinte). "Tivemos de ser persistentes e ouvir vários 'nãos' até a porta se abrir", diz o paulista Paulo Zottolo, presidente da Philips para a América Latina.
A subversão de Zottolo representa algo inédito nas mais de oito décadas de existência da subsidiária, que sempre reproduziu os passos da matriz nas áreas de áudio e vídeo, iluminação e equipamentos médicos. A mudança de postura, nesse caso, tem respaldo numa determinação global. Em março de 2006, após uma conferência na Índia com 200 de seus diretores no mundo, a Philips decidiu aproveitar o embalo de mercados emergentes e dar autonomia para as subsidiárias nesses países lançarem produtos próprios. Enquanto as vendas globais da empresa recuaram 3,7% entre 2002 e 2005, para 38 bilhões de dólares, as da América Latina e Ásia cresceram 9% no mesmo período. Por isso, entrar em novos negócios foi uma das missões que Zottolo recebeu da matriz quando chegou à Philips, em maio de 2006, como diretor de operações e sucessor do então presidente Marcos Magalhães. "Buscamos novas oportunidades nos mercados emergentes, e por isso tivemos de olhar além dos negócios tradicionais da Philips", diz Gottfried Dutiné, vice-presidente executivo mundial da Philips. Na Índia, por exemplo, já foram lançados dois produtos sob essa nova diretriz -- um deles foi um purificador de água.
Apesar da orientação, a equipe brasileira encontrou resistência para convencer a matriz a aceitar a linha de computadores. O nó estava no embate entre duas culturas -- a da Philips, comandada por engenheiros, e a de Zottolo. Embora engenheiro de formação, Zottolo, de 51 anos, construiu a carreira basicamente na área de marketing. Nos anos 90, como presidente da Nivea no Brasil, ele reergueu a marca com medidas como a renovação da linha de produtos. Para o executivo, que assumiu a presidência da Philips em abril deste ano, os computadores representam mais uma peça na reforma da empresa. Segundo ele, a contratação da cantora Ivete Sangalo e o lançamento de produtos como notebooks darão jovialidade à marca -- receita parecida com a que adotou na Nivea, que tinha como garota-propaganda a modelo Gisele Bündchen. "Os executivos da matriz me perguntavam sobre o diferencial tecnológico do nosso computador. Só que eu não estava preocupado com isso", diz Zottolo. "Quando se fala de marketing para engenheiros, não há nenhuma ressonância."
| As etapas do lançamento |
| Desde que assumiu o cargo de principal executivo de operações na Philips, em maio de 2006, Zottolo teve de manobrar seus pares na Holanda — e até em Taiwan — para que o negócio de computadores vingasse |
| 1 - Zottolo tentou convencer pessoalmente, a partir de junho de 2006, os sete membros da diretoria global da Philips a investir no negócio de notebooks durante cinco viagens à Holanda.Ouviu “não” todas as vezes |
| 2 - Mesmo com as negativas, a subsidiária brasileira começou a articular o lançamento, com a ajuda de um consultor taiwanês especialista no mercado brasileiro de computadores |
| 3 - Em julho de 2007, já como presidente,Zottolo contratou a agência de publicidade Africa para remodelar a imagem da Philips — e bolar uma campanha de marketing para os notebooks que nem haviam sido aprovados |
| 4 - Ainda sem aval da matriz e sob total sigilo dentro da Philips do Brasil, a equipe de Zottolo identificou as melhores opções no varejo para lançar os notebooks em São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba |
| 5 - O sinal verde só foi dado pela diretoria da Philips em agosto de 2007.Dois membros da divisão responsável pelo projeto foram, então, a Taiwan para encontrar um fornecedor que pudesse produzir os notebooks rapidamente |
| Fonte: empresa |
MESMO COM AS NEGATIVAS dos holandeses, nos bastidores Zottolo começou a articular o lançamento. Em outubro de 2006, contratou o consultor taiwanês Albert Chiang, que na década de 90 ajudara a Acer a entrar no Brasil. Depois de cinco viagens à Holanda, Zotollo convenceu a matriz de que poderia lançar o produto preocupando-se apenas com o design. Um dos melhores argumentos que ele usou para persuadir os chefes foi o potencial do mercado. Só no primeiro semestre de 2007, 528 000 laptops foram vendidos no Brasil -- quase 85% de todo o volume registrado em 2006. "Hoje, os notebooks representam 18% dos computadores vendidos no país", diz Reinaldo Sakis, da consultoria IDC. "A tendência é que chegue a 35% em dois anos." Em setembro, um mês depois da liberação da matriz, o consultor Chiang se tornou o gerente de projetos especiais da Philips, líder da divisão de computadores.
Após a aprovação, a equipe responsável pelo projeto teve de acionar às pressas um dos fornecedores pré-selecionados em Taiwan para que os produtos chegassem ao país até o Natal, para ser vendidos em São Paulo, Curitiba e Rio de Janeiro. Os dois laptops da Philips possuem tela de 11 e 13 polegadas, e vão custar, respectivamente, 5 499 e 3 999 reais no varejo (a empresa ainda não revelou o nome dos varejistas tampouco o volume do primeiro lote). A verba inicial para importar as primeiras unidades e preparar sua promoção é de 15 milhões de dólares. O desafio de Zottolo agora é atingir uma participação de 10% a 15% do mercado de notebooks no país em dois anos -- e assim romper um histórico tumultuado de lançamentos em novos mercados. Em 1998 e 2000, a Philips fez duas tentativas de lançar mundialmente aparelhos celulares. Ambas fracassaram por desacordos com parceiros. Se o negócio de notebooks engrenar, a montagem será transferida para o Brasil no primeiro semestre de 2008. Além disso, as subsidiárias do México e da Argentina também passarão a produzir e vender computadores. Para 2008, Zottolo planeja lançar mais dois produtos -- sobre os quais mantém um sigilo digno do projeto Tucson. Ele só garante que os celulares estão fora do jogo.