Revista EXAME -
Eu vou te levar aonde ninguém vai." É dizendo essa frase que Eike Batista surge no início de um vídeo criado para apresentar sua principal empresa, a MMX. A imagem do empresário -- vestido com um blazer por cima de uma camiseta, de braços cruzados e um sorriso de garoto-propaganda -- funciona como introdução a uma alucinante seqüência de imagens aéreas sobre minas em Mato Grosso, Minas Gerais e Amapá, e um terreno no litoral norte do Rio de Janeiro, onde deve ser construído um porto para exportação da empresa. O narrador promete que até 2009 a MMX será a quarta maior mineradora do mundo. Há pouco mais de um ano, quando o vídeo foi produzido, a MMX nada mais era do que esses pedaços de terra e um grupo de executivos de renome, contratados a peso de ouro. Poucos se arriscariam a prever as chances de sucesso de um IPO (oferta inicial de ações) da empresa. Em julho de 2006, no entanto, a MMX captou 460 milhões de dólares na Bovespa e hoje seu valor de mercado já ultrapassa os 5,2 bilhões de dólares. Razão suficiente para Eike voltar à carga. Em dezembro, ele vai abrir o capital de duas novas companhias: a LLX, de logística, e a MPX, de energia. A expectativa é arrecadar mais 2,3 bilhões de dólares nos dois IPOs. Enquanto isso, o empresário roda o mundo oferecendo a investidores cotas da OGX, sua empresa dedicada à exploração de petróleo e gás. E tem na prancheta uma nova empresa, de exploração de florestas. Em todas, Eike pretende repetir a mesma estratégia da MMX -- vender o sonho e colher dinheiro, muito dinheiro.
A idéia por trás dessa "linha de produção" de empresas é aproveitar a liquidez mundial para vender projetos em setores com grande interesse dos investidores -- mineração, infra-estrutura e energia. "No passado, Eike talvez fosse visto como um aventureiro. Hoje, a carência desse tipo de projeto no Brasil criou espaço para empreendedores como ele", diz o consultor Adriano Pires, do Centro Brasileiro de Infra-Estrutura. Eike não gosta que digam que ele está vendendo sonhos. "Meus sócios não são loucos, não rasgam dinheiro com sonhos", costuma dizer. Como empreendedor, Eike possui um histórico notável -- pelos fracassos e sucessos. Quase todas as suas empresas de fora da mineração faliram -- entre elas uma companhia de construção de jipes e uma de entregas expressas. A siderúrgica na Bolívia, estatizada pelo governo de Evo Morales, também foi um fiasco (embora ele já esteja se preparando para voltar ao país). Mas o sucesso em algumas empreitadas transformaram Eike Batista num bilionário. A principal delas foi a TVX Gold, empresa que ele montou no Canadá em 1991 para explorar ouro. Ao deixar a companhia, dez anos depois, sua parte valia 800 milhões de dólares. É com esse dinheiro e recursos captados com investidores que Eike vem financiando suas últimas investidas no mundo dos negócios. O "surto" empreendedor já produziu de hospitais a lançamentos imobiliários, passando por uma frota de barcos para turismo e um restaurante chinês. Todos com nomes terminados em X, sinal de multiplicação e que, segundo ele, dá sorte.
O grande pilar do grupo é a MMX Mineração e Metálicos. Mesmo com uma produção pequena, em torno de 2 milhões de toneladas por ano, a empresa vem impulsionando a expansão dos negócios de Eike. Desde o lançamento da companhia, Eike já conseguiu colocar no bolso mais de 700 milhões de dólares -- valor amealhado com a venda de parte do principal projeto da companhia, o mineroduto MinasRio, à gigante Anglo-American. Em março, a americana Cleveland Cliffs também comprou parte de outro projeto da mineradora, no Amapá, por 133 milhões de dólares. Até agora, Eike tem demonstrado uma capacidade incomum de atrair grupos estrangeiros para seus projetos. Para a LLX, a empresa de logística, ele atraiu o Ontario Teachers, poderoso fundo de pensão dos professores canadenses, que acaba de comprar 15% das ações por 185 milhões de dólares. Na MPX, do setor de energia, ele associou-se à Energias do Brasil, controlada pela portuguesa EDP. Em oito anos, Eike diz que a MPX terá uma capacidade de geração maior do que a Cemig ou a CPFL, com sete usinas em operação no Brasil e uma oitava no Chile. "É um plano que assusta", afirma Felipe Cunha, analista de energia da Brascan Corretora. Procurados por EXAME, Eike e seus executivos não deram entrevista.
| O grupo X | |||
| Nos últimos cinco anos, Eike Batista criou quatro novas empresas. Uma delas, a MMX, já teve abertura de capital e as demais estão com os IPOs programados | |||
| MMX Mineração e metálicos | LLX Logística | MPX Mineração e energia | OGX Oil & Gas |
| Holding com minas nos estados de Mato Grosso do Sul, Amapá e Minas Gerais | Tem projetos de portos no norte do estado do Rio de Janeiro, em Peruíbe, litoral de São Paulo, e no Chile | Possui licenças para construção de quatro termelétricas no Brasil e outros quatro projetos de usinas, um deles no Chile | Vai disputar licenças de exploração de petróleo e gás no Brasil, na Bolívia, no Equador e em Angola |
| Data de criação Dezembro de 2005 | Data de criação Março de 2006 | Data de criação Fevereiro de 2002 | Data de criação Junho de 2007 |
| Valor de mercado 5,2 bilhões de dólares | Valor de mercado esperado 2,4 bilhões de dólares | Valor de mercado esperado 6 bilhões de dólares | Investimento inicial 1,3 bilhão de dólares |
TAREFA MAIS COMPLEXA, no entanto, será convencer investidores a aplicar 1 bilhão de dólares na OGX, a mais nova empresa do grupo, dedicada à exploração de petróleo e gás. Nos últimos dois meses, Eike e sua equipe fizeram mais de 60 reuniões, no Brasil e no exterior, para oferecer cotas da companhia a investidores. O grande atrativo da OGX, que vai disputar áreas de exploração na costa brasileira, na Bolívia, no Equador e em Angola, é a equipe -- uma fórmula que ele empregou com sucesso na MMX. Para a mineradora, Eike trouxe cerca de 30 executivos da Vale do Rio Doce. Para a petrolífera, o alvo foi a Petrobras. A empresa será comandada por cinco executivos trazidos da estatal, que, segundo o texto de apresentação da OGX, "somam 200 anos de experiência em prospecção de petróleo". O presidente será Francisco Gros (ex-Petrobras e BNDES), e o diretor de operações é o ex-gerente de exploração e produção da estatal Paulo Mendonça. Segundo a OGX, Mendonça foi responsável por encontrar "9 bilhões de barris de petróleo nos últimos cinco anos". EXAME conversou com três potenciais investidores dessa área e o resultado foi, para dizer o mínimo, frio. "Se ele conseguir vender a OGX, pode chamá-lo de gênio", diz um deles. Outro classificou os planos de "mirabolantes".
Não é difícil entender esse tipo de reação. O risco de investir numa empresa de petróleo é bem maior do que em portos ou termelétricas. Tanto assim que os grandes bancos não emprestam dinheiro a petrolíferas em fase de pesquisas. Daí a necessidade de Eike em encontrar sócios no mercado. Só para saber se determinada área tem petróleo ou gás são necessários três anos de trabalho. É possível que não se ache nada, e, caso se encontre, é preciso gastar muito dinheiro na extração. Nas projeções da OGX, arrematar as áreas no próximo leilão da Agência Nacional do Petróleo, em novembro, vai custar cerca de 300 milhões de dólares. Já pesquisar e perfurar os postos deve consumir outros 900 milhões. Por enquanto, o modelo de distribuição das cotas não animou os investidores, que teriam de pagar 1 bilhão de dólares para ter 49% da empresa, enquanto Eike, aplicando apenas 300 milhões, ficaria com os outros 51%. Para completar, nos últimos dias a ANP definiu que a OGX, assim como a Vale do Rio Doce, que também participará do leilão, só pode competir por áreas rasas, menos nobres e menos cobiçadas. O motivo é a falta de experiência da empresa. Eike não se abala. Ele tem dito aos investidores que tudo está dentro do previsto. Mas, até agora, não encontrou sócio disposto a colocar dinheiro na empreitada.
"Aventureiro" e "sonhador" são alguns dos adjetivos mais empregados para definir o estilo de Eike -- nem sempre por meio de uma ótica positiva. Mas, mesmo com todo ceticismo que sua figura gera, são poucos os que condenam de antemão seus negócios. Um executivo da concorrência que acompanha sua trajetória há anos resume o porquê. "Ele opera no limite entre o empreendedorismo e a aventura, mas é um rapaz inteligente e sabe aproveitar as oportunidades. Muitas coisas que achávamos que não dariam certo agora estão até andando", diz, referindo-se à MMX. Isso não quer dizer que a mineradora de Eike seja um sonho 100% realizado. Até colocar suas minas em completa operação, em 2009, há vários obstáculos a superar. Os maiores são ambientais. Só para construir o mineroduto que levará o minério de Minas Gerais ao Rio será preciso chegar a um acordo com 700 fazendeiros e 32 municípios diferentes. Os custos da obra também são bastante altos, e, segundo analistas do setor, só se justifica o esforço enquanto o preço do minério de ferro continuar alto no mundo todo. Ainda assim, Eike não pára. A próxima empresa a sair da linha de produção é a BFX -- o BF é de Business Forest. Voltada para projetos de reflorestamento, a empresa comprará 1 milhão de hectares de terra para plantar eucalipto e produzir madeira certificada e carvão vegetal para alimentar as usinas termelétricas da MPX. Ou seja, será mais um negócio para rechear de executivos estrelados e vender bem no futuro. "Confie no meu taco" é o que ele costuma dizer a quem duvida que a BFX será bem-sucedida. Para ir aonde ninguém vai, só confiando bastante mesmo.
| A MMX na bolsa | |
| Variação das ações ON da MMX na Bovespa (em reais) | |
| 13/7 | 518,97 |
| 9/10 | 640,01 |
| Fonte: Economática | |