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O comprador de usinas

O ex-diplomata Sergio Thompson - Flores já investiu 1 bilhão de reais na compra de usinas. Ele quer ser um dos maiores produtores de álcool do mundo
Lia Lubambo
 
Por Fabiane Stefano  | 19.10.2007

Revista EXAME - 

No efervescente mundo do etanol brasileiro, os usineiros atualmente dividem-se em dois grupos: os que compram usinas e os que estão vendendo suas propriedades. O carioca Sergio Thompson-Flores, empresário e ex-diplomata, é um expoente do primeiro time. Presidente e sócio da Infinity Bio-Energy, empresa sustentada por dinheiro de fundos estrangeiros, em um ano e meio Thompson-Flores comprou oito usinas e anunciou a construção de outras cinco. Ele já investiu perto de 1 bilhão de reais nas aquisições e pretende gastar mais um bom dinheiro em novos negócios. "Estamos analisando outras quatro usinas e vamos comprar pelo menos uma delas, talvez duas", afirma Thompson-Flores. A pretensão é tornar a Infinity uma das maiores produtoras globais de etanol. Para isso, no início de outubro a empresa entrou na fila de lançamentos de ações na Bovespa. Será a segunda vez que a Infinity vai às bolsas. Em maio de 2006, captou meio bilhão de dólares na AIM, bolsa alternativa de Londres para companhias nascentes.

A Infinity é reflexo da atuação de uma legião de investidores estrangeiros e brasileiros ávidos por obter lucros com o crescimento do setor sucroalcooleiro no Brasil, considerado a grande fronteira dos biocombustíveis no mundo. Estimativas apontam para um aumento na demanda global de 50 bilhões de litros de álcool até 2012, o que exigirá que a produção mundial atual seja dobrada. Não é de estranhar, portanto, que estejam surgindo gigantes no setor da noite para o dia. Entre as novatas estão a ETH, braço da Odebrecht, e a Brenco, comandada pelo ex-presidente da Petrobras Henri Philippe Reichstul, que anunciaram investimentos bilionários para os próximos anos. Empresas tradicionais no setor também investem fortemente para tentar manter a dianteira. O grupo Cosan, maior produtor de açúcar e álcool do Brasil, vai construir três usinas em Goiás, que se somarão a outras 17 em operação. Logo abaixo da Cosan no ranking brasileiro encontra-se a Santelisa Vale, resultado da recente fusão entre as usinas Santelisa e Vale do Rosário, outra que planeja investimentos. Tantos empreendimentos devem mudar o atual mapa de forças do etanol. De acordo com a consultoria Datagro, existem 138 projetos anunciados no país. Parte substancial deles receberá recursos de fora do Brasil. Nos últimos 12 meses, a participação do capital estrangeiro no total de cana moída no país dobrou para 12%, com a injeção de 2,8 bilhões de dólares no setor. Uma questão que só o tempo responderá é se realmente o mercado internacional de etanol alcançará dimensão suficiente para dar o retorno que os líderes dos projetos prometem aos investidores.

O futuro do etanol
Vários países, além do Brasil, já adicionam álcool à gasolina (percentual de álcool misturado à gasolina)
Brasil 25%
China 10%
Índia 10%
Canadá 5%
Estados Unidos 3%
União Européia 2%
Nos próximos anos, alguns planejam aumentar essa proporção...
2022 - Estados Unidos 16%
2010 - China 15%
2020 - União Européia 10%
...e outros devem aderir ao álcool
2010 - Argentina 5%
2030 - Japão 3%
Com a mistura obrigatória aumentando mundo afora, a produção de etanol deve quase duplicar em cinco anos (em bilhões de litros)
2006 49
2008(1) 81
2010(1) 103
2012(1) 113
(1) Previsão
Fontes: Icone e Unica

Mesmo em meio a tamanha ebulição, a agressividade de Thompson-Flores tem chamado a atenção do mercado. Sua rotina de workaholic é composta de reuniões intermináveis -- muitas vezes sem direito a almoço -- e viagens internacionais emendadas umas nas outras e inclui até uma recente recaída no cigarro, depois de 14 anos de abstinência. Entusiasta do tema, ele é capaz de discorrer horas sobre as vantagens do etanol de cana-de-açúcar em relação ao álcool de milho, produzido nos Estados Unidos. Parceiros comerciais e fornecedores contam que Thompson-Flores é obcecado pela idéia de ultrapassar a Cosan, que esmaga 40 milhões de toneladas de cana por ano. A agressividade nos negócios em nada lembra o tom conciliador que ele era obrigado a adotar nos tempos de Itamaraty. "Para quem tem espírito empreendedor, o trabalho no Itamaraty pode ser um tanto limitado", diz o embaixador Sérgio Amaral, ex-ministro do Desenvolvimento, que agora assessora a Infinity. "O Thompson tem um perfil mais apropriado para a iniciativa privada." Thompson-Flores é membro da terceira geração de uma família de diplomatas. Sua infância e adolescência foram passadas entre Brasil, França, Estados Unidos e Uruguai. Na carreira diplomática, foi chefe do setor de política comercial da embaixada brasileira em Washington. Trabalhou também nos ministérios da Fazenda e da Ciência e Tecnologia. Na iniciativa privada, montou uma consultoria de assessoria financeira, a Worldinvest, da qual ainda é sócio, mas não participa da administração. Antes de enveredar pelo pujante mundo do etanol, Thompson-Flores embarcou em um fracassado projeto de mídia. Lançou uma revista que não arrebatou leitores e anunciantes e, por causa desse naufrágio, carrega dívidas com ex-empregados.

Sergio Thompson- Flores, acionista e presidente da Infinity Bio-Energy
Perfil 48 anos, casado, dois filhos, carioca
Formação acadêmica Bacharel e mestre em relações internacionais pelo Instituto Rio Branco
Carreira Como diplomata, serviu em Washington como chefe do setor de política comercial.Na iniciativa privada, dirigiu por dez anos a World Invest, assessoria financeira e de novos negócios. Em 2006, fundou a Infinity Bio-Energy, que tem como sócios os fundos Kidd & Company,Och-Ziff Capital Management e Merrill Lynch

A passagem pelo Itamaraty rendeu a Thompson-Flores uma extensa rede de contatos dentro e fora do país. Para montar a Infinity, ele reuniu investidores de peso: os fundos de investimento americanos Kidd & Company e Och-Ziff e o banco de investimento Merrill Lynch. Mas alguns analistas do mercado levantam dúvidas quanto ao caminho escolhido pela empresa. Recentemente, o jornal inglês Financial Times publicou uma reportagem em que compara a estratégia da Infinity com a da Clean Energy Brazil, empresa que tem como sócio Marcelo Junqueira, membro de uma tradicional família paulista de usineiros, e que também captou dinheiro em Londres. Ao contrário da Infinity, a Clean não compra usinas, faz associações com produtores estabelecidos. Peter Thompson, presidente do conselho de administração da Clean, afirma que assim o capital vai diretamente para o negócio, e não para as famílias, que entram na sociedade com seus ativos. Thompson-Flores responde que sua estratégia de compra assegura a qualidade da gestão. "Ficamos livres para tomar as melhores decisões", diz ele. "Nossa motivação é diferente da de pessoas envolvidas emocionalmente com a posse da terra ou da cana." Gente do ramo também questiona a aposta da Infinity em regiões como o Espírito Santo, onde a produtividade da cana é menor do que em São Paulo. Para Thompson-Flores, a terra mais barata do que no interior paulista ou em Goiás, estado onde a Clean atua, permite tornar o negócio rentável. Outra distinção marcante entre as empresas é que a Clean, mais cautelosa, está voltada para atender ao crescimento do consumo no Brasil, garantido pelo sucesso dos carros com motor flex. A Infinity foi concebida com a premissa de que o etanol conquistará parte do mundo e está voltada para crescer com exportações e produção em outros países. "Começamos surfando a onda brasileira, mas nosso foco vai mudar rapidamente para o mercado internacional", diz Thompson-Flores.

A META DA INFINITY É PROCESSAR 26 milhões de toneladas de cana por ano até 2012. Se produzisse esse volume hoje, seria a segunda maior empresa do ramo no país, atrás apenas da Cosan. De concreto, ao final de 2007 a Infinity terá processado 5 milhões de toneladas nas quatro usinas que estão em operação -- o que a deixa bem atrás dos maiores grupos brasileiros. Isso deve mudar até 2010, com a entrada de mais nove unidades em funcionamento. No exterior, a Infinity fez parcerias na República Dominicana e no Panamá, foi pré-qualificada para um leilão de cinco destilarias na Jamaica e analisa oportunidades no México, na Ásia e na África. A idéia é transformar esses lugares em plataforma para acessar os mercados americano e europeu, que impõem pesadas barreiras ao etanol brasileiro, mas não cobram tarifa de caribenhos e africanos.

É fato que o mercado sucroalcooleiro virou palco para todo tipo de investidor. Com recursos transbordando, diferentes modelos de negócios estão sendo testados. Thompson-Flores é um representante da turma dos arrojados, que aposta na expansão do setor no curto prazo. Se o mercado de fato explodir nos próximos anos, empresas como a Infinity serão premiadas por ter saído na frente. Caso a adoção dos biocombustíveis ande a passos lentos, os empreendedores arrojados terão dificuldades de se explicar aos investidores. Afinal, o dinheiro empregado tem de voltar com lucro -- de preferência muito lucro, e o quanto antes. É nisso que acredita o próprio Thompson-Flores: "Estamos em busca do máximo retorno possível". O tempo dirá quem -- se os arrojados ou os conservadores -- está com a razão.

Sonhos de grandeza
Os grupos com os maiores planos de investimento no setor sucroalcooleiro no Brasil
Infinity
Aempresa de Sergio Thompson-Flores já investiu 1 bilhão de reais na compra e na construção de 13 usinas. Pretende captar mais 250 milhões lançando ações na Bovespa
Cosan
Maior produtora de açúcar e álcool do Brasil, tem 17 usinas e processa 40 milhões de toneladas de cana por safra. Construirá três usinas em Goiás, ao custo de 1,3 bilhão de reais
Brenco
Presidida por Henri Philippe Reichstul, planeja investir 4 bilhões de reais. Anunciou a construção de quatro usinas. O americano Steve Case é um dos sócios
Odebrecht
O grupo criou a ETH Bionergia e planeja investir 5 bilhões de reais em cinco anos. Já comprou uma usina e está construindo outra no interior de São Paulo
Santelisa Vale
Resultado da fusão entre as usinas Santelisa e Vale do Rosário, a empresa se tornou uma das líderes do setor. Planeja investir 2 bilhões de reais na construção de novas usinas
 
 
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