O agronegócio funciona como um termômetro do desempenho da Região Sul do país. A atividade é responsável por um terço do PIB de seus dois maiores estados -- Paraná e Rio Grande do Sul. Depois de uma fase em que houve grande ciclo de prosperidade provocado por sucessivos recordes no campo, uma grave crise no setor registrada nos últimos anos deixou na UTI as finanças dos governos e de boa parte das empresas locais. Além de uma seca sem precedentes na história, que arruinou o plantio de grãos, houve queda forte nas exportações provocada pelo temor da gripe aviária e pelo surgimento de focos de febre aftosa no país. A situação arruinou produtores e gerou um efeito dominó sobre os negócios do comércio e da indústria da região. Em 2005, quando os problemas estavam no auge, o índice de atividade econômica medido pela Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs) chegou a regredir 5,1%.
Aos poucos, porém, a região começa a sair do marasmo que se viu mergulhada nos últimos dois anos. O campo é justamente o maior responsável pelo retorno das boas notícias. Os primeiros sinais de recuperação começaram a ser sentidos no final de 2006 e devem consolidar-se ao longo dos próximos meses. Com uma safra estimada em 58 milhões de toneladas em 2007 -- quase 45% da produção nacional --, o Sul deve retomar o nível de atividade registrado antes da crise e voltar a ocupar o posto de celeiro do país, título que havia perdido para o Centro-Oeste. A recuperação do agronegócio puxou a produção industrial e as exportações, criando perspectivas de um final de ano gordo para o comércio regional. Em 2007, estimam os especialistas, o crescimento do Sul deverá ultrapassar os 4,5% projetados para a economia nacional.
Esses números são recebidos na região com a devida cautela, pois a crise recente não será esquecida tão facilmente por empresas como a filial brasileira da multinacional AGCO (259a colocada no ranking das 500 maiores de MM). Instalada no município de Canoas, no Rio Grande do Sul, a empresa é líder no mercado nacional de tratores com a marca Massey Ferguson. Em 2005, a AGCO viveu o seu pior ano na década, quando as vendas de tratores no mercado interno caíram 40%. Foi só a partir do último trimestre de 2006 que a empresa começou a se recuperar do baque. As melhores notícias, no entanto, chegaram no primeiro semestre de 2007, quando as vendas da Massey Ferguson aumentaram 60% na Região Sul, ante 40% no restante do país.
O Centro-Oeste, outra região que teve o crescimento acelerado nos últimos anos graças ao agronegócio, também não ficou imune à crise que atingiu o setor. Mato Grosso, que ostenta o título de maior produtor de soja do país, registrou perdas ao redor de 700 milhões de reais na safra passada, somente com o grão. Por causa de problemas como a valorização do real frente ao dólar, as exportações cresceram apenas um quarto da média nacional em 2006. A exemplo do que ocorreu com o Sul, o Centro-Oeste iniciou sua recuperação no fim do ano passado. As vendas internacionais começaram a reagir, com destaque para as de carne bovina. No primeiro semestre de 2007, Mato Grosso, dono do maior rebanho do país, aumentou em quase 50% as exportações do produto.
Os solavancos registrados nas economias do Sul e do Centro-Oeste reviveram o debate sobre a necessidade de diminuir a dependência dessas regiões do agronegócio. No caso do Sul, a instalação da indústria automotiva no Paraná, nos anos 90, foi um exemplo importante nesse sentido. No Rio Grande do Sul há programas de incentivo à indústria de papel e celulose -- menos sensível às flutuações climáticas -- para desenvolver a empobrecida metade sul do estado. Apesar da chegada de algumas empresas ou da ampliação das atividades de outras já instaladas na região, ainda falta muito para atingir um nível satisfatório de diversificação econômica. Devido à valorização do real, setores importantes, como o calçadista e o madeireiro, estão enfrentando sérios problemas no Sul. "O atual nível do câmbio é muito impactante, uma vez que os produtos da região não são facilmente redirecionados para o mercado interno", diz Fernando Seabra, professor de economia da Universidade Federal de Santa Catarina.
Por causa disso, parte considerável da indústria calçadista começou a migrar do Sul para o Nordeste, que já responde por quase metade da produção nacional do setor. Empresas de outras áreas também vêm investindo pesado nos últimos anos em estados como Pernambuco e Bahia. Devido à mão-de-obra barata e aos incentivos fiscais, estima-se que o Nordeste tenha atraído nos últimos cinco anos mais de 2 000 indústrias. Chama atenção também o porte dos negócios. Segundo os dados deste anuário de EXAME, o faturamento das 100 maiores empresas da região já superou os números do Centro-Oeste e começou a encostar nos da Região Sul (veja quadro acima). Os novos investimentos aumentaram a oferta de empregos e contribuíram para que a renda per capita nordestina atingisse níveis inéditos. Nesse aspecto, as camadas mais pobres da população contaram ainda com o auxílio do Bolsa Família. Metade da população beneficiada por esse programa vive no Nordeste. A conjuntura favorável gerou um ciclo de prosperidade. Desde 2001, a economia da região vem avançando, em média, 4,2% ao ano, quase o dobro do desempenho nacional.

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