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O avanço das bilionárias brasileiras

 | 08.08.2007

As empresas com faturamento superior a 1 bilhão de dólares estão se multiplicando num ritmo inédito. No ano passado, companhias como a fabricante de motores Weg e a rede de varejo Magazine Luiza entraram para o clube

 

Divulgação

Funcionários da Weg: clientes do exterior representam uma fatia cada vez mais importante do negócio

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Por Gustavo Poloni

EXAME 

Quando o imigrante italiano Francesco Matarazzo chegou ao Brasil, em 1881, com 40 000 dólares no bolso, o país importava um pouco de tudo: vidro, ferro, batata, cerveja, tinta e papel. Matarazzo logo percebeu que o Brasil oferecia uma miríade de oportunidades para quem tivesse características de vendedor e empreendedor. Seu primeiro negócio, uma pequena venda, foi criado em Sorocaba, no interior de São Paulo. Logo em seguida ele montou uma fábrica e, daí para a frente, não parou mais de crescer. O auge dos negócios ocorreu no início do século 20, quando seu conglomerado empresarial, a Indústrias Reunidas Francesco Matarazzo (IRFM), possuía 30 000 funcionários, 200 fábricas e filiais na Argentina, na Europa e nos Estados Unidos. Quando morreu, em 1937, Matarazzo tinha acumulado um patrimônio de 20 bilhões de dólares corrigidos. Além de protagonista de uma impressionante saga de empreendedorismo, ele entrou para a história como o criador de uma das primeiras empresas brasileiras a faturar mais de 1 bilhão de dólares por ano.

Durante muito tempo, casos de companhias que conseguiam atingir o mesmo porte da IRFM eram raríssimos na economia nacional. A primeira edição de MELHORES E MAIORES, publicada por EXAME em 1973, mostra que, em valores corrigidos, o país tinha apenas 13 empresas que haviam ultrapassado o faturamento de 1 bilhão de dólares por ano. A maior indústria do país na época era a montadora alemã Volkswagen, com receita anual de 3,3 bilhões de dólares. Mas o tempo passou, a globalização chegou e o capitalismo brasileiro -- felizmente -- é muito diferente daquele que veio com Matarazzo e seus contemporâneos. Essas transformações foram especialmente visíveis a partir da metade da década de 90. Só em 2006, 25 companhias se gabaritaram a ingressar nesse grupo, aumentando o número de bilionárias para 160 -- 12 vezes mais do que há 33 anos. No mesmo período, outras 15 empresas deixaram a lista das bilionárias.

Vários fatores explicam esse aumento. O principal é o bom momento da economia mundial. A bonança multiplicou o faturamento de companhias que apostaram na exportação ou na internacionalização de suas operações, como foi o caso da Embraer, que abriu uma fábrica na China em 2002. A história da fabricante catarinense de motores Weg (no 107 na lista das 500 maiores de MM) é outro exemplo disso. Criada em 1961, a companhia começou a mirar o mercado ex terno nos anos 70. Vinte anos depois, já tinha filiais em 19 países, como Argentina e Estados Unidos. Em 2006, segundo os dados de MELHORES E MAIORES, a Weg entrou para o clube das gigantes brasileiras, registrando vendas no valor de 1,4 bilhão de dólares. Cerca de 40% desse faturamento veio do exterior.

Nos últimos três anos, a economia nacional aproveitou a onda externa e cresceu em média 3,5% -- pouco, em comparação a países como China, Índia e até o Vietnã. Apesar dos números tímidos, o aumento teve um grande impacto na renda da população, e empresas com produtos voltados para a classe baixa viram suas vendas explodir. Melhor para o Magazine Luiza (no 152 na lista das 500 maiores de MM). Desde sua fundação, em Franca, no interior de São Paulo, a empresa voltou-se especialmente para esse mercado. Hoje, tem 350 lojas espalhadas por sete estados e faturamento de 1 bilhão de dólares.

A base para a expansão do clube das bilionárias começou a ser cimentada no início da década de 90, quando o então presidente Fernando Collor de Mello decidiu abrir o mercado brasileiro. A forte concorrência estrangeira colocou algumas empresas numa encruzilhada: ou elas se aperfeiçoavam ou fechavam as portas. Várias ficaram pelo caminho. As que sobreviveram foram recompensadas pela chegada da estabilidade econômica na metade dos anos 90, que permitiu às empresas planejarem seu crescimento.

Apesar do avanço nas últimas décadas, o número de empresas brasileiras bilionárias ainda é pequeno, especialmente quando comparado a países como os Estados Unidos. Lá, quase 3 000 companhias estão com vendas anuais acima desse patamar, segundo a consultoria americana Harris Infosource. Por aqui, a tendência é que esse número continue a aumentar -- especialmente porque o Brasil deve ganhar o investment grade das agências de risco. Com isso, deve chegar ao país uma quantidade nunca vista antes de investimentos estrangeiros. E, também, alguns setores crescem aceleradamente. É o caso da construção civil. Hoje, ela tem apenas uma representante na lista: a Odebrecht (no 137 no ranking das 500 maiores de MM). É pouco para um país no qual, somente em São Paulo, é lançado um prédio novo por dia. "Se não houver nenhuma anormalidade, nenhuma maxidesvalorização, a tendência é que o número de empresas bilionárias continue aumentando muito nos próximos anos", afirma Fernando Machado, diretor da Boston Consulting Group no Brasil.

 

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