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O Brasil que produz vai bem

 | 08.08.2007

Mais capacitadas para tirar proveito da fase de bonança mundial e do aquecimento do consumo doméstico, as 500 maiores empresas crescem mais uma vez acima da média do produto interno bruto e ampliam sua importância na economia do país

 

Lia Lubambo

Loja do Ponto Frio: vendas de eletrodomésticos e outros bens de consumo voltaram a aquecer a economia

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Por José Roberto Caetano

EXAME 

O balanço consolidado das 500 maiores empresas em operação no país é um retrato do sucesso do Brasil que produz. Essas companhias, que constituem o pelotão de frente do universo corporativo brasileiro nas áreas da indústria, comércio e serviços -- o setor financeiro fica de fora da lista --, somaram receitas de quase 700 bilhões de dólares em 2006, o equivalente a dois terços do produto interno bruto (PIB). Apenas com a exportação, elas faturaram 77 bilhões de dólares, a metade das divisas obtidas pelo país no comércio exterior. Contribuíram com mais de 100 bilhões de dólares para os cofres públicos -- 27% do total de impostos arrecadados no ano todo pelos governos federal, estaduais e municipais. E mantinham, ao final do ano passado, quase 2 milhões de empregos diretos -- contingente multiplicado por outros tantos milhões de postos indiretos nas cadeias produtivas de seus fornecedores e parceiros.

O tamanho das 500
Alguns indicadores da importância das 500 maiores empresas do país na economia brasileira — valores consolidados em 2006
Faturamento
694 bilhões de dólares
Lucro
43 bilhões de dólares
Ativos
681 bilhões de dólares
Exportação
77 bilhões de dólares
Impostos pagos
102 bilhões de dólares
Folha de salários
34,3 bilhões de dólares
Empregados
1,95 milhão

O bloco das 500 teve mais um ano de crescimento, acima, por sinal, da taxa registrada pela economia do país. Enquanto o PIB avançou 3,7% em 2006, as maiores empresas em conjunto conseguiram crescer 5,8%. Nos dois anos anteriores, o desempenho já havia superado a média geral da economia (veja quadro na página 39). Um exame mais abrangente revela que o principal grupo de empresas brasileiras acumulou em dez anos um crescimento de 46% no valor das vendas, enquanto o PIB no mesmo período evoluiu apenas 24%. Por causa dessa diferença, o faturamento das 500 agora equivale a 64% do PIB, 10 pontos percentuais a mais do que em 1997.

Esse desempenho exibido pelas maiores empresas do país -- e pelas melhores em 18 setores de atividade, conforme se verá nas páginas seguintes deste anuário -- reforça a percepção de que há dois Brasis coexistindo. Um deles é dinâmico e cada vez mais globalizado. O outro é o velho país dos compadrios, da burocracia excessiva, da lentidão das decisões e, conseqüentemente, do crescimento baixo. O bloco das 500, em sua maioria, é representante da parcela que está mais sintonizada com a prolongada fase de pujança da economia mundial. É o Brasil das empresas mais competitivas, mais empenhadas no aumento contínuo da produtividade, mais atentas à melhoria da gestão e mais plugadas nos avanços tecnológicos.

A prosperidade, evidentemente, não se distribui de maneira uniforme. O setor de energia -- liderado pela Petrobras (primeira do ranking de MELHORES E MAIORES), responsável por metade de suas receitas -- e o de mineração mostram os lucros mais robustos. A área de energia teve ganho de 15,7 bilhões de dólares e a de mineração de 9,5 bilhões. Em ambos os casos, as explicações para os retornos polpudos estão ligadas a fenômenos mundiais. Na de energia, pesa significativamente a manutenção do preço do petróleo nas alturas -- a cotação do barril dobrou de 35 dólares em 2004 para 70 dólares em meados de 2006. No caso do setor de mineração, capitaneado pela Vale do Rio Doce (oitava na lista de MM), o que há por trás dos resultados positivos é o prolongado período de demanda elevada -- e, por isso mesmo, de preços inflados -- chamado de superciclo das commodities. Iniciado há quatro anos, o ciclo de alta é estimulado pela voracidade da expansão produtiva da China, e beneficia o Brasil também como fornecedor de alimentos. Ainda no caso da mineração, merece destaque a alta rentabilidade obtida pelas empresas sobre as receitas: o lucro correspondeu a 51% do faturamento do setor. Outro ramo de lucro expressivo é o de siderurgia e metalurgia, beneficiado pelo aumento do consumo no país. As empresas dessa área, como CSN (31a da lista de MM) e Gerdau (38a), somaram um ganho de 6,3 bilhões de dólares no ano passado. Um único setor registrou prejuízo: o têxtil, que congrega toda a cadeia do vestuário e dos calçados. A perda conjunta foi de 95 milhões de dólares, em boa medida atribuída pelas empresas à apreciação do real e à dificuldade em concorrer com produtos chineses.

É interessante notar que também nos Estados Unidos as grandes corporações acumulam quatro anos seguidos de for te crescimento das receitas e dos lucros. Lá, depois das crises do estouro da bolha da internet, deflagrada em 2000, e do impacto dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, o lucro somado das 500 maiores da revista Fortune havia despencado, em dois anos, de 444 bilhões para menos de 50 bilhões de dólares em 2002. Em 2003, porém, as grandalhonas americanas recuperaram a rentabilidade e voltaram ao patamar de antes da crise. Desde então galgaram resultados melhores ano a ano e, em 2006, fecharam o balanço geral com 785 bilhões de dólares de lucro. Segundo a Fortune, "as empresas americanas estão usufruindo seu período mais suntuosamente lucrativo em 53 anos de história do ranking das 500".

Veja tabela

Tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, o grande pano de fundo dessa bonança de quatro anos é o desempenho da economia mundial. "Desde o início dos anos 70 o mundo não acumulava tantos anos seguidos com tanto crescimento", diz Luís Afonso Fernandes Lima, economista-chefe do grupo Telefônica no Brasil e presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica (Sobeet). A média do crescimento econômico global tem sido de 4,9% desde 2003, com boa contribuição do desempenho de países emergentes, como China e Índia. Com os ventos internacionais favoráveis há tanto tempo e a economia nacional começando a andar um pouco mais rápido desde o ano passado, as maiores empresas do país tendem a ficar cada vez mais robustas. Um dos indicadores mais claros desse fortalecimento é a ampliação do número das bilionárias, as que faturam mais de 1 bilhão de dólares por ano. Na lista das 500 deste anuário encontram-se 160 delas, ante 150 na edição anterior. Subiram para esse patamar empresas como o Magazine Luiza (no 152 do ranking), a Visanet (no 153), a Lojas Riachuelo (no 155) e a Novartis (no 160). Fazendo a comparação com o quadro de dez anos atrás, o aumento do número é ainda mais impressionante: eram apenas 94 as bilionárias em 1997. O clube brasileiro também deixa para trás seus correspondentes das outras duas maiores economias latino-americanas, a mexicana e a argentina. No caso do México, são 135 as companhias que faturam mais de 1 bilhão de dólares anualmente. Na Argentina, apenas 30.

Maiores e menores

Ainda assim, pode-se dizer que as empresas brasileiras estão apenas começando a ganhar corpo para a disputa mundial. Basta uma comparação com o ranking das 500 da Fortune para comprovar quanto chão ainda precisa ser percorrido. O conjunto das maiorais americanas faturou no ano passado quase 10 trilhões de dólares, mais de 14 vezes a receita obtida pelo conjunto das brasileiras. O próprio lucro consolidado pelas companhias nos Estados Unidos, de 785 bilhões de dólares, supera o valor total das vendas das 500 maiores no Brasil. A última colocada na lista americana, a Sungard, do setor de serviços de informação financeira, apresentou faturamento de 4,32 bilhões de dólares, o que a colocaria, caso estivesse instalada no Brasil, no 29o lugar da lista das 500 -- posto ocupado pela Usiminas. No sentido inverso, apenas 28 empresas brasileiras -- uma elite que começa com a Petrobras e termina com a Cemig -- teriam lugar no ranking americano.

Locomotivas da economia

Além da vitamina proporcionada pelo crescimento natural dos mercados, pesam no processo de fortalecimento das empresas outros fatores. Um dos mais importantes é a onda de fusões e aquisições, tanto entre companhias localizadas dentro do país como também as transações de corporações globais, que ecoam em suas subsidiárias. De acordo com acompanhamento realizado pela consultoria KPMG, o número de negócios anunciados no Brasil bateu recorde em 2006: foram 473. O mercado já vinha aquecido dos anos anteriores. "Desde 2004 o movimento se intensificou, com mais empresas no Brasil sendo adquiridas por concorrentes locais ou de fora, e com o reflexo de grandes operações das matrizes em suas filiais brasileiras", afirma Cláudio de Leoni Ramos, sócio da KPMG. "As razões para a consolidação são as boas perspectivas de retorno dos investimentos e a grande liquidez mundial, que favorece a captação de recursos." Entre os setores que geraram mais negócios estão os de alimentos e bebidas, produtos químicos e petroquímicos, siderurgia e metalurgia e tecnologia da informação. Recentemente, o país passou a viver também ondas de consolidação de usinas de açúcar e álcool, construtoras e frigoríficos. A concentração é acompanhada de um aumento do nível de internacionalização do setor produtivo. O levantamento feito com as 500 maiores empresas indica que a participação do capital estrangeiro no controle acionário cresceu mais de 5 pontos em dez anos, para quase 42% em 2006. As empresas nacionais privadas também avançaram, de 36,7% para 39,2%, enquanto as estatais diminuíram a participação para 21,4%.

As líderes em cada setor

Outras contribuições importantes vêm da ampliação do mercado de capitais e do aumento do interesse de fundos de investimento estrangeiros pelo Brasil, dois movimentos também nutridos pela fartura de dinheiro em busca de retorno no mundo. A expansão da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) evidencia isso. Em 2006, o Índice Bovespa, que reflete a valorização dos principais papéis no pregão, subiu 45,5% em dólares. "Foi um ano fabuloso", diz Fernando Excel, presidente da Economática, consultoria especializada em dados do mercado acionário. "E não se trata de uma euforia financeira, como ocorreu em outras ocasiões, porque o crescimento do preço das ações está bem fundamentado nos lucros das empresas." O resultado, segundo a Economática, é que o valor total de 284 empresas com ações negociadas alcançou 1,5 trilhão de reais ao final de 2006, quase quatro vezes o de 1996. No que diz respeito ao maior interesse dos investidores e companhias internacionais pelo setor produtivo no Brasil, um sinal claro é o aumento do investimento direto estrangeiro (IDE). Em 2006, o valor do IDE alcançou quase 19 bilhões de dólares. Excetuando-se 2003, o Brasil vem mantendo uma média de recepção anual de IDE acima de 15 bilhões de dólares desde 1997. Até 2000, as privatizações jogavam muita lenha nessa fornalha. Mas, nos últimos anos, o fogo é mantido apenas por negócios de compra e por abertura de novas operações. Nesse campo, o melhor parece estar por vir agora. Com a caminhada do Brasil para receber o grau de investimento, selo que agências internacionais de classificação de risco conferem a um país que não oferece perigo de dar calote na dívida, os investimentos iniciaram 2007 em alta. Estima-se que neste ano deve ser ultrapassado o recorde do IDE, registrado em 2000 com a entrada de 32,8 bilhões de dólares. Até junho, o acumulado de 12 meses já atingia 32,3 bilhões. "Os investidores já se antecipam à obtenção do grau de investimento e, depois de alcançado esse status, os fluxos devem continuar a aumentar", diz Lima, da Sobeet.

A fatia de cada um
Brasil x Estados Unidos

A saúde do mundo corporativo mostra que existe uma maturação da economia do país. Mas essa boa forma não está garantida, mesmo porque as empresas não podem funcionar como ilhas num mar de problemas. Para continuar a crescer, elas precisam que seu entorno também evolua. "Até aqui, o Brasil vem crescendo com a liderança das empresas e com a ajuda financeira do mundo, mas avançamos pouco nas reformas", diz Excel. Seria o caso de aproveitar melhor o momento para resolver problemas de fundo, como o caos tributário, a burocracia paralisante, a infra-estrutura digna de país subdesenvolvido. Sairiam ganhando tanto as empresas quanto o país.

Fase favorável

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