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Não há charme em nenhuma das salas de aula da Anhanguera Educacional, rede de ensino superior com 20 unidades espalhadas pelos estados de São Paulo e Goiás. As paredes geralmente são de blocos aparentes e pintadas de branco. O chão, de cimento. Na maioria dos casos, as escolas estão instaladas em prédios que até pouco tempo atrás eram ocupados por galpões de fábricas. A esmagadora maioria de sua clientela é formada por alunos de classe média e média baixa que trabalham durante o dia e não podem contar com a ajuda da família para pagar os estudos. Por isso, mais de 80% dos cursos são noturnos. As mensalidades giram em torno dos 400 reais, até 50% mais baratas que as das principais concorrentes. Não há charme mesmo na Anhanguera, e ele, de fato, não deve existir. Salas bonitas e superequipadas, recursos de última geração e laboratórios ultramodernos iriam contra o modelo de negócios da empresa. A Anhanguera nasceu para ser uma espécie de Casas Bahia da educação.
Com esse modelo de negócios voltado exclusivamente para a base da pirâmide, a Anhanguera, fundada há apenas 13 anos, vem crescendo a um ritmo espantoso. Nos últimos três anos, seu faturamento praticamente triplicou, passando de 52 milhões para 143 milhões de reais. Seis campi foram inaugurados e cinco faculdades compradas nos últimos 18 meses. Com isso, o número de alunos mais que dobrou -- passando de 22 000 para 48 000. Hoje, a rede tem uma lista de 80 municípios em diversos estados com potencial para abrigar suas escolas. Para dar fôlego financeiro à expansão, em março a Anhanguera fez sua estréia na Bovespa, tornando-se a primeira empresa de capital aberto do país no segmento de educação. Agora, outras instituições de ensino, como a rede Pitágoras, de Minas Gerais, e a Estácio de Sá, no Rio de Janeiro, estão prestes a adotar a mesma estratégia.
O crescimento da Anhanguera chama a atenção sobretudo porque o setor de educação está longe de viver um período de euforia. Com o aumento do número de escolas de ensino superior -- entre 2000 e 2007 a quantidade de instituições no país dobrou --, hoje sobram vagas nas salas de aula. A ociosidade no setor privado é estimada em 50% -- e a maioria das escolas opera no vermelho. "Só quem tem escala e gestão profissional vai sobreviver", afirma Ryon Braga, da consultoria Hoper, especializada no setor educacional. E escala e gestão são itens cruciais no modelo de negócios da Anhanguera. "A chance de crescimento está nas camadas populares, que apostam em um diploma de nível superior para melhorar de vida", diz Ricardo Scavazza, diretor de relações com investidores da Anhanguera e sócio da Pátria Investimentos, gestora de recursos que, por meio de um de seus fundos, associou-se à rede em 2003 e, logo depois, assumiu seu controle.